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Do campo ao comando de Ivinhema: Juliano Ferro conta sua história, reafirma alianças e expõe sua forma de fazer política
Em entrevista ao Bata News, prefeito revisita infância marcada pela pobreza, fala sobre o pai, os primeiros negócios, a ascensão política, as obras de sua gestão, os ataques nas redes sociais e abre o jogo sobre os apoios políticos
BATANEWS/NEY OLEGáRIO
Conhecido nacionalmente como o “prefeito mais louco do Brasil”, Juliano Ferro é hoje uma das figuras políticas mais populares e, ao mesmo tempo, de maior destaque no Mato Grosso do Sul.. Mas, antes dos vídeos que viralizaram nas redes sociais, das polêmicas, das respostas diretas aos adversários e do personagem que conquistou milhões de visualizações, existe uma história que começou muito antes da política.
Em uma longa entrevista ao podcast Bata News, Juliano Ferro voltou no tempo, falou sobre a infância, a pobreza, o trabalho desde criança, a ausência da mãe, a criação ao lado do pai, Preto Ferro, a saída de casa aos 15 anos, os primeiros negócios, a vida fora de Mato Grosso do Sul e o sonho que, segundo ele, sempre carregou, um dia ser prefeito de Ivinhema.
A entrevista mostra um Juliano diferente daquele personagem que o Brasil passou a conhecer pela internet. Por trás do prefeito irreverente, ele apresenta uma trajetória marcada por dificuldades, trabalho e ambição. E, ao falar de sua história, também deixa claro que considera essa caminhada fundamental para entender sua maneira de fazer política.
A infância difícil e a marca deixada pelo pai
Juliano Ferro nasceu em 1983 e, segundo relatou, cresceu em uma família humilde. Filho de Preto Ferro, figura conhecida em sua história pessoal, ele afirma que enfrentou dificuldades ainda nos primeiros anos de vida.
Na entrevista, Juliano contou que começou a trabalhar muito cedo, ajudando na lida com o gado e na produção de leite. Ele também falou sobre a separação dos pais quando ainda era criança e afirmou que foi criado pelo pai, em uma fase que descreve como difícil e de muitas privações.
Mais do que a origem humilde, Juliano diz que carrega do pai dois ensinamentos que passaram a orientar sua vida, honestidade e trabalho. Desde pequeno, segundo ele, a cobrança era para que aprendesse a trabalhar e assumisse responsabilidades.
O menino, porém, também já demonstrava características que, anos mais tarde, seriam levadas para a política. Juliano se descreve como ativo, arteiro, meio baguncento e com espírito de liderança. Mesmo em meio às dificuldades, afirma que nunca se conformou com a situação em que vivia.
Aos 15 anos, tomou uma decisão que mudaria sua trajetória, saiu de casa para tentar construir a própria vida.
Uma novilha, R$ 150 e o começo da busca por independência
A história que Juliano conta sobre o início da vida adulta é uma das mais marcantes da entrevista.
Ele havia interrompido os estudos e, anos depois, já como prefeito, concluiu a educação básica. Mas, aos 15 anos, a prioridade era sobreviver e trabalhar. Para começar, vendeu uma novilha por R$ 150.
Com pouco dinheiro, conseguiu se instalar em uma pequena kitnet, onde recebeu ajuda para começar a vida. Segundo contou, tinha um colchão, um fogareiro, uma frigideira e poucos utensílios. Era ali que preparava a própria comida enquanto tentava encontrar um caminho para crescer.
Foi também nessa fase que começou a empreender.
Juliano relatou que passou a viajar ao Paraguai e iniciou a atividade comercial vendendo CDs. Depois, migrou para a compra e venda de motocicletas e, gradativamente, entrou no ramo dos negócios. Ele relembra que o primeiro dinheiro conquistado com as vendas representou, para ele, a prova de que poderia construir algo maior.
Mais tarde, morou durante cinco anos em Belém, no Pará, onde montou uma empresa de repasse de veículos. Segundo o prefeito, foi essa atividade que lhe proporcionou maior estabilidade financeira e consolidou sua experiência como empresário.
Até hoje, afirma que continua ligado ao ramo de veículos e que sua vida profissional não se resume ao cargo de prefeito.
O sonho de entrar na política nasceu antes da eleição
Antes de ser vereador e prefeito, Juliano Ferro diz que já sonhava com a política.
Na entrevista, afirmou que, ainda jovem, tinha vontade de ser vereador e prefeito. Para ele, a realização de grandes projetos começa com a capacidade de acreditar em um sonho, mesmo quando outras pessoas consideram esse objetivo impossível.
Essa confiança, segundo Juliano, acompanhou sua trajetória política.
Em 2016, foi eleito vereador. No início de 2017, ao tomar posse, afirma que já havia decidido que disputaria a Prefeitura de Ivinhema. O plano, segundo ele, começou praticamente no primeiro dia de mandato como vereador.
Quatro anos depois, conseguiu vencer a eleição para prefeito.
A vitória, na avaliação do próprio Juliano, representou o rompimento de um ciclo político local. Posteriormente, em sua reeleição, afirma ter recebido uma votação ainda mais expressiva e atribui o resultado ao reconhecimento pelo trabalho realizado durante o primeiro mandato. Também declarou, durante a entrevista, que pretende participar diretamente da construção de uma candidatura de sucessão para a prefeitura em 2028.
“O mais louco do Brasil”: um apelido que virou marca política
Poucas figuras políticas de Mato Grosso do Sul conseguiram transformar um apelido em uma marca tão forte quanto Juliano Ferro.
Segundo ele, o título de “prefeito mais louco do Brasil” nasceu justamente durante a disputa eleitoral. Adversários, segundo seu relato, utilizavam a palavra “louco” para questionar sua capacidade de administrar o município.
Juliano decidiu inverter a narrativa.
Passou a responder que poderia até ser “louco”, mas seria “louco para trabalhar”. Depois da vitória, adotou o bordão e transformou a expressão em uma marca pessoal.
Na entrevista, afirmou que o apelido, que inicialmente teria sido usado para atacá-lo, acabou se tornando parte da identidade política que ajudou a projetá-lo muito além de Ivinhema.
O personagem irreverente passou a ocupar espaço nas redes sociais, onde Juliano afirma ter construído um público de grande alcance.
Mas ele também faz uma distinção entre o personagem e o homem.
Segundo o prefeito, existem momentos em que aparece sorrindo, brincando e produzindo conteúdo para a internet, mesmo enfrentando problemas pessoais. Ele afirma que as pessoas costumam enxergar apenas o personagem público e esquecem que, por trás do prefeito e das polêmicas, existe uma vida pessoal marcada por perdas, responsabilidades e dificuldades.
O filho de Preto Ferro, o pai de três filhas e a saudade de quem partiu
Um dos momentos mais pessoais da entrevista aconteceu quando Juliano falou sobre a família. Ele contou ser pai de três filhas e falou sobre o amor que sente por elas. Também relatou que a rotina intensa e as responsabilidades políticas muitas vezes o mantêm distante da família, mas afirmou que procura aproveitar ao máximo os momentos em que pode estar presente.
Juliano também falou sobre a morte do pai, Preto Ferro, apontando essa perda como um dos momentos mais difíceis de sua vida. Segundo seu relato, o pai não chegou a vê-lo assumir a Prefeitura de Ivinhema.
É nesse momento que o personagem político dá lugar ao filho. Na entrevista, Juliano afirma carregar consigo a saudade do pai e reconhece que, apesar da imagem de força que apresenta publicamente, também enfrenta momentos de tristeza e sofrimento longe das câmeras.
Pai de três filhas, Juliano Ferro também abriu espaço na entrevista para falar sobre seu lado mais pessoal, distante das obras, da política e das polêmicas nas redes sociais. Ele falou com emoção sobre Stephanie, Mirela e Isa e revelou que está prestes a viver uma nova fase na família: será avô pela primeira vez. Stephanie, sua filha que mora no Japão, está grávida de um menino.
Aos 43 anos, Juliano disse ter sido “agraciado com três filhas” e agora aguarda, com expectativa, a chegada do primeiro neto. Durante a entrevista, destacou o amor que sente pelas filhas e a importância de se fazer presente na vida delas, mesmo diante da rotina intensa e das responsabilidades do cargo de prefeito.
A política para Juliano começa pelo município
A visão política apresentada pelo prefeito ao longo da entrevista é diretamente ligada à gestão municipal.
Para Juliano Ferro, o prefeito deve buscar recursos, construir alianças e cobrar resultados de deputados, senadores e outras lideranças políticas. Ele defende que os apoios eleitorais não devem ser definidos apenas por ideologia ou partido, mas também pela relação que os candidatos mantêm com o município.
Essa lógica explica uma das declarações mais importantes da entrevista, Juliano afirma que pode apoiar políticos de partidos diferentes, inclusive de campos ideológicos distintos, desde que considere que essas lideranças contribuíram com Ivinhema.
Para ele, o principal critério é saber quem ajudou o município por meio de recursos, emendas e parcerias.
Ao falar diretamente aos eleitores, Juliano defendeu que a população acompanhe os candidatos apoiados pelo prefeito e cobre resultados. Segundo sua avaliação, a escolha de representantes deve estar relacionada também à capacidade dessas lideranças de destinar investimentos para as cidades.
A posição reforça uma característica que atravessa toda a entrevista, Juliano Ferro se apresenta como um político pragmático, disposto a construir relações para além das fronteiras partidárias quando considera que isso pode trazer benefícios para Ivinhema.
Direita, PL e apoios que ultrapassam a questão partidária
Na parte política da entrevista, Juliano também deixa clara sua identidade ideológica.
Ele se declara homem de direita, ligado ao PL, e afirmou apoio a Flávio Bolsonaro. Segundo seu relato, sua ligação com o campo político bolsonarista não é recente e vem de campanhas anteriores.
Ao mesmo tempo, rejeita a ideia de que sua filiação partidária o obrigue a apoiar todos os candidatos da mesma legenda.
Para Juliano, partido não é o único critério.
O prefeito afirmou que não pretende apoiar automaticamente um candidato apenas porque pertence à sua sigla. Segundo ele, o histórico de contribuição para Ivinhema pesa diretamente em suas decisões políticas.
Na entrevista, citou lideranças nas quais afirma confiar e declarou apoio a nomes como Eduardo Riedel, Reinaldo Azambuja, Mara Caseiro e Zé Teixeira, além de reafirmar seu alinhamento com Flávio Bolsonaro.
Mas uma das declarações que mais chamam atenção é justamente sua disposição de dialogar politicamente fora do próprio campo ideológico.
Vander Loubet e a defesa de uma política baseada em resultados
Ao explicar seus apoios, Juliano Ferro citou Vander Loubet e afirmou que pretende apoiar quem, em sua avaliação, ajudou Ivinhema.
O prefeito reconheceu a diferença partidária e ideológica, mas afirmou que não pretende transformar a política em uma escolha automática baseada exclusivamente na sigla. Para ele, se uma liderança contribuiu com recursos e investimentos para o município, esse histórico deve ser considerado.
A posição evidencia a forma como Juliano enxerga sua atuação, ele se apresenta como político de direita, mas afirma que, na defesa dos interesses do município, está disposto a apoiar lideranças de outras correntes.
Durante a entrevista, também reforçou que prefere manter coerência com suas posições anteriores e explicou sua decisão de não acompanhar automaticamente mudanças de alianças apenas por conveniência política. Ao comentar apoios ao Senado e outras composições, afirmou que não se vê obrigado a seguir uma orientação partidária quando entende que ela contraria suas convicções ou sua leitura sobre quem efetivamente ajudou o município.
Em outro trecho, reafirmou que a questão partidária não será o único filtro de suas escolhas e voltou a citar o apoio a Vander Loubet com base, segundo ele, no histórico de contribuição ao município.
A mensagem política de Juliano é clara, ele pretende manter sua identidade ideológica, mas sem abrir mão de alianças que considere importantes para trazer resultados a Ivinhema.
“Eu não voto por partido”
Essa talvez seja uma das frases que melhor resumem a posição política exposta pelo prefeito.
Juliano afirma que não pretende ser conduzido automaticamente por decisões partidárias e que prefere avaliar cada candidatura individualmente. Para ele, o político precisa ser analisado pelo que fez, especialmente quando se trata da relação com o município.
A fala ajuda a explicar por que sua movimentação política chama atenção no cenário regional.
Filiado ao PL e identificado com a direita, Juliano mantém lideranças desse campo entre seus principais apoios. Mas, ao mesmo tempo, admite apoio e diálogo com políticos de outras siglas quando considera que existe uma relação de parceria com Ivinhema.
É uma estratégia que coloca o município no centro de seu discurso político.
A gestão como principal bandeira
Ao falar da administração, Juliano Ferro aproveitou a entrevista para fazer uma defesa detalhada de sua gestão.
Segundo ele, encontrou uma cidade com diversos problemas estruturais e afirma que sua administração mudou o cenário de Ivinhema. Entre as ações citadas estão investimentos em iluminação pública, pavimentação, recuperação de avenidas, reforma de praças, obras na rodoviária, melhorias em estradas rurais, aquisição de máquinas, construção de casas, Vila do Idoso, unidades de saúde, escola e outros investimentos.
O prefeito também citou recursos próprios, emendas e parcerias políticas como parte da estratégia para viabilizar obras.
As informações apresentadas na entrevista são declarações do próprio Juliano sobre sua gestão e sua avaliação das administrações anteriores. Ele afirma que a transformação do município foi possível por meio de planejamento, busca por recursos e articulação com deputados, senadores, governo estadual e governo federal.
Ao longo da conversa, Juliano também relaciona a divulgação das obras à sua estratégia política.
Para ele, não basta fazer, é preciso mostrar.
Se a administração municipal é uma das bases de sua imagem política, as redes sociais são a outra.
Juliano Ferro afirma que percebeu o potencial da internet para ampliar a divulgação de seu trabalho e construiu um estilo próprio de comunicação. Em vez de manter uma postura tradicional, passou a usar vídeos diretos, linguagem popular, humor, provocações e respostas rápidas.
A estratégia transformou um prefeito do interior de Mato Grosso do Sul em personagem conhecido nacionalmente.
Na entrevista, Juliano defende que uma administração precisa mostrar à população o que está sendo feito. Ele afirma que não costuma esperar grandes cerimônias para divulgar as ações, preferindo registrar obras durante a execução e utilizar a internet para apresentar o andamento dos trabalhos.
É também pelas redes sociais que ele enfrenta críticas.
Segundo Juliano, divergências políticas e ideológicas devem ser respeitadas, mas ataques pessoais, mentiras e distorções de fatos provocam reação. Ele afirma que utiliza o alcance de suas plataformas para apresentar sua própria versão dos acontecimentos e responder a acusações.
Entre o personagem e o prefeito
Ao final da entrevista, fica evidente que Juliano Ferro construiu uma identidade política baseada em contrastes.
É o prefeito que fala em administração e recursos, mas também o personagem irreverente das redes sociais.
É o homem que se declara de direita e ligado ao PL, mas afirma apoiar lideranças de outras siglas quando entende que elas contribuíram com Ivinhema.
É o político que responde aos adversários com dureza, mas diz respeitar divergências de opinião.
É o prefeito que se tornou conhecido pelo título de “mais louco do Brasil”, mas que atribui sua trajetória à disciplina do trabalho aprendida ainda na infância.
E é justamente essa mistura que ajuda a explicar o fenômeno Juliano Ferro.
Sua entrevista ao Bata News não foi apenas uma conversa sobre eleições ou apoios políticos. Foi uma tentativa de contar a história que, segundo ele, existe antes da fama.
A história do menino criado em meio às dificuldades, que trabalhava desde cedo, saiu de casa aos 15 anos, começou a vender CDs, entrou no comércio de veículos, construiu estabilidade financeira, entrou na política como vereador e chegou à Prefeitura de Ivinhema.
Hoje, com uma imagem consolidada nas redes sociais e forte presença no cenário político regional, Juliano Ferro deixa claro que pretende continuar participando ativamente das disputas e articulações políticas.
E, se há uma mensagem que atravessa praticamente toda a entrevista, é a de que ele não pretende abandonar o estilo que o tornou conhecido.
Juliano Ferro continua sendo o mesmo personagem que seus adversários ajudaram a criar — mas, na versão dele, a “loucura” sempre teve um objetivo: trabalhar, construir alianças e tentar deixar uma marca na história de Ivinhema.





