Quanto custa tratar a obesidade com os novos medicamentos? E quanto custa não tratar?

Uma reflexão sobre farmacoeconomia e, o mais importante, a qualidade de vida da população

BATANEWS/VEJA


Obesidade: complicações geram custo explosivo para o sistema de saúde (Foto: VEJA SAÚDE/VEJA)

Existe uma cena que se repete nos corredores do SUS e nos consultórios privados do Brasil inteiro. Um paciente com obesidade grave chega ao médico. Tem joelho judiado pela osteoartrite, fígado gorduroso, pressão alta que não controla com três medicamentos, e acaba de sair de uma internação por insuficiência cardíaca. O médico olha para ele, olha para o sistema de saúde, e percebe que chegou tarde. Dez, quinze anos tarde.

Essa cena tem um custo. Um custo que o Brasil ainda se recusa a calcular com honestidade.

Os novos tratamentos antiobesidade — em especial os agonistas do receptor de GLP-1 e os co-agonistas, representados pela semaglutida e pela tirzepatida, respectivamente — são, de fato, caros. No Brasil, um mês de tratamento pode custar entre R$ 800 e R$ 2.500, dependendo da dose e da molécula.

Para um trabalhador de renda mediana, isso pode ser inviável. Para o SUS, na ausência de uma política estruturada de incorporação, é praticamente impossível.

O argumento mais imediato — e mais preguiçoso — é dizer que o país não tem dinheiro para pagar por isso. Mas essa é exatamente a pergunta errada. A pergunta certa é outra: quanto custa não tratar?

A resposta, do ponto de vista da farmacoeconomia, é devastadora.

O barato que sai caro

A obesidade não é apenas um número no IMC. É uma doença crônica, inflamatória e que compromete órgãos e sistemas em cascata. As evidências científicas acumuladas na última década — especialmente com os grandes ensaios clínicos de desfechos cardiovasculares — mostram que tratar a obesidade com as ferramentas modernas não é luxo: é prevenção de catástrofes.

Estudos robustos vêm mostrando que os tratamentos mais modernos reduzem significativamente uma porção de males: infarto, AVC, esteatose hepática, apneia do sono, doença renal, osteoartrite de joelho.

Isso não é lista de bula. É ciência de desfecho duro. São vidas, internações evitadas, amputações não realizadas, transplantes de rim adiados, cirurgias ortopédicas poupadas.

A farmacoeconomia sabe disso. Modelos de custo-efetividade feitos no Reino Unido, Suécia e Austrália mostram que, quando se contabiliza a redução de hospitalizações, procedimentos cirúrgicos, dias de trabalho perdidos, benefícios previdenciários e mortalidade prematura, os novos remédios antiobesidade se tornam custo-efetivos — em alguns cenários, até poupadores de recursos. O que sai caro é não tratar.

Receita de Estado

Mas seria ingênuo — e intelectualmente desonesto — encerrar essa conversa nos medicamentos.

O Brasil precisa de uma política de Estado antiobesidade. Não de uma política de governo, sujeita a ciclos eleitorais e ao humor das plenárias. Uma política transversal, intersetorial, de longo prazo, com grande foco em prevenção. 

Isso significa regulação da publicidade de ultraprocessados para crianças — ainda um campo de batalha perdido no Congresso. Significa tributação inteligente de bebidas açucaradas, como faz o México e como timidamente se avança no Brasil. Significa infraestrutura urbana que permita caminhar, pedalar, brincar. Significa alimentação escolar de verdade, não de merenda de papel. Significa um serviço de atenção primária capaz de identificar obesidade como doença crônica — e não como falha moral do paciente.

Os medicamentos são recursos de uma cadeia maior que deveria ter sido construída décadas antes. Usá-los sem essa cadeia é tampar o sol com a peneira — caro, ineficiente e injusto com os mais pobres, que jamais terão acesso a eles sem política pública.

Há algo de perturbador em um país que gasta bilhões tratando as complicações da obesidade — diálise, cateterismo, próteses de joelho — e hesita em investir na prevenção dessas mesmas complicações com tratamentos modernos e evidência robusta.

A farmacoeconomia tem um nome para isso: miopia temporal. Gastamos no presente para não enxergar o futuro. E o futuro, no caso da obesidade, é uma epidemia que cresce mais rápido do que nossa capacidade, inclusive financeira, de enfrentá-la.