Saúde
Curandeiros da IA se espalham nas redes e colocam a saúde de milhões de seguidores em risco
Perfis criados com inteligência artificial se popularizam vendendo receitas milagrosas
BATANEWS/VEJA
Ela usa uma coroa de plumas coloridas e promete devolver o vigor a qualquer pessoa em sete dias por meio da sabedoria indígena. Vó Xayomi, como é conhecida pelos mais de 700 000 seguidores no Instagram, termina seus vídeos com a oferta de um livro digital que reúne “mais de 200 remédios naturais” para demandas diversas como colesterol alto, menopausa e queda de cabelo. A mesma fórmula dá a tônica dos conteúdos de Dona Odete, uma senhora de avental e vestido florido que divulga seus “remédios da roça” a mais de 300 000 internautas. Soma-se a ela a Vovó Mei Lin Chen, que se apresenta como porta-voz da medicina chinesa para seu público de 800 000 pessoas. Mas, apesar da popularidade digital, nenhuma delas existe na vida real. São personagens criadas por inteligência artificial (IA) que conquistaram fãs em plataformas que vão de YouTube a TikTok.
Em comum, as curandeiras montadas por algoritmos surgem em vídeos sensacionalistas com dicas de saúde, oferecendo desde chás para curar diabetes até sucos emagrecedores. Por trás da aparência de vovós sábias dotadas de conhecimento ancestral grassa um mercado de conteúdos pagos e produtos irregulares sem nenhum embasamento científico e confiável. O apelo também vem das soluções naturebas, que seriam ocultadas ou menosprezadas pela “perigosa” indústria farmacêutica. Acreditar nos embustes, porém, pode ter consequências bem reais. “Uma pessoa com diabetes que deixa de usar insulina para tomar um chá corre o risco de ter sérias complicações, como perda de visão”, ilustra o médico de família Henrique Sater, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Unicamp.
Vovós, xamãs e até médicos concebidos por IA são o mais novo capítulo do uso indevido da tecnologia na área da saúde. O fenômeno alcançou tamanha proporção que a Advocacia-Geral da União (AGU), a pedido do Ministério da Saúde, notificou o YouTube para que retirasse do ar ou ao menos sinalizasse vídeos que se valem do recurso para promover tratamentos sem comprovação. No período entre 1º de janeiro e 10 de julho deste ano, foram encontrados 97 perfis de supostos médicos com qualificações inexistentes, todos utilizando linguagem alarmista, direcionada especialmente à população idosa.
Até mesmo profissionais de carne e osso são alvo dos golpistas. O caso mais notório é o do médico Drauzio Varella. Em montagens de deepfake, ele aparece fazendo propagandas de suplementos e medicamentos. Um cenário preocupante quando se leva em conta que quatro em cada dez brasileiros não sabem diferenciar um perfil de verdade de um falso nas redes, de acordo com um levantamento da plataforma Olá Doutor.
Nos vídeos para arrebanhar curtidas e dinheiro, os personagens de IA repetem alegações como “as farmácias não te contam isso porque perderiam os clientes” e “conserte a raiz do problema que seu médico nunca te contou”, nutrindo uma desconfiança nas grandes instituições. Entre as receitas mais populares, aparecem infusões para desintoxicar o fígado e sucos para eliminar pedras nos rins em 72 horas. Receitas que não só carecem de estudos, como não são inócuas. “Temos visto pessoas evoluindo com inflamação hepática grave após uso de chás, ervas e suplementos supostamente detox”, diz a hepatologista Lívia Falcão, do Instituto do Fígado e Transplantes de Pernambuco.
Embora os perfis também concentrem comentários críticos — como os de pessoas que testaram as dicas e não obtiveram sucesso —, o potencial de arrecadar novas vítimas é imenso e assustador. Inclusive pelo risco de se negligenciar consultas e tratamentos respaldados. “Se uma pessoa com cálculo renal tiver obstrução e infecção urinária, estamos diante de uma emergência que pode progredir se nada for feito”, diz o nefrologista Thyago Proença de Moraes, da PUCPR, referindo-se ao perigo de se fiar num suposto suco quebra-pedras. No fundo, e a despeito da queixa em questão, vovós, xamãs e doutores da IA também tocam os usuários pela linguagem afetuosa, nem sempre encontrada no ambiente de uma clínica ou hospital. “Humanizar a medicina pode ser um antídoto contra esse fenômeno”, diz Sater, da Unicamp.
VEJA enviou à Meta, dona do Instagram, uma lista com treze perfis criados com IA que, juntos, somam milhões de seguidores. Poucas horas depois, a plataforma derrubou todos eles. A operação se repetiu com o TikTok: denúncia seguida de cassação dos perfis. O problema é que a máquina não para de produzir avatares, caso do Seu Percilio, com mais de 200 000 fãs. Sinal de que é preciso um esforço mais amplo para purgar o ambiente digital dessas armadilhas.
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013






