Cotidiano
O que você ganha quando acelera um áudio?
BATANEWS/FOLHA
Vivemos em um constante estado de urgência. Tudo é para ontem e precisa ser resolvido imediatamente. Nessa batalha contra o relógio, tentamos acelerar tudo o que está ao nosso alcance, seja consumindo um vídeo de 1 minuto em 30 segundos, seja abreviando palavras em aplicativos de mensagens.
Em teoria, ferramentas que agilizam tarefas maçantes podem fazer com que sobre mais tempo livre para o que importa de verdade. O problema é quando a velocidade passa a ditar o ritmo sempre, inclusive de momentos que não precisam ser eficientes nem produtivos. Para ter uma relação mais saudável com o tempo, é preciso refletir sobre o que fica pelo caminho na corrida para fazer tudo cada vez mais rápido.
Segundo uma pesquisa do Instituto Datafolha, cerca de 43% dos brasileiros dizem 'viver na velocidade 2x'. Entre as mulheres, esse número chega a 55%. Não é difícil entender o motivo.
Em apenas 24 horas, a lista de responsabilidades é longa: trabalhar, cuidar da casa e da família, se exercitar, comer bem, beber água, dormir... A isso se somam o fato de 15 milhões de trabalhadores descansarem apenas uma vez por semana, de acordo com o Ministério do Trabalho, e as duas horas diárias gastas, em média, nos deslocamentos nas capitais do país, como indica uma pesquisa Ipsos-Ipec. O tempo que sobra quase nunca é suficiente para curtir os filhos, encontrar os amigos, consumir algum tipo de entretenimento ou cultivar um hobby.
Acelerar acaba sendo uma tentativa de fazer tudo caber na agenda. Só que quanto mais vivemos nesse ritmo frenético, mais o cérebro se acostuma. E isso faz com que o normal pareça devagar demais. De repente, falta paciência para encarar a vida como ela é: o amigo que dá voltas para chegar ao fim da história, a pessoa que conta moedas na fila do caixa, o ônibus que demora a passar. Isso sem falar da crescente dificuldade de assistir a um longa-metragem, ler um livro ou mesmo ouvir uma música até o fim.
Uma pessoa fala, em média, 150 palavras por minuto. Ao dobrar ou até triplicar essa velocidade acelerando um áudio, ainda conseguimos entender o que está sendo dito. Mas isso prejudica a retenção da informação e a qualidade da compreensão.
Em um artigo publicado na The Conversation, o pesquisador Marcus Pearce, da área de Ciência Cognitiva da Queen Mary University of London, no Reino Unido, explica que as informações que recebemos são armazenadas temporariamente em um sistema de memória, onde serão combinadas e transformadas até serem transferidas para a área das lembranças de longo prazo.
Quando tudo chega rápido demais, o volume de informações consumidas ultrapassa a capacidade do cérebro de processá-las e essa sobrecarga cognitiva faz com que nossa capacidade de absorção fique comprometida. No fim, em vez de poupar tempo, perdemos paciência e atenção. Além disso, esse esforço extra pode trazer a sensação de cabeça saturada e irritação, contribuindo para o aumento do estresse.
Seria menos nocivo se realmente economizássemos esses segundos, minutos ou horas do nosso dia para gastá-los encontrando os amigos, dormindo mais ou praticando um esporte. Mas a verdade é que o tempo poupado muitas vezes tem um destino: as redes sociais. Essa consequência é especialmente relevante na vida do brasileiro, que passa 116 horas semanais conectado à Internet, segundo uma pesquisa da NordVPN.
Isso não significa que devemos demonizar as telas ou tentar navegar no mundo em câmera lenta. O problema não é estar conectado, e sim se ver incapaz de sustentar momentos de tédio, ou simplesmente de silêncio, sem preencher o vazio com mais um vídeo. É ao não escolhermos com cuidado onde investir o nosso tempo que ele, de fato, escorre pelo ralo.
Para sair dessa dinâmica, vale começar por incluir no cotidiano atividades cujo ritmo não pode ser acelerado com um clique. Ler algumas páginas de um livro sem checar mensagens no celular, cozinhar algo que exige tempo ou aprender uma habilidade manual são formas de praticar a paciência no cotidiano.
Também dá para ir à academia sem fones de ouvido ou esperar o ônibus observando ao redor, em vez de recorrer automaticamente ao celular.
Esses intervalos podem parecer entediantes no início, sobretudo quando estamos acostumados a preencher qualquer pausa com estímulos. Mas, aos poucos, a tendência é que permanecer em uma situação sem tentar apressar o seu fim se torne, novamente, algo natural.





