Saúde
Sal, volume de água e carambola: o que impacta a saúde renal | Letra de Médico
Hábitos podem piorar o estado dos rins, que muitas vezes sofrem sem dar sintomas
BATANEWS/VEJA
Pouca gente sabe, mas os rins podem perder função sem provocar sintomas. A doença renal crônica (DRC) pode avançar silenciosamente por muito tempo. Por isso, antes de falar em água, sal ou alimentação, há uma pergunta mais importante: você tem algum motivo para acompanhar sua saúde renal?
Hipertensão arterial e diabetes estão entre os principais fatores associados à DRC. Reconhecer quem está sob maior risco é fundamental: não ter sintomas não é a mesma coisa que não ter doença renal.
E como avaliar os rins antes que eles “reclamem”? A creatinina permite estimar a taxa de filtração glomerular, mas não conta toda a história. A presença de albumina na urina também pode indicar lesão renal e ajudar a estimar o risco de progressão. Gosto de explicar assim: uma coisa é saber quanto o rim filtra; outra é descobrir se o filtro está deixando escapar algo que deveria permanecer no sangue.
Depois vem a prevenção. Controlar a pressão arterial e diabetes é mais importante para a saúde renal do que qualquer alimento isolado ou receita milagrosa.
O sódio, por exemplo, não está apenas no saleiro. Ultraprocessados podem concentrá-lo em grandes quantidades. Talvez seja tão importante aprender a olhar o rótulo quanto esconder o saleiro.
E a água? “Doutora, quanto preciso beber para limpar os rins?” é uma pergunta frequente. Os rins não precisam ser “lavados”. Hidratação adequada é importante, mas não existe uma quantidade universal de água capaz de prevenir doença renal.
Outro cuidado é a automedicação. Anti-inflamatórios podem interferir nos mecanismos que mantêm o fluxo sanguíneo renal e, em algumas situações, precipitar lesão renal aguda. Não significa que sejam proibidos. Significa que comum não é sinônimo de inofensivo.
Quando a DRC já existe, algumas regras mudam. Alimentos ricos em potássio ou fósforo não precisam ser excluídos automaticamente. Isso depende da função renal, dos exames, dos medicamentos e de cada paciente.
A dieta renal não deveria ser uma lista pronta de proibições, mas uma orientação individualizada. O mesmo vale para líquidos: ter DRC não significa automaticamente precisar restringi-los.
E então chegamos à carambola. Em quem apresenta redução importante da função renal, a caramboxina presente na fruta pode se acumular e provocar soluços persistentes, confusão mental, convulsões e quadros neurológicos graves. A fruta também é rica em oxalato, e seu consumo excessivo tem sido associado à lesão renal aguda.
A lição vai além da carambola: natural não significa necessariamente inofensivo, e saudável para uma pessoa não significa saudável para todas.
No fim, cuidar dos rins é menos sobre fórmulas milagrosas e mais sobre conhecer o próprio risco. E hoje há uma razão adicional para identificar a DRC precocemente: nos últimos anos, novas estratégias terapêuticas ampliaram nossa capacidade de reduzir o risco de progressão da enfermidade.
Quanto antes reconhecemos a DRC, maior a oportunidade de oferecer o tratamento adequado e preservar a função renal.
Por isso, não espere os rins “reclamarem” para começar a cuidar deles. Hoje, reconhecer a doença precocemente pode mudar de forma concreta sua trajetória.
*Lectícia Barbosa Jorge é médica nefrologista, doutora em Nefrologia pela FMUSP e gerente médica corporativa da Fresenius Medical Care





