Crise de combustível faz russos voltarem aos cavalos; guerra revive a tração animal na Rússia

A ofensiva contra a infraestrutura petrolífera russa reduziu a oferta de combustíveis e desencadeou uma mudança incomum: cavalos voltam a ser usados como meio de transporte em diferentes regiões do país.

BATANEWS/REDAçãO


Foto: Divulgação

A guerra entre Rússia e Ucrânia acaba de produzir uma das consequências mais improváveis desde o início do conflito. Em pleno século XXI, moradores da zona rural russa estão voltando a utilizar cavalos como principal meio de transporte e ferramenta de trabalho, diante da dificuldade para abastecer carros, caminhonetes e máquinas movidas a combustíveis fósseis.

O movimento não está ligado à nostalgia ou à tradição rural. Trata-se de uma resposta prática à crise de combustíveis provocada pelos sucessivos ataques de drones ucranianos contra refinarias, depósitos e outras estruturas estratégicas da indústria petrolífera russa. O impacto já alcança dezenas de regiões, altera a logística do campo e evidencia como um conflito moderno consegue transformar até as atividades mais básicas da população. Clique aqui para seguir o canal do CompreRural no Whatsapp Frio, geada e ar seco marcam a quinta-feira; veja onde o tempo exige atenção

Nos últimos meses, a Ucrânia intensificou sua estratégia de atingir a infraestrutura energética da Rússia. Segundo informações divulgadas por agências internacionais, refinarias foram atacadas em dezenas de ocasiões desde março, comprometendo parte significativa da capacidade nacional de refino.

Levantamentos apontam que, no início de junho, cerca de 30% da capacidade de refino do país estava paralisada, enquanto a produção diária de gasolina caiu aproximadamente 25%, ficando em torno de 85 mil toneladas por dia — abaixo da demanda típica do verão russo, estimada em cerca de 110 mil toneladas diárias.

O resultado foi uma rápida disseminação da escassez de combustíveis. Longas filas passaram a fazer parte da rotina em diversas cidades, governos regionais adotaram restrições ao abastecimento e o Kremlin chegou a suspender temporariamente as exportações de diesel para priorizar o mercado interno.

Foi nesse cenário que o mercado de cavalos mudou de direção.

Animais que normalmente seguiriam para o abate passaram a ser disputados por produtores rurais. Estima-se que cerca de mil cavalos foram poupados nas últimas semanas, impulsionados pelo aumento da procura em regiões onde o abastecimento de gasolina e diesel se tornou um desafio diário.

Criadores relatam que propriedades que antes demoravam meses para vender um único animal passaram a receber até oito pedidos de compra por mês, especialmente de famílias rurais que voltaram a utilizar cavalos para atividades cotidianas.

Entre as principais funções estão: transporte dentro das fazendas; deslocamento entre comunidades rurais; busca de alimentos e suprimentos; tração de carroças; acesso a terrenos onde veículos enfrentam dificuldades.

Mais do que uma mudança de hábito, trata-se de uma adaptação econômica diante de uma infraestrutura pressionada pela guerra.

O preço de um cavalo de trabalho varia entre 100 mil e 200 mil rublos, o equivalente a aproximadamente R$ 6,6 mil a R$ 13,2 mil, dependendo da idade, treinamento e condição física. Foto: The Telegraph

Embora o proprietário precise arcar com despesas contínuas — como alimentação, feno, suplementação, casqueamento e atendimento veterinário — muitos moradores do interior avaliam que esses custos se tornaram mais previsíveis do que depender de um combustível cada vez mais difícil de encontrar.

A lógica é simples: um veículo parado por falta de gasolina não produz. Já um cavalo continua trabalhando diariamente, desde que receba os cuidados básicos.

A busca por soluções não ficou restrita à tração animal.

Com a dificuldade para abastecer automóveis, as vendas de bicicletas dispararam 131% em junho em uma das principais plataformas de comércio eletrônico da Rússia. Os modelos de montanha concentraram mais da metade dos pedidos, refletindo a necessidade de deslocamentos em regiões onde o transporte motorizado passou a enfrentar limitações.

O comportamento do consumidor revela uma adaptação rápida às dificuldades impostas pela crise energética.

Enquanto a população procura alternativas, o governo russo tenta administrar a situação.

O presidente da Duma Estatal, Vyacheslav Volodin, defendeu investimentos na expansão das linhas de bondes, argumentando que um único veículo de três vagões poderia substituir aproximadamente 200 automóveis nas cidades.

Já o presidente da Comissão de Transportes, Yevgeny Moskvichev, afirmou que não existe um déficit estrutural de combustíveis e pediu paciência à população diante das filas nos postos.

Apesar do discurso oficial, Moscou adotou medidas concretas para proteger o abastecimento doméstico, incluindo a suspensão temporária das exportações de diesel e a ampliação das importações de derivados para reduzir a pressão sobre o mercado interno.

O retorno dos animais não acontece apenas nas fazendas.

Relatos divulgados pela imprensa britânica e por canais militares pró-Rússia indicam que unidades russas passaram a utilizar cavalos em determinadas operações militares, especialmente em áreas onde drones, minas terrestres e artilharia tornam extremamente arriscado o deslocamento de veículos.

O blogueiro militar pró-Rússia Semyon Pegov, conhecido como Wargonzo, afirmou que soldados vêm sendo treinados para utilizar cavalos em missões de assalto na região de Donetsk.

Já o comandante de uma unidade identificada como Storm, conhecido pelo codinome Khan, afirmou que os animais passaram a ser empregados para reduzir o desgaste físico das tropas, que antes percorriam longas distâncias a pé antes das operações.

Embora o uso ainda seja localizado, a iniciativa ilustra como a guerra vem obrigando ambos os lados a adaptar estratégias diante da crescente eficácia dos drones e dos ataques de precisão.

Para o agronegócio, a situação funciona como um lembrete da dependência que a produção moderna possui da logística e da energia.

A mecanização revolucionou a agricultura e a pecuária nas últimas décadas, mas continua baseada em cadeias de abastecimento estáveis. Quando refinarias deixam de operar, combustíveis desaparecem dos postos e o transporte é comprometido, até atividades simples passam a exigir soluções que pareciam superadas.

No caso russo, a volta dos cavalos simboliza justamente essa capacidade de adaptação. Em um conflito marcado por drones, inteligência artificial e ataques de longo alcance, um dos protagonistas inesperados acabou sendo um dos meios de transporte mais antigos da humanidade.

Mais do que uma curiosidade, a cena mostra como guerras modernas continuam produzindo impactos profundos sobre o campo, a economia e a vida cotidiana, muito além das linhas de combate.

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