Cotidiano
Nem todo desconforto com leite é intolerância à lactose; entenda diferenças
BATANEWS/FOLHA
Gases, estufamento ou diarreia após consumir leite levam muita gente a concluir, por conta própria, que tem intolerância à lactose —e a retirar os lácteos da dieta sem diagnóstico médico. No entanto, o desconforto pode ter outras causas, incluindo a alergia à proteína do leite de vaca e uma possível sensibilidade a um peptídeo formado durante a digestão, a beta-casomorfina-7 (BCM-7).
O gastroenterologista Leandro Gonzales, do Centro Edson Bueno, relata que é rotina receber pacientes que chegam ao consultório afirmando serem 'intolerantes à lactose' por associarem o consumo da bebida a gases ou dores.
'O problema é que sintomas como estufamento e alteração intestinal podem estar relacionados à hipersensibilidade visceral, ao volume de leite ingerido, ao teor de gordura da bebida e à velocidade do esvaziamento gástrico', afirma o especialista em doenças inflamatórias intestinais.
Gonzales alerta que a retirada do leite e de seus derivados da alimentação sem diagnóstico médico adequado acarreta riscos nutricionais e sociais, além de atrasar a investigação de outras doenças.
Um estudo da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), com 100 voluntários, em 2020, mostrou que 35 afirmavam ter alergia alimentar, mas apenas 10 tiveram resultado positivo no teste cutâneo.
A coordenadora do Departamento Científico de Alergia Alimentar da Asbai, Jackeline Motta Franco, explica que a prevalência exata da alergia alimentar no Brasil é desconhecida, sobretudo pela escassez de estudos nacionais e pela diversidade metodológica entre eles.
Segundo ela, o diagnóstico deve considerar histórico clínico, exames cutâneos e sorológicos e, quando indicado, o teste de provocação oral, antes da retirada de alimentos da dieta.
No mundo, pesquisas apontam um aumento na prevalência de alergias alimentares, afetando hoje de 6% a 8% das crianças e 2% a 4% dos adultos. Leite e seus derivados, ovos, soja, amendoim, castanhas, peixes, crustáceos, trigo e gergelim respondem pela maior parte das reações.
Uma revisão publicada na revista científica JAMA Pediatrics neste ano —que reuniu 190 estudos em diferentes países— reforça a associação entre o parto cesáreo, o histórico familiar e o uso precoce de antibióticos com o maior risco de desenvolver alergias alimentares.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia (UCLA) destacaram que esses fatores alteram a microbiota intestinal logo no início da vida da criança, prejudicando a barreira de proteção do intestino e favorecendo o surgimento do problema.
Antes de mais nada, é preciso diferenciar a intolerância à lactose, a alergia à proteína do leite de vaca e um desconforto associado ao leite.
Na intolerância à lactose, o problema está na deficiência da enzima lactase, responsável por digerir o açúcar do leite. Nesses casos, o leite zero lactose costuma resolver os sintomas.
Já na alergia à proteína do leite de vaca (APLV), ocorre uma reação do sistema imunológico contra proteínas presentes no alimento. Os sintomas podem atingir pele, intestino e sistema respiratório e, em situações graves, provocar anafilaxia. Nesses pacientes, não se pode consumir nenhuma bebida de origem bovina, incluindo zero lactose.
Existe ainda uma terceira hipótese, estudada por pesquisadores: a de que parte das pessoas possa apresentar sensibilidade à proteína beta-caseína A1, presente no leite convencional.
Durante a digestão dessa proteína pode ser formado o peptídeo BCM-7, associado, em alguns estudos, ao desconforto digestivo em pessoas sensíveis. O leite A2, nesse caso, pode ser uma alternativa, já que é produzido por vacas geneticamente selecionadas que sintetizam apenas a proteína A2 e, por isso, praticamente não forma esse peptídeo durante a digestão.
Segundo a FairFood, empresa responsável pela certificação desse segmento no país, a produção de leite A2 passou de 9,5 milhões de litros em 2023 para 28,1 milhões em 2025, com expectativa de crescimento de cerca de 28% até o fim de 2026.
Na hora da compra, porém, é preciso atenção às embalagens, alerta Flávia Fontes, CEO da FairFood. 'É preciso procurar pelo selo de certificação que garante a origem e a rastreabilidade das vacas A2A2', ensina.
O filho do pneumologista Humberto Bogossian, 54, começou a apresentar episódios de diarreia e a sensação de 'leite parado na barriga' no início da adolescência. Exames descartaram intolerância à lactose e, por orientação médica, a família retirou o leite da alimentação.
A mudança aconteceu quando o adolescente, hoje com 15 anos, experimentou o leite A2 e percebeu que conseguia consumi-lo sem o mal-estar que sentia antes. Com acompanhamento profissional, voltou a incluir a bebida na rotina. 'É importante não ficarmos só com a leitura da internet, que pode colocar o leite como um vilão que ele não é', alerta Bogossian.
O personal trainer Paulo Henrique dos Santos, 28, passou por experiência semelhante. Diabético, começou a sentir estufamento há cinco anos e retirou o leite da alimentação por conta própria. Há seis meses, após indicação de uma aluna, passou a consumir leite A2 e afirma não ter voltado a sentir desconforto. 'Vejo muitos alunos demonizando os lácteos sem saber exatamente qual é o problema. O leite é um alimento importante. Se houver uma alternativa, vale muito testar', diz.
A nutricionista Luiza Zanatta acompanhou o processo que resultou no reconhecimento, pela Anvisa, da alegação funcional dos produtos A2. Desde 2021, os rótulos podem informar que esse leite não promove a formação da BCM-7 durante a digestão.
Ela reforça que a troca para o leite A2 não necessariamente resolve todos os sintomas. 'O principal aprendizado é que o diagnóstico não deve ser baseado em tentativa e erro nem em tendências das redes sociais. É fundamental identificar a causa do desconforto para que cada pessoa encontre a estratégia mais adequada.'
'O aspecto positivo é que hoje existem mais opções disponíveis no mercado, permitindo que muitas pessoas continuem consumindo leite e derivados e aproveitando seus benefícios nutricionais, sem necessariamente excluir essa categoria alimentar da dieta', finaliza Luiza.





