Novo exame de sangue para Alzheimer: quem deve fazer?

Teste acaba de ser aprovado no Brasil, mas não se destina a todo check-up

BATANEWS/VEJA


Marcador no sangue: avanço na abordagem do Alzheimer (iStock/Getty Images)

Durante décadas, confirmar o Alzheimer foi uma travessia longa. Primeiro vinham os esquecimentos, as perguntas repetidas, o caminho de casa que de repente parecia estranho. Depois, a peregrinação por consultórios, testes de memória e, quando se buscava mais certeza, exames caros ou invasivos: a punção lombar, que retira líquido da coluna, ou o PET, uma tomografia sofisticada disponível em poucos centros do país. Essa travessia acaba de ficar mais curta.

A Anvisa aprovou o registro do Elecsys pTau217, exame de sangue desenvolvido pela Roche Diagnóstica em parceria com a Eli Lilly. Ele mede uma forma específica da proteína tau, a p-tau217, que funciona como uma espécie de impressão digital das alterações cerebrais típicas da doença.

Para entender o alcance da novidade, e também seus limites, conversei com o neurologista Diogo Haddad, um dos nomes de referência da neurologia brasileira. “É errado o raciocínio de que pTau217 positivo é sinônimo automático de demência por Alzheimer. O exame identifica uma assinatura biológica fortemente associada à doença, mas o diagnóstico do paciente continua dependendo da integração entre história clínica, avaliação cognitiva, funcionalidade, exames e biomarcadores “, resumiu ele.

O raciocínio por trás do teste é simples. No Alzheimer, duas proteínas saem do controle. A beta-amiloide se acumula em placas entre os neurônios; a tau se deforma e se embaralha dentro deles. Fragmentos desse processo escapam para a corrente sanguínea.

Os estudos mostraram que a p-tau217 acompanha de perto o acúmulo das placas amiloides, com desempenho comparável ao da análise do líquor quando o PET é usado como referência. Na prática, um resultado positivo indica alta probabilidade de que essas alterações estejam presentes. Um negativo ajuda a afastar a hipótese.

A quem o teste é indicado

O exame não foi feito para qualquer pessoa curiosa sobre o próprio futuro. A indicação é para quem já apresenta sinais de declínio cognitivo e passou por avaliação médica. Não se trata de um teste de rastreamento para quem está bem, nem de um oráculo para quem tem casos na família e quer apenas saber se um dia será a sua vez.

“O que não devemos fazer é transformar o ElecsyspTau217 em um exame de check-up. Uma pessoa cognitivamente normal, sem sintomas, não deveria procurar o teste simplesmente porque tem 60 ou 70 anos, porque tem casos de Alzheimer na família ou porque está preocupada com o futuro” aponta Haddad, que é professor da Santa Casa de São Paulo.

Há uma razão sólida para essa cautela. O exame revela a presença das alterações biológicas da doença, mas não fecha o diagnóstico sozinho. O Alzheimer continua sendo um diagnóstico clínico, construído com a história do paciente, o exame neurológico, os testes cognitivos e, quando necessário, a imagem. Um biomarcador lido fora desse contexto pode produzir mais angústia do que respostas, e um resultado alterado em alguém sem sintomas abre perguntas que a medicina ainda não sabe responder.

Antes de qualquer exame sofisticado, existe o 10-CS, um teste de rastreio cognitivo criado por pesquisadores brasileiros. Leva de dois a três minutos: o paciente diz o ano, o mês e o dia, cita o maior número de animais que conseguir em um minuto e tenta lembrar três palavras apresentadas pouco antes. A pontuação, ajustada pela escolaridade, sinaliza quem precisa ser investigado a fundo. É simples, barato e pode ser feito em qualquer consultório. O desafio é que a grande maioria dos médicos sequer conhece o teste.

E deveria conhecer, porque o cérebro não adoece isolado do resto do corpo. Diabetes, obesidade, colesterol alto, pressão alta e sedentarismo, as doenças mais comuns do consultório do clínico, estão entre os grandes fatores de risco para demência, incluindo o Alzheimer.

Um estudo publicado em 2025 no The Lancet Regional Health – Americas estimou que quase 60% dos casos de demência no Brasil estão ligados a 14 fatores de risco modificáveis. Por isso, geriatras, endocrinologistas, cardiologistas e clínicos, que acompanham esses pacientes por anos, estão em posição privilegiada para incluir o 10-CS na rotina e perceber os primeiros sinais.

O tamanho do problema explica a urgência. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, do Ministério da Saúde, cerca de 2,7 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivem com demência, e o Alzheimer é sua causa mais comum. Aproximadamente 80% deles não têm diagnóstico. Outros 8% dos idosos, segundo o estudo ELSI-Brasil, apresentam comprometimento cognitivo leve: falhas de memória e atenção além do esperado para a idade, mas que ainda não roubam a autonomia. É nessa fase que um diagnóstico preciso vale mais.

Por isso tanta expectativa em torno do exame de sangue. Nos últimos anos chegaram medicamentos que atacam diretamente as placas amiloides, indicados para as fases iniciais. E precisa ser pesado contra efeitos colaterais, mas a lógica do cuidado mudou: para tratar cedo, é preciso identificar cedo, e com precisão. Um exame simples de sangue pode acelerar justamente essa etapa, além de ajudar a separar o Alzheimer de outras causas de esquecimento, algumas delas tratáveis.

Desafios na prática

Resta o velho obstáculo brasileiro: o acesso. O novo teste roda em equipamentos automatizados já instalados em muitos hospitais e laboratórios, o que deve facilitar sua oferta. Ainda não há preço definido, e ele deve variar de local para local, conforme cada laboratório. Como referência, exames de sangue para Alzheimer já oferecidos na rede privada custam hoje de cerca de R$ 1.800 a R$ 5 mil, sem cobertura do SUS nem obrigatoriedade nos planos de saúde.

“Talvez a maior mudança seja permitir que uma parte da investigação biológica da doença de Alzheimer, que historicamente dependia de PET amiloide ou da análise do líquor, possa começar com uma simples coleta de sangue. Isso tem potencial para ampliar enormemente o acesso ao diagnóstico “, afirma Haddad.

A ciência ainda não aprendeu a apagar o Alzheimer. Mas está aprendendo a enxergá-lo mais cedo, com menos dor e menos espera. Numa doença que rouba justamente o tempo, chegar antes já é uma grande vitória. Resta agora a classe médica saber utilizar a arma certa no momento certo. E tudo começa com uma boa consulta.