Medo de cair devido à má condição das calçadas atinge 43% dos idosos

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Buraco em calçada na zona norte de São Paulo - Rubens Cavallari - 19.set.22/Folhapress

Quase metade dos idosos brasileiros que vivem em áreas urbanas teme cair por causa de defeitos em calçadas, passeios e vias públicas próximas de casa. Outros 12% (cerca de 3,8 milhões) consideram insegura a região em que vivem por causa da violência.

Os dados integram a terceira onda do Elsi-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros), uma das mais amplas pesquisas sobre envelhecimento no país, coordenada pela Fiocruz Minas e pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Os resultados foram divulgados nesta terça-feira (26) junto ao lançamento de um painel online com 107 indicadores sobre envelhecimento. A pesquisa reforça que envelhecer no Brasil envolve desafios que vão além da ausência de doenças.

'Conhecer essa situação é muito importante para poder fazer políticas focadas no que é prioritário', afirma a epidemiologista Maria Fernanda Lima-Costa, coordenadora do estudo.

O painel reúne indicadores sobre condições de moradia, saúde física e mental, funcionalidade, acesso a serviços, uso de medicamentos, quedas, visão, audição e ambiente social. Para a pesquisadora, os dados mostram que o envelhecimento precisa ser tratado como tema transversal de políticas públicas. 'Não é só saúde. Todo o ambiente importa, assim como escolaridade, posição socioeconômica e condições urbanas.'

Entre os indicadores que mais chamaram atenção está a percepção sobre o espaço urbano. Segundo o levantamento, 42,7% dos idosos que vivem em cidades relatam medo de cair por causa de problemas nas calçadas. Entre as mulheres, o percentual chega a 50,5%. Entre pessoas com 80 anos ou mais, alcança 63,1%.

'Defeito na calçada leva a quedas, e as quedas podem ter complicações muito graves, sobretudo entre os mais velhos', afirma Lima-Costa. De acordo com os dados, 20,9% dos idosos relatam que sofreram quedas nos últimos 12 meses.

A preocupação se conecta a outro dado do estudo: 12,1% dos idosos brasileiros —cerca de 3,8 milhões de pessoas— consideram a vizinhança muito insegura no que diz respeito à violência. 'É um problema disseminado no Brasil e afeta diretamente a circulação social e a qualidade de vida dessa população', diz.

Na avaliação da pesquisadora, os números evidenciam a urgência de cidades mais amigáveis ao envelhecimento, com investimentos em acessibilidade, mobilidade, segurança urbana e planejamento inclusivo.

Outro achado considerado crítico é a prevalência da hipertensão. A aferição domiciliar identificou que 34,4% dos idosos apresentam pressão arterial igual ou superior a 14 por 9, patamar associado a maior risco de infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e demência vascular.

Isso representa cerca de 11 milhões de pessoas. 'É um problema gravíssimo, mas com solução. Muitas vezes a pessoa trata, mas não faz acompanhamento adequado para saber se o medicamento está funcionando', afirma a pesquisadora.

'Durante as entrevistas, orientamos quem apresentava esses níveis a procurar atendimento para confirmação diagnóstica.' A pesquisa aponta que 59,8% tinham diagnóstico de hipertensão.

Segundo ela, o dado reforça a necessidade de fortalecer a atenção primária. 'Basta a pessoa frequentar regularmente o posto de saúde para monitorar a pressão e evitar complicações.'

O estudo mostra ainda que 20,4% dos idosos brasileiros (cerca de 6,5 milhões) têm dificuldade para realizar ao menos uma atividade básica da vida diária, como tomar banho, vestir-se ou levantar da cama. Apesar disso, apenas 37,9% recebem algum tipo de ajuda.

O cenário é agravado pela baixa preparação de quem cuida: apenas 5,8% dos cuidadores relataram ter recebido treinamento. 'Esse é um resultado extremamente importante. Há necessidade urgente de apoio ao cuidador, tanto para protegê-lo quanto para que ele consiga prestar a ajuda necessária', afirma Lima-Costa.

Ela destaca que a discussão sobre cuidado de longa duração ainda é insuficiente no país. 'A perda de autonomia é uma dimensão central do envelhecimento e precisa ser incorporada às políticas públicas.'

Os resultados também reforçam a centralidade do SUS (Sistema Único de Saúde) no cuidado à população idosa: cerca de dois terços das pessoas com 60 anos ou mais dependem exclusivamente do sistema público de saúde. Além disso, 69,2% estão vinculados ao programa Estratégia Saúde da Família.

'Isso mostra a importância do SUS e da atenção primária. O Brasil tem um modelo singular entre países em desenvolvimento, e isso precisa ser valorizado', afirma a pesquisadora.

Criado para reunir evidências e facilitar o monitoramento contínuo das condições de vida da população idosa, o novo painel do ELSI-Brasil poderá ser consultado por pesquisadores, gestores e profissionais de saúde.

Para Lima-Costa, a ferramenta chega em momento crucial: o Brasil já tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais e envelhece em ritmo acelerado. 'O país precisa se preparar. O envelhecimento exige respostas integradas que envolvem saúde, urbanismo, assistência social e proteção à autonomia.'