Agricultura
Quantas sacas da soja já estão comprometidas antes mesmo da colheita?
Na safra 2026/27, conhecer o custo por hectare e o preço necessário para cobri-lo ganha peso diante das oscilações que podem ocorrer até a venda dos grãos.
BATANEWS/OPR
A relação entre custo de produção e preço da soja será uma das referências para as decisões dos produtores na safra 2026/27. Em agosto, levantamento preliminar da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) estimou em 55 sacas por hectare o custo operacional da soja em Rio Verde (GO). O indicador mostra quanto da produção precisa ser destinada à cobertura das despesas antes de qualquer resultado positivo da atividade.
No mercado internacional, o contrato futuro de soja para março de 2027 encerrou a última semana de agosto em US$ 13,06 por bushel na Bolsa de Chicago. A cotação, porém, é apenas uma das variáveis que determinam o preço efetivamente recebido pelo produtor. Câmbio, prêmios e condições regionais também interferem na formação da receita.
Essa combinação torna a gestão de risco uma questão diretamente ligada à estrutura de custos de cada propriedade. Antes de avaliar qualquer mecanismo de proteção, o produtor precisa conhecer quanto custa produzir, qual preço é necessário para cobrir as despesas e a partir de que nível começa a obter o retorno esperado.
Proteção começa pela conta da lavoura O preço da soja pode mudar entre o planejamento da safra e o momento da comercialização. Por isso, uma cotação considerada favorável hoje não necessariamente terá o mesmo efeito sobre a rentabilidade quando a produção
Engenheira agrônoma Camila Moura; “Gestão de risco não é esperar que algo dê errado nem tentar acertar todos os movimentos do mercado. É olhar para uma oportunidade e entender o que dela já vale a pena preservar”- Foto: Divulgação
estiver disponível para venda. “Quando falamos de hedge, muitas vezes o termo parece distante da realidade do produtor. Mas, na prática, estamos falando de proteção. É parecido com um seguro: você estabelece um nível de segurança para evitar que uma mudança muito forte no mercado comprometa aquilo que já estava planejado', explica a engenheira agrônoma Camila Moura.
A lógica não está em prever qual será a cotação máxima da soja, mas em estabelecer referências para reduzir a exposição da propriedade a movimentos adversos de preço. A decisão depende, portanto, da estrutura de custos, do nível de endividamento, da produtividade esperada e da parcela da produção que precisa ser comercializada para cobrir as despesas. “Quando aparece uma boa oportunidade, a decisão não precisa ser entre vender tudo ou esperar tudo. É possível avaliar qual parte daquele resultado já faz sentido preservar e quanto pode continuar acompanhando o mercado. Isso reduz a dependência de acertar exatamente o melhor momento', aponta Camila.
Barter e hedge têm funções distintas Entre os mecanismos utilizados na comercialização de grãos está o barter, operação em que o produtor adquire insumos e se compromete a entregar determinada quantidade de produção posteriormente. Nesse modelo, parte da despesa da lavoura é vinculada antecipadamente a um volume de grãos.
A operação, entretanto, não elimina os riscos relacionados ao clima, à produtividade ou a eventuais quebras de safra. Também exige atenção às condições estabelecidas, aos prazos, às garantias e à quantidade de produção comprometida.
O hedge atua de maneira diferente. Seu objetivo é administrar a exposição às oscilações dos preços. Dependendo da estratégia adotada, pode estabelecer previamente uma referência de preço ou utilizar contratos de opções para criar mecanismos de proteção contra quedas, mantendo determinadas possibilidades de participação em movimentos de alta.
São instrumentos com estruturas, custos e riscos diferentes. A escolha depende das características de cada propriedade e do nível de exposição que o produtor pretende assumir.
Quanto custa proteger a margem? Uma conta simples ajuda a dimensionar o impacto da variação de preços sobre a quantidade de soja necessária para pagar as despesas.
Se o custo de produção de uma lavoura corresponde a 30 sacas por hectare e a soja está cotada a R$ 120 por saca, são necessários R$ 3.600 para cobrir esse custo. Se a cotação cair para R$ 100, mantendo o mesmo custo em reais, serão necessárias 36 sacas por hectare para chegar ao mesmo valor.
A diferença é de seis sacas por hectare destinadas exclusivamente à cobertura da despesa.O exemplo evidencia que a análise da rentabilidade não pode considerar apenas a cotação da soja.
O mesmo preço pode representar resultados diferentes conforme o custo de produção da propriedade e a produtividade obtida. “É importante olhar para esse custo como se olha para um seguro. Nem sempre ele será utilizado, mas sua função não é gerar ganho por si só. É preservar um nível de resultado que o produtor considera importante para o negócio', diz Camila.
Na prática, a gestão de risco parte de uma pergunta objetiva: quanto da receita futura precisa ser protegido para que a propriedade consiga cumprir seus compromissos e manter a margem planejada? A resposta varia de acordo com cada sistema produtivo e pode mudar ao longo da safra.
“Gestão de risco não é esperar que algo dê errado nem tentar acertar todos os movimentos do mercado. É olhar para uma oportunidade e entender o que dela já vale a pena preservar. É a mesma lógica de qualquer seguro: você não contrata porque espera o problema, mas porque sabe o impacto que ele pode ter se acontecer', afirma Camila.
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