Do rancor à violência: como nasce um atirador em massa

BATANEWS/FOLHA


Maioria dos ataques direcionados é motivada por ressentimentos pessoais combinados com ideologias extremistas - Charnsitr/Adobe Stock

Acúmulo de ressentimentos e raivas geralmente precede atos violentos, que nem sempre podem ser previstos mas há meios de preveni-los.Um adolescente de 14 anos entrou em uma escola de ensino fundamental na cidade de Kahramanmaras, no sul da Turquia, e abriu fogo contra duas salas de aula, matando oito alunos e um professor.

O ataque chocante e sem precedentes em sua dimensão ocorreu em 15 de abril, dois dias após outro tiroteio em uma escola em Siverek, na província de Sanliurfa, no qual o atirador feriu 16 pessoas antes de se matar em um confronto com a polícia.

Embora possa parecer que ataques assim surgem do nada, eles raramente são espontâneos. Tiroteios em massa geralmente seguem um padrão que inclui, com frequência, queixas crescentes e oportunidades perdidas de intervenção.

John Horgan, que dirige o Grupo de Pesquisa sobre Extremismo Violento da Georgia State University, nos Estados Unidos, diz que a ideia de que os agressores simplesmente 'perdem o controle' é um dos mitos mais persistentes.

'Isso não acontece', enfatiza. 'Há sempre um longo histórico de traumas, ressentimentos que se intensificam com o tempo e grandes fatores de estresse, como rejeição ou humilhação, que são a gota d'água em uma vida turbulenta de dor, sofrimento e desesperança.'

Outro pensamento comum equivocado é o de que uma doença mental estaria sempre por trás dessas atrocidades. O psicólogo forense J. Reid Meloy, consultor do FBI e membro do corpo docente do Centro Psicanalítico de San Diego, afirma que essa explicação costuma ser simplista demais.

'Apenas uma minoria terá uma doença mental diagnosticada no momento do ataque', diz. 'Em geral, a maioria dos ataques direcionados é motivada por ressentimentos pessoais —compostos por elementos de perda, humilhação, raiva e culpa— ou por ressentimentos pessoais combinados com ideologias extremistas.'

De acordo com James Densley, professor de criminologia da Metro State University de Minnesota, nos EUA, não se trata tanto de doença mental, mas sim de uma falta de 'bem-estar mental' que leva à crise pessoal.

'Crise não é a mesma coisa que doença, e confundir as duas coisas estigmatiza milhões de pessoas que não têm nada a ver com isso.'

Para a maioria das pessoas, sentimentos de rejeição, fracasso ou humilhação desaparecem em algum momento. Mas, em alguns casos, eles podem se tornar pontos centrais de identidade.

'Começa com uma ferida, real ou percebida', diz Densley. 'A maioria das pessoas absorve esse sentimento e, eventualmente, segue em frente. Mas algumas pessoas ficam presas. Elas remoem até que essa ferida se torne sua identidade. Em algum momento, essa mágoa se externaliza, de modo que 'não é apenas que a vida me machucou, é que pessoas específicas fizeram isso comigo', ou 'que a sociedade fez isso comigo, e alguém tem que pagar'.'

Horgan descreve uma trajetória semelhante —que geralmente anda de mãos dadas com um planejamento meticuloso. 'Os autores de tiroteios em massa fazem seu dever de casa', diz ele. 'Eles pesquisam seus alvos, planejam suas táticas e, às vezes, solicitam feedback online de pessoas com ideias semelhantes. A pesquisa também envolve descobrir como adquirir armas ou materiais a serem usados no ataque.'

Mesmo nessa fase, a maioria das pessoas nunca colocaria seus pensamentos violentos em prática. A questão principal é por que uma pequena minoria o faz.

Horgan observa que as fantasias violentas em si não são incomuns —e podem até servir como uma forma de lidar com as dificuldades. O que importa é a decisão de colocá-las em prática. 'O que distingue aqueles que se envolvem em atos de violência pública é o compromisso com a fantasia', diz ele. 'Um compromisso de torná-la realidade.'

Densley destaca uma mudança adicional que pode ocorrer em momentos de crise. 'O catalisador é quando alguém, muitas vezes com tendências suicidas, começa a se identificar com agressores anteriores', diz ele. 'Se tiverem acesso a uma arma de fogo, é essa conexão com outros 'exatamente como eles' que ultrapassa um limiar psicológico —onde morrer e matar parecem o mesmo ato— que importa.'

A cadeia de eventos mapeada aponta para uma maneira possível de impedir tais ataques, diz Densley. 'Em quase todos os casos que estudamos, alguém percebeu algo, uma mudança no comportamento normal. Seja um afastamento do trabalho ou da vida social, uma postagem estranha nas redes sociais ou um fascínio por armas que era novo e intenso. Os sinais de alerta estavam lá.'

Horgan se refere a tais pistas como 'vazamento' —a maneira como os agressores comunicam suas intenções antecipadamente por meio de vários comportamentos de alerta. 'Eles podem fazer piadas ou ameaças, e os colegas estão em posição ideal para perceber esse comportamento', diz ele.

'A questão não é que as pessoas não percebam. É que elas deixam de agir diante disso. Algumas ameaças são literalmente mensagens palavra por palavra descrevendo o que os agressores vão fazer, mas os espectadores muitas vezes não acreditam que as ameaças sejam reais ou críveis.'

Meloy aponta uma distinção fundamental: 'A violência direcionada não pode ser prevista devido à taxa de incidência muito baixa desse tipo de violência', diz ele. 'No entanto, ela pode ser prevenida.'

Nem todos os atos de violência em massa seguem o mesmo padrão. Enquanto muitos ataques têm estranhos como alvo, outros são direcionados a conhecidos do agressor. 'A maioria dos alvos de toda a violência são pessoas conhecidas do agressor', diz Meloy. 'Ataques direcionados a estranhos ocorrem, mas em uma parcela significativa haverá uma conexão psicológica ou histórica entre o agressor e as pessoas ou o local visado.'

E há outra diferença fundamental entre a violência privada e a pública, diz Densley. 'Quando alguém mata sua própria família, as vítimas são escolhidas por causa de quem elas são', diz ele. 'A violência pública em massa muitas vezes inverte isso. As vítimas são intercambiáveis.'

Essa mudança também altera o significado do ato. 'É performático', diz Densley. 'Tem o objetivo de enviar uma mensagem, de ser visto e lembrado. A psicologia está mais próxima do terrorismo do que do homicídio doméstico, mesmo quando nenhuma ideologia sistematizada está envolvida.'