Governo libera renegociação, mas produtor ainda enfrenta barreiras

Portaria da Fazenda destrava operações, mas bancos ainda não estão preparados para atender os produtores

JOSé CâNDIDO


Colheita representa receita no campo, mas também chega acompanhada de custos e dívidas. (Foto arquivo)

A renegociação das dívidas rurais ganhou o aval que faltava do Ministério da Fazenda, mas ainda enfrenta um obstáculo decisivo: sair das normas e chegar ao produtor. A publicação da portaria que autoriza a equalização das taxas de juros permite aos bancos avançar nas novas operações de crédito, porém entidades do agronegócio alertam que o acesso aos recursos continua difícil.

A medida representa uma etapa importante na regulamentação da Medida Provisória 1.376/2026. Com a autorização para equalização dos juros, instituições financeiras habilitadas podem colocar em funcionamento as linhas destinadas à renegociação do endividamento rural.

O avanço ocorre depois de mais de 20 entidades do setor entregarem à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) um manifesto cobrando providências para que o programa anunciado pelo governo federal funcionasse efetivamente.

A portaria resolveu parte do problema. Agora, a pressão se desloca para os bancos.

Prazo terminou antes de bancos estarem prontos

Uma das principais preocupações é justamente o desencontro entre o calendário estabelecido pelo governo e a capacidade das instituições financeiras de colocar as novas regras em funcionamento.

Segundo a presidente-executiva da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Tânia Zanella, terminou o prazo de 30 dias de suspensão das dívidas, incluindo juros, previsto pela medida provisória. O problema é que, segundo ela, parte dos bancos ainda não estava preparada para receber as operações.

A entidade negocia com o Ministério da Fazenda a ampliação desse prazo.

“Esse prazo acabou agora na sexta-feira', afirmou Zanella. Segundo ela, a prorrogação é necessária porque as instituições que vão operar as linhas ainda não estão em condições de receber plenamente as operações de endividamento rural.

Na prática, produtores que aguardaram a regulamentação podem ficar em uma espécie de intervalo: a linha existe oficialmente, mas o acesso ainda não ocorre na velocidade necessária.

Crédito existe, acesso ainda é desafio

A dificuldade de transformar a regulamentação em dinheiro disponível é hoje a principal preocupação das entidades.

A ausência da portaria da Fazenda aparecia no manifesto do agronegócio como um dos grandes entraves. Superada essa fase, o setor pretende acompanhar agência por agência como os bancos interpretarão e aplicarão as regras.

Entram nessa conta critérios de elegibilidade, análise de crédito, documentação e garantias exigidas.

Zanella orienta produtores que encontrarem dificuldades a comunicarem as entidades representativas. A estratégia é reunir casos concretos para identificar gargalos e levar os problemas às negociações com o governo federal.

Dez instituições podem operar

A regulamentação habilitou dez instituições financeiras para trabalhar com as linhas de renegociação, incluindo bancos e sistemas cooperativos de crédito.

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), entretanto, não integra a relação.

A presidente-executiva da OCB reconhece a importância e a capacidade de alcance do banco, mas afirma que a entidade respeita a decisão. Segundo ela, o BNDES ainda poderá participar de outras iniciativas relacionadas ao endividamento rural.

Regras podem deixar produtores de fora

Há outro problema além da burocracia operacional: quem efetivamente conseguirá se enquadrar nas condições estabelecidas.

O consultor jurídico Thiago Rocha considera que a portaria resolveu uma lacuna relevante da regulamentação, mas avalia que o número de requisitos exigidos pode limitar significativamente o universo de produtores atendidos.

Segundo Rocha, os recursos direcionados à renegociação corresponderiam a pouco mais de 10% da carteira considerada problemática do crédito rural brasileiro.

Para o especialista, portanto, existe uma diferença considerável entre o tamanho do endividamento e o volume disponível para enfrentá-lo.

“Temos hoje um instrumento importante, mas com resultados muito tímidos do ponto de vista de renegociação de dívidas', avaliou.

Teste agora será no balcão dos bancos

A próxima fase será menos jurídica e mais prática. O verdadeiro teste da renegociação ocorrerá nas instituições financeiras, quando produtores apresentarem pedidos e descobrirem se conseguem atender às exigências.

Será nesse momento que ficará claro o alcance real do programa: quantos produtores são elegíveis, quais garantias serão exigidas, quanto tempo levarão as análises e qual parcela das dívidas efetivamente será renegociada .

A publicação da portaria, portanto, remove um obstáculo importante, mas não encerra o problema do endividamento rural. Para quem está no campo esperando uma saída financeira, mais importante do que a existência de uma linha de crédito no papel é conseguir atravessar a porta do banco e ter a renegociação aprovada.

(*) Com informações de José Roberto dos Santoa, da Acrissul.