Saúde
Um risco silencioso: por que os rins dos brasileiros correm sério perigo
Cenário é fruto de desconhecimento e maus hábitos. Isso pode aprofundar uma crise já instaurada no país
BATANEWS/VEJA
Eles filtram o sangue, equilibram o fluxo de líquidos pelo corpo e ajudam a regular a pressão, entre outros trabalhos cruciais à nossa sobrevivência. Tudo feito no maior silêncio. Da mesma forma, esse par de órgãos pode sofrer por anos sem dar sinais — até que a situação se torne desgovernada e potencialmente fatal. Os rins, tão vitais, têm sido vítimas de descuido no Brasil. Uma pesquisa realizada pela empresa de tecnologias médicas Vantive, com 2 000 cidadãos de todas as regiões, revela que nosso povo anda cometendo alguns pecados contra a saúde renal.
Quase sete em cada dez entrevistados admitem adiar exames essenciais, mais da metade não se hidrata como deveria e 40% são sedentários — uma soma de fatores absolutamente indesejáveis para nossos guardiões silenciosos. Tudo isso conspira para o crescimento de uma condição desafiadora que leva à falência dos rins. “Cerca de 10% da população adulta já convive com algum grau de doença renal crônica, mas poucos sabem que têm o problema”, diz o nefrologista Farid Samaan, do Grupo de Planejamento da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. “É a doença crônica mais negligenciada do mundo.”
O novo levantamento nacional mostra que não é só a falta de tempo ou acesso que colaboram para os prejuízos renais. Mais de 60% relatam temer detectar algo grave nos exames — medo que pode atrapalhar ainda mais a busca por diagnóstico e tratamento. “Hoje, muitas vezes, quando o paciente descobre o problema, ele já está em fase avançada”, afirma o nefrologista Pedro Túlio Rocha, da Sociedade Brasileira de Nefrologia.
Para complicar o enredo, condições crônicas que maltratam os rins também costumam agir silenciosamente, caso da hipertensão e do diabetes tipo 2. Nossos filtros naturais até são resilientes — eles contam com uma reserva funcional que permite compensar perdas ao longo do tempo. Mas tudo tem limite. Quando essa margem operacional se esgota e os sintomas surgem, em geral as estruturas estão bem desgastadas. Nessa conjuntura, não surpreende que a percepção sobre a doença e seus sinais seja distorcida.
Boa parte dos participantes da pesquisa considera a dor nas costas o principal sintoma associado à doença renal — e não é por aí. “Infecções urinárias ou cálculos renais podem, sim, causar dor lombar, mas menos de 5% dos casos de doença renal crônica têm essa origem”, esclarece Samaan. Por isso, não vale a pena esperar o surgimento de sintomas avançados — como inchaço nas pernas, tornozelos ou ao redor dos olhos, além de alterações na urina — para apostar no check-up.
Muito além dos sintomas, também há confusão na hora de autoavaliar o risco de doença renal. No estudo, mais de um terço dos brasileiros disse ter uma probabilidade baixa ou muito baixa de desenvolver a doença — e 20% não faziam ideia de como isso poderia ser mensurado. O dado chama a atenção porque as características da própria população pesquisada apontam na direção oposta: 26% dos entrevistados têm hipertensão, um dos principais fatores por trás do quadro nos rins, e 55% possuem histórico familiar de pressão alta.
Apesar de apenas 8% dos respondentes afirmarem ter diagnóstico de um problema renal, eles convivem com um ambiente favorável à eclosão da enfermidade no futuro. “A epidemia de doença renal crônica é, em grande medida, causada pelo aumento da obesidade e da própria expectativa de vida”, diz Samaan.
Os números do levantamento preocupam os especialistas porque podem aprofundar o que hoje já se chama de uma crise da diálise no país. Diálise é o procedimento em que o paciente com insuficiência renal é conectado a uma máquina que faz as vezes dos rins. A demanda vem aumentando, e a oferta não acompanha.
Em uma década, a taxa de pacientes em diálise saltou de pouco mais de 550 para 812 por milhão de habitantes. Hoje, são 173 408 pessoas que dependem do tratamento no Brasil, sendo que 83% são atendidas pelo SUS. A terapia exige não apenas investimento dos setores público e privado, como também uma logística para viabilizar a ida a uma clínica duas ou três vezes por semana. Em algumas regiões do país, pacientes têm de percorrer centenas de quilômetros para conseguir se tratar; em outras, homens e mulheres ficam internados à espera de uma vaga em um centro especializado.
“É uma situação que compromete a qualidade de vida deles e gera custos ainda maiores”, diz Rocha. Para que o sistema não colapse, silenciosamente ou não, é preciso centrar esforços no início de toda a jornada de cuidado com os rins. Em poucas palavras, mudar hábitos, fazer o check-up periódico e focar na prevenção.
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992




