“Se meu cliente não for neutro em carbono, eu não vou ser', diz diretora de Sustentabilidade do Itaú

Em entrevista ao VEJA+Verde, Luciana Nicola explica como o banco transformou a crise climática em agenda estratégica de negócios

BATANEWS/VEJA


Luciana Nicola, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco, tem uma visão muito particular da função que desempenha. “Quando a gente fala de sustentabilidade, estamos falando de geração de valor — não estamos falando só de uma agenda ambiental”, disse a executiva em entrevista ao programa VEJA+Verde. Formada em Direito e com uma trajetória que passou por marketing, comunicação, relações governamentais, microcrédito e inclusão financeira dentro do conglomerado, Luciana chegou à área atual depois de construir, ao longo de anos, o que ela chama de “fio condutor de propósito” em sua carreira.

A revisão da estratégia de ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) do banco, concluída em 2024, foi impulsionada pelo boom da agenda climática que varreu o mundo entre 2021 e 2023 — e que não estava no horizonte quando a estratégia anterior foi desenhada. O Itaú aderiu ao Net Zero Bank Alliance em 2021, comprometendo-se a alcançar emissões líquidas zero até 2050, com redução de 50% até 2030. A grande revelação desse processo foi perceber onde está, de fato, o problema. “A nossa emissão do escopo 1 e 2 é 700 vezes menor do que no escopo 3, que é aquilo que financio. Se o meu cliente não for net zero (carbono neutro), eu nunca vou ser net zero”, diz Luciana. Em outras palavras: o caminho para a descarbonização do banco passa, necessariamente, pela descarbonização dos seus clientes.

Daí decorre uma filosofia que rejeita o conceito de exclusão de setores carbono-intensivos da carteira de crédito. “O conceito de restrição não cabe, porque se o cliente não se financia nos bancos que aderiram ao Net Zero Bank Alliance, ele pode buscar outro banco sem nenhum compromisso — e com isso você não está contribuindo com a redução das emissões”, diz Nicola. O caminho escolhido é o do engajamento: o banco oferece assessoria para que os clientes mapeiem suas emissões e definam planos de transição, além de linhas de financiamento agrícola com incentivo de taxa e prazo para práticas regenerativas, como o programa Reverte — parceria com a Syngenta para recuperação de áreas degradadas.

Agro sustentável

O agronegócio está no centro das preocupações climáticas mais imediatas. Luciana cita as enchentes no Rio Grande do Sul e a intensificação das secas no norte do país como exemplos de como a mudança do clima já está “precificada no PIB” — não é mais uma ameaça futura. “A irrigação, por exemplo, passou a ser um item muito acessado de financiamento, o que até então não era uma solicitação frequente”, observa.

A estratégia do banco é mostrar que a transição para práticas mais sustentáveis não é apenas uma obrigação regulatória, mas uma vantagem competitiva: reduz custos, mitiga riscos, atrai capital mais barato e abre portas em mercados exportadores cada vez mais exigentes quanto à pegada de carbono dos produtos importados.

Pernas para quê te quero

Além da carteira de crédito, o Bike Itaú é um dos projetos mais emblemáticos do banco. O programa nasceu de uma reflexão interna iniciada em 2008 sobre qual contribuição direta a empresa poderia dar às cidades — além dos produtos financeiros tradicionais. Após estudar modelos na China e na Europa, o banco aproveitou uma oportunidade no Rio de Janeiro, onde um projeto de bicicletas compartilhadas para lazer estava prestes a ser descontinuado pela prefeitura, e apostou no compartilhamento como instrumento de política pública. Hoje, o Rio de Janeiro ostenta o maior indicador mundial de viagens por bicicleta compartilhada por dia. “O que mostra que tem uma viabilidade mais do que possível nesse sentido”, celebra Nicola. Mais recentemente, o projeto incorporou a bicicleta elétrica — especialmente para entregadores, que têm longas jornadas — e começou a gerar créditos de carbono pela emissão evitada em relação ao automóvel.

Quem pressiona

A pergunta sobre quem pressiona mais por mudanças climáticas num banco de varejo revela nuances importantes. Luciana Nicola é direta: investidores institucionais — especialmente os internacionais — e o Banco Central do Brasil lideram esse movimento, não o consumidor final. “O investidor pessoa física ainda olha o maior retorno no curto prazo e o menor risco possível. O ESG traz o menor risco e retornos competitivos, mas não no curto prazo — então ainda não é do seu interesse”, avalia.

É na participação do Itaú no Conselho do Pacto Global da ONU que Luciana Nicola vê um dos espaços mais ricos para avançar: um ambiente onde o banco pode sentar com seus clientes “de forma isenta, sem o viés da avaliação de crédito”, para entender dificuldades e construir caminhos concretos para a transição — em que a conversa vai da descarbonização aos direitos humanos, passando pelo debate sobre biocombustíveis e os chamados refugiados climáticos.