Pecuária
Melaço de cana-de-açúcar ganha protagonismo na nutrição animal
De coproduto das usinas a insumo estratégico, ingrediente amplia eficiência alimentar, reduz custos e fortalece a integração entre a pecuária e o setor sucroenergético.
BATANEWS/REDAçãO
O melaço de cana-de-açúcar deixou de ser apenas um coproduto das usinas sucroalcooleiras para se consolidar como um insumo estratégico na nutrição animal. Amplamente utilizado na pecuária de corte e leite, e cada vez mais estudado em outras espécies, o melaço oferece energia prontamente disponível, melhora a palatabilidade e favorece o aproveitamento de dietas de menor custo.
Quimicamente, trata-se de um xarope espesso rico em açúcares solúveis — sacarose, glicose e frutose — que podem representar cerca de 75% da matéria seca. Essa composição confere alta densidade energética e fermentabilidade ruminal. No rúmen, os açúcares do melaço são rapidamente convertidos em ácidos graxos voláteis (AGVs), combustível essencial para as bactérias celulolíticas, melhorando a digestão de volumosos fibrosos como fenos maduros, palhadas e pastagens de baixa qualidade. O resultado prático é maior ingestão de matéria seca, melhor eficiência alimentar e desempenho superior em períodos de restrição nutricional.
A alta palatabilidade é outro atributo importante. O sabor adocicado e o aroma característico do melaço reduzem a poeira das rações, aumentam a coesão física e diminuem a seleção de partículas pelos animais. Em dietas de bovinos de corte e leite, a inclusão de 5 a 12% de melaço melhora a uniformidade do consumo, especialmente em lotes a pasto, onde o desafio é manter a ingestão equilibrada entre indivíduos.
Em bovino leiteiro, estudos apontam que a substituição parcial do amido por melaço, em dietas de transição, favorece o equilíbrio energético no pré e pós-parto, contribuindo para a estabilidade do pH ruminal e para a produção de gordura no leite. Essa estratégia reduz o risco de acidose subclínica e melhora o perfil de fermentação, com maior produção de acetato e butirato, precursores de lipídios do leite.
Em bovinos de corte sob regime de pasto, o principal gargalo é a falta de energia fermentável sincronizada com nitrogênio disponível. A associação entre melaço e ureia — em blocos sólidos, suplementos líquidos ou rações — fornece energia e nitrogênio simultaneamente, promovendo maior síntese de proteína microbiana e melhor aproveitamento de forragens secas. Essa prática tem sido amplamente validada em sistemas tropicais, resultando em ganhos de peso consistentes mesmo na estação seca.
O melaço também desempenha papel tecnológico nas fábricas de ração: atua como aglutinante durante a peletização, melhora a integridade dos pellets e reduz perdas por finos. Além disso, seu sabor ajuda a mascarar ingredientes menos palatáveis, como ureia ou minerais, garantindo consumo uniforme.
Recentemente, o uso do melaço tem despertado interesse em suínos e equinos. Em suínos, ensaios realizados nas últimas décadas — e compilados em revisões recentes — demonstram que a inclusão de melaço em dietas de crescimento e terminação não compromete o desempenho nem a qualidade da carcaça. Revisões de literatura científicas concluem que “a adição de melaço em dietas de suínos pesados, com ou sem soro de leite, não apresenta efeitos negativos sobre o rendimento e a qualidade de carcaça'. Outros estudos conduzidos no Caribe também indicam que o melaço pode substituir parcialmente fontes de amido, mantendo ganho de peso e consumo estáveis, desde que os níveis não excedam limites que causem diarreia ou reduções na digestibilidade de nitrogênio.
Em equinos, o melaço de cana é amplamente utilizado em formulações comerciais, principalmente para melhorar a aceitação de rações, aglutinar partículas e fornecer energia de rápida disponibilidade. Fontes técnicas em nutrição equina relatam níveis usuais de inclusão entre 3 e 10%, sem prejuízo à saúde dos animais, desde que respeitada a condição metabólica e o nível de trabalho. No entanto, a literatura científica é limitada sobre o impacto direto do melaço na digestibilidade e desempenho de equinos, o que reforça a necessidade de manejo cuidadoso e formulação supervisionada por nutricionistas especializados.
Além dos efeitos nutricionais, o uso do melaço está alinhado às tendências de sustentabilidade e economia circular. Trata-se de um coproduto abundante da indústria sucroalcooleira que pode substituir parte dos grãos em dietas animais, reduzindo custos e a pegada ambiental da produção pecuária. A integração entre o setor sucroenergético e a nutrição animal exemplifica como coprodutos agrícolas podem agregar valor, fortalecer cadeias regionais e contribuir para uma pecuária mais eficiente e resiliente.
Por fim, é importante lembrar que, apesar de suas vantagens, o uso do melaço exige equilíbrio. Altas inclusões, sem adequada correção de fibra e proteína, podem causar distúrbios ruminais e acidose. Assim, o melaço deve ser sempre incorporado dentro de programas nutricionais completos, respeitando as particularidades de cada espécie, categoria e sistema de produção.
Em síntese, o melaço de cana-de-açúcar representa muito mais que uma fonte barata de energia: é um ingrediente multifuncional que melhora a eficiência alimentar, promove sustentabilidade e consolida a integração entre agroindústria e produção animal moderna.
Artigo escrito por Antonio Carlos da Silva Jr., Nature AgroPec, Consultor Técnico da Mellaço de Cana





