Justiça
'Passou na cabeça dela': réu ouve depoimento da filha que viu morte da mãe
Vídeo de 2024 com garota de 11 anos foi mostrado em júri; hoje, adolescente, ela prestou depoimento presencial
BATANEWS/CGNEWS
“Eu vi que ele passou com o carro por cima da cabeça dela.' O relato foi feito pela filha de Andressa Fernandes Teixeira, então com 11 anos, em depoimento prestado no dia 21 de abril de 2024, poucos dias após a morte da mãe. A gravação foi apresentada nesta quarta-feira (5) durante o julgamento de Willames Monteiro dos Santos, acusado de matar a esposa.
O depoimento em vídeo, prestado à Polícia Civil, foi repetido presencialmente. Hoje, a garota com 13 anos, foi à sessão da 2ª Vara do Tribunal de Júri e voltou a falar do que testemunhou no dia 20 de abril de 2024, em casa, no bairro Nova Campo Grande.
O relato presencial foi feito a portas fechadas. Ficaram na sessão o juiz, Aluizio Pereira dos Santos, as sete juradas, advogados e promotores. Familiares da vítima e do réu tiveram de deixar o plenário, assim como o próprio acusado.
Assim que ela prestou depoimento, deixou o plenário e todos puderam voltar. Mas o vídeo, divulgado na fase de sustentação oral da promotora Danielle Borghetti, deu uma amostra do que os jurados ouviram da adolescente. O pai dela, réu do caso, ouviu de cabeça baixa.
Conforme o relato gravado, a menina afirmou que o acusado entrou com o carro pelo portão e avançou na direção da mãe. “Ele viu que ela estava caída no chão e, mesmo assim, passou com o carro por cima dela'.
No vídeo gravado em 2024, a menina também contou que o irmão estava ao lado dela e começou a gritar e chorar. Ela disse ainda que passou a sentir medo depois do crime e que não conseguia voltar à rua onde morava porque as lembranças do que havia ocorrido retornavam.
Durante os debates, a promotora de Justiça Danielle Borghetti criticou a decisão de submeter a adolescente a um novo depoimento. “Me pareceu uma crueldade insistir em uma nova oitiva. Cada vez que ela é ouvida, sofre novamente e revive todo o trauma', avaliou. “O ponto positivo é que os jurados puderam assistir ao depoimento e verificar que ela manteve a mesma versão dos fatos.'
Danielle também declarou que a menina não voltou atrás mesmo depois do tempo transcorrido e de contatos com pessoas ligadas ao acusado. A promotora optou por não reproduzir integralmente o primeiro depoimento especial, com 29 minutos, alegando que o conteúdo era semelhante ao que havia sido dito em plenário.
Outro vídeo -Também foi divulgado depoimento de Pamela Aparecida Sobral, vizinha de Andressa, prestado em abril de 2024. Ela afirmou ter ouvido o momento em que a vítima foi atingida e presenciado parte da movimentação do carro.
Segundo Pamela, após atingir Andressa, o acusado teria seguido com o veículo para a frente e, posteriormente, feito uma manobra de marcha à ré. “Não foi um movimento sem controle. Ele fez a manobra e voltou com o carro.'A vizinha afirmou que gritava para que ele parasse e pedia ajuda aos demais moradores. “O que mais me marcou foi ver as crianças presenciando toda aquela cena.'
Análise - O advogado Mauro Sandres Melo, responsável pela defesa, pediu aos jurados que não decidam o caso apenas com base na comoção provocada pela morte. Ele sustentou que os detalhes sobre o estado do acusado no dia dos fatos precisam ser analisados antes de qualquer conclusão sobre a intenção de matar.
A defesa reconheceu que o relacionamento entre Willames e Andressa era conturbado, mas afirmou que o casal ainda fazia planos para o futuro, incluindo projetos profissionais, viagens e visitas a familiares em outro Estado.
Segundo o advogado, esses elementos seriam incompatíveis com a ideia de que o acusado pretendia matar a esposa, deixar os filhos sem a mãe e destruir a própria família.
A principal linha defensiva é de que Willames estava embriagado e apresentava a capacidade de raciocínio, percepção e avaliação de riscos profundamente comprometida. Com isso, a defesa tenta afastar a tese de que ele teria agido de forma plenamente consciente e com intenção de matar.
Melo também procurou enfraquecer o depoimento de Pamela. Argumentou que a vizinha não teria acompanhado todo o episódio, pois teria chegado quando o portão já havia sido atingido e Andressa estava ferida.
Para o advogado, a testemunha misturou fatos que efetivamente viu com interpretações sobre o que o acusado teria percebido ou pretendido. Ele afirmou que Pamela não poderia assegurar o que se passava na mente de Willames no momento das manobras.
A defesa também ressaltou a proximidade da vizinha com Andressa. Sem acusá-la de mentir, o advogado afirmou que os vínculos afetivos, a dor e o sofrimento podem influenciar a forma como uma testemunha interpreta os acontecimentos.
Willames Monteiro dos Santos é acusado de feminicídio qualificado pelo recurso que dificultou a defesa da vítima, cometido em contexto de violência doméstica e familiar e na presença dos dois filhos menores do casal



