Policial
MS reduz homicídios de crianças, mas violência persiste entre adolescentes
Levantamento indica que jovens de 15 a 19 anos são as principais vítimas em casos com armas de fogo
BATANEWS/CGNEWS
Mesmo com a redução dos homicídios de crianças e adolescentes na última década, Mato Grosso do Sul ainda enfrenta um cenário em que a violência letal se intensifica conforme a idade avança. Os dados fazem parte do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O levantamento mostra que, embora os índices tenham caído em todas as faixas etárias analisadas, os adolescentes continuam sendo as principais vítimas da violência letal no Estado, em um contexto marcado pelo uso de armas de fogo e pela concentração dos crimes em dinâmicas de violência urbana.
Um dos casos que marcaram Mato Grosso do Sul recentemente foi o assassinato de Aysla Carolina de Oliveira Neitzke e Silas Ortiz Grizahay, ambos de 13 anos, mortos por engano em maio de 2024, no Bairro Jardim das Hortênsias, em Campo Grande. Em abril de 2026, o caso voltou à tona por conta do julgamento de João Vitor de Souza Mendes, que foi condenado a 44 anos, 5 meses e 10 dias de prisão pelo duplo homicídio.
Adolescentes - Entre adolescentes de 15 a 19 anos, Mato Grosso do Sul registrou 652 homicídios entre 2014 e 2024. Em 2014, foram 109 mortes. Dez anos depois, o número caiu para 35, uma redução de 67,9%.
Na comparação entre 2023 e 2024, os casos passaram de 43 para 35, retração de 18,6%. A taxa de homicídios por 100 mil habitantes caiu de 48,5 para 16,3 no período, redução de 66,4%.
Apesar da queda, os adolescentes seguem concentrando a maior parte das mortes violentas. O cenário acompanha a tendência nacional apontada pelo Atlas, que identificou forte predominância do uso de armas de fogo nessa faixa etária. Em todo o país, 84,1% dos homicídios de adolescentes de 15 a 19 anos ocorreram com esse tipo de arma.
O estudo aponta que esse padrão reforça a necessidade de políticas públicas voltadas ao controle de armas e à prevenção da violência entre jovens.
Crianças - Entre crianças menores, o comportamento da violência é diferente. Mato Grosso do Sul registrou 40 homicídios de crianças de 0 a 4 anos entre 2014 e 2024. O número caiu de oito casos, em 2014, para dois em 2024, redução de 75%. Apenas entre 2023 e 2024, a queda foi de 50%, passando de quatro para dois registros.
A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes também caiu, passando de 3,8 para 1 no período.
Um dos casos marcantes no Estado foi a morte da bebê Sophie, de 10 meses, que foi assassinada junto com a mãe, Vanessa Eugênia Medeiros, em maio de 2025, em Campo Grande. Segundo a investigação, o companheiro de Vanessa e pai da bebê, João Augusto Borges de Almeida, confessou ter matado a mulher com um golpe conhecido como “mata-leão' e, em seguida, esganado a criança dentro da residência da família. Depois, ele levou os corpos até uma área de mata no Indubrasil, onde incendiou as vítimas.
Na faixa de 5 a 14 anos, foram registrados 70 homicídios em dez anos no Estado. Os casos diminuíram de 19, em 2014, para quatro em 2024, retração de 78,9%. Entre 2023 e 2024, a redução foi de 33,3%, de seis para quatro mortes.
A taxa de homicídios nessa faixa etária caiu de 4 para 0,9 por 100 mil habitantes, redução de 79,5%.
Média nacional - Os resultados de Mato Grosso do Sul ficaram acima da média nacional na redução dos homicídios infantis. No Brasil, as mortes de crianças de 0 a 4 anos caíram 14,8% entre 2014 e 2024. Entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos, a redução foi de 63,2%. Já entre adolescentes de 15 a 19 anos, a retração nacional foi de 55,8%.
Mesmo com a melhora dos indicadores, o Atlas da Violência alerta que o problema continua grave. Em 2024, cerca de 14 crianças e adolescentes de até 19 anos foram assassinados por dia no país.
Estratégias diferentes - O estudo também chama atenção para as diferenças nos contextos de violência conforme a idade. Entre crianças pequenas, há menor predominância de armas de fogo e maior diversidade nos meios de agressão, incluindo instrumentos contundentes e casos classificados como meios desconhecidos.
Segundo o Atlas, esse perfil aponta para a necessidade de estratégias específicas de proteção no ambiente doméstico, prevenção de maus-tratos e identificação precoce de situações de risco.
O levantamento destaca ainda que os serviços de saúde e as escolas têm papel central na identificação de sinais de negligência e violência contra crianças e adolescentes. A recomendação é que estados e municípios atuem de forma integrada, com protocolos unificados entre saúde, educação, assistência social, segurança pública e sistema de justiça.
Para os pesquisadores, a ausência de articulação entre os serviços pode atrasar o reconhecimento de situações de risco e comprometer a proteção das vítimas, fazendo com que muitos casos só sejam identificados quando a violência já atingiu níveis mais graves.





