Estudo relaciona bactéria que afeta estômago a um em cada cinco casos de câncer colorretal

Análise englobou 43 estudos com dados de 48.694.403 pessoas de todo o mundo; eliminar bactéria diminui risco, mas só após dez anos

BATANEWS/VEJA


Câncer colorretal: casos têm aumentado entre os jovens adultos (SEBASTIAN KAULITZKI/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Com o aumento dos casos de câncer de intestino, também conhecido como colorretal, principalmente entre jovens, pesquisadores têm se dedicado a investigações para explicar esse fenômeno crescente nas últimas décadas. Uma das frentes é a associação entre uma bactéria que pode acometer o estômago, a Helicobacter pylori, e o aparecimento de tumores. Mais ligada ao câncer gástrico, ela pode estar relacionada a um em cada cinco tumores colorretais, de acordo com um estudo publicado na revista eGastroenterology.

A H. pyroli, como é mais conhecida, é uma bactéria que pode ficar durante anos no estômago sem levar à manifestação de sintomas, mas é uma infecção que costuma assustar os pacientes por sua relação com problemas que vão da gastrite à úlcera e câncer gástrico.

A análise englobou 43 estudos com dados de 48.694.403 pessoas de todo o mundo e encontrou que a exposição à bactéria estava associada a um risco 1,59 vezes maior de desenvolvimento de tumores de intestino. Os pesquisadores estimaram que 22% dos casos do câncer estavam “potencialmente relacionados” à H. pylori.

Segundo Bruno Sanches, membro titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e presidente do Núcleo de Pesquisa do H. pylori, essa associação tem sido estudada desde os anos 2000, no entanto, ainda não está estabelecida uma relação de causa e efeito.

Mesmo assim, já se sabe que a bactéria causa outros problemas que vão além da esfera gástrica.

“Existem outras condições não digestivas que também têm sido relacionadas à presença da bactéria. Entre elas estão a púrpura trombocitopênica imune, a anemia ferropriva de causa obscura, além de possíveis associações com doenças neurológicas, cardiovasculares e o adenocarcinoma de cólon, que é um dos tipos de câncer do intestino”, explica.

Segundo Sanches, caso a relação de causa e efeito seja confirmada no futuro, ela pode ser justificada por alguns mecanismos que já deixam pistas.

“Entre eles, uma possível alteração da microbiota intestinal provocada pela presença do H. pylori, alterações inflamatórias induzidas pela bactéria ou até mesmo uma resposta imunológica desencadeada pelos antígenos liberados por ela, que poderia atuar como um gatilho para o desenvolvimento do câncer de intestino.”

Redução do risco

A pesquisa também avaliou se o tratamento para a eliminação da bactéria, feito com antibióticos e supressores da acidez gástrica, reduziria o risco de câncer de intestino.

Essa diminuição até apareceu, mas apenas depois de dez anos. Dessa forma, os pesquisadores sugerem que mais estudos sejam realizados para validar ou não a estratégia.

Apesar desses indícios, vale lembrar que o câncer de intestino tem relação com hábitos que podem ser modificados como medida de prevenção.

Por isso, é fundamental evitar o sedentarismo, excesso de peso, consumo elevado de embutidos e de carne vermelha.

Câncer colorretal

O câncer colorretal é o exemplo mais emblemático de tumores que estão aparecendo com mais frequência em adultos jovens. Estudos apontam que, em comparação com a década de 1950, essa população enfrenta um risco duas vezes maior de desenvolver a doença no intestino grosso e quatro vezes maior de enfrentar um diagnóstico no reto.

Os sinais de alerta são sangramento nas fezes, dor abdominal, perda de peso, anemia e mudanças nos hábitos intestinais.