Saúde
O efeito colateral das canetas emagrecedoras que os psiquiatras não esperavam
Estudo relaciona remédios como semaglutida e tirzepatida a menos mortes entre pessoas com transtornos mentais como depressão e bipolaridade
BATANEWS/VEJA
Pessoas que convivem com esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressão grave perdem, em média, de 10 a 25 anos de vida em relação ao restante da população, e o principal vilão dessa conta não é a mente, é o coração.
Doenças cardiovasculares respondem pela maior parte dessas mortes precoces, resultado de uma combinação cruel: risco metabólico elevado, efeitos colaterais de remédios psiquiátricos e menos acesso a exames e tratamentos preventivos.
Mas um estudo publicado na revista acadêmica JAMA Psychiatry aponta um caminho inesperado para reduzir essa desigualdade: os agonistas do receptor de GLP-1, classe de medicamentos usada para obesidade e diabetes que inclui a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro).
Segundo a pesquisa, quem começou a tomar esses remédios teve menos mortes e menos eventos cardiovasculares graves do que quem iniciou uma classe de medicamentos para diabetes, os inibidores de SGLT2 — já conhecida por proteger o coração e os rins. Um bônus e tanto.
A equipe, liderada pelo psiquiatra canadense Roger McIntyre, não acompanhou pacientes em tempo real. Em vez disso, vasculhou prontuários eletrônicos de mais de 120 milhões de pessoas na rede internacional TriNetX e aplicou uma técnica estatística chamada emulação de ensaio clínico-alvo — que tenta reproduzir, com dados do mundo real, as condições de um estudo randomizado, pareando estatisticamente pacientes parecidos que só diferem no remédio recebido.
Ao todo, 1,5 milhão de adultos foram pareados, sendo 195.184 pares de pacientes com transtorno mental grave e 568.931 pares sem esse diagnóstico.
No grupo com transtorno mental grave, 4,91% dos pacientes que começaram a tomar GLP-1 morreram ao longo de quatro anos, ante 6,45% dos que iniciaram o inibidor de SGLT2 — uma redução de 24% no risco relativo de morte. Entre os pacientes sem transtorno mental, o benefício também apareceu, mas foi menor: 17% de redução no risco relativo.
Chama atenção a rapidez do efeito: já no primeiro ano de tratamento, o risco de morte foi 48% menor entre os pacientes com transtornos psiquiátricos que usaram GLP-1 — diferença grande demais para ser explicada só pela perda de peso ou controle glicêmico, segundo os autores, sugerindo algum efeito protetor mais imediato sobre vasos e coração.
Achados e implicações na prática
Entre os pacientes com transtorno mental grave e diabetes tipo 2, os que usaram semaglutida tiveram menos infartos (35% de redução no risco), menos AVCs (18%), menos episódios de insuficiência cardíaca (27%) e menos cirurgias de ponte de safena (31%), na comparação com quem usou inibidor de SGLT2. Outras análises indicam o benefício de sobrevida ao longo de dez anos apareceu nos três diagnósticos avaliados: depressão maior (45% menos mortes), transtorno bipolar (43%) e esquizofrenia (33%).
Um dado importante para não generalizar: o benefício parece concentrado nos remédios mais novos da classe. Semaglutida e tirzepatida mostraram redução consistente de mortalidade; já moléculas mais antigas, como dulaglutida, liraglutida, exenatida, lixisenatida e albiglutida, não mostraram vantagem consistente de sobrevida. Os autores atribuem a diferença a características farmacológicas dos agentes mais recentes, como maior afinidade pelo receptor, ação mais prolongada e, no caso da tirzepatida, um mecanismo duplo que também atua sobre o hormônio GIP.
Apesar dos dados animadores, cabe uma ponderação. Não se trata de um ensaio clínico controlado, e sim um estudo observacional baseado em prontuários — por mais sofisticada que seja a técnica estatística usada para imitar um experimento controlado, ela não elimina totalmente o risco de fatores de confusão não medidos, como adesão ao tratamento, renda ou gravidade da doença psiquiátrica.
Os próprios autores pedem cautela extra com o resultado da tirzepatida, calculado a partir de um tempo médio de acompanhamento curto (pouco mais de um ano), e reconhecem que barreiras de custo e acesso a esses medicamentos afetam desproporcionalmente pacientes com transtornos mentais graves — o que pode limitar, na prática, o alcance do benefício encontrado. O trabalho planta sementes para novos estudos randomizados.
Ainda assim, o achado se soma a um conjunto crescente de evidências sobre o papel da classe do GLP-1 na proteção cardiovascular e reforça uma ideia que vem ganhando força na psiquiatria: cuidar do metabolismo pode ser, também, uma forma de cuidar — e prolongar — a vida de quem enfrenta um transtorno mental.






