Saúde
Suplementação de proteína em crianças se populariza, mas representa riscos
BATANEWS/FOLHA
Com um ano de vida, Liz, até então um bebê forte e saudável, pegou Covid. A mãe, a professora Adriana Vicente Martini, de Ribeirão Preto (SP), passou 22 dias de angústia com a bebê internada e perdendo peso. Quando Liz se recuperou, Adriana e o marido foram orientados por um pediatra a suplementar a alimentação dela com whey protein.
Adriana passou a dar o suplemento para a filha duas vezes ao dia: no café da manhã e na mamadeira antes de dormir. Hoje Liz tem sete anos e é a menina mais alta da sala. 'Ela [Liz] mede 1,27 cm e tem 31 quilos, o tamanho e peso de uma criança de 10 a 12 anos, segundo o pediatra. Liz não teve mais Covid e optamos por não vaciná-la contra a doença', completa a mãe.
O whey protein, proteína isolada do soro do leite, é um suplemento comumente utilizado por adultos que praticam esportes de alto rendimento. Recentemente, a influenciadora fitness Carol Borba levantou polêmica nas redes ao dizer que alimenta a filha de 3 anos com whey e creatina, um composto nitrogenado derivado de aminoácidos. 'Ela pede mamadeira com whey de chocolate branco', disse a influenciadora a um podcast.
Virginia Fonseca também já foi criticada ao postar um vídeo em que aparece dando às filhas pequenas um mingau de whey com banana.
Mãe de um menino de 2 anos, a nutricionista hospitalar Amanda Félix, de Sorocaba (SP), diz que suplementa a alimentação do filho com whey desde o primeiro ano de idade, quando ele apresentou falta de apetite devido a dentes nascendo. Ela diz que não coloca o produto na mamadeira, mas utiliza no preparo de receitas, como panquecas.
'Meu filho fará dois anos, pesa 17 quilos e mede 94 cm', diz Amanda. A média de peso para a idade é de 12 quilos. 'Em dias de inapetência e baixa aceitação alimentar, utilizo whey de forma estratégica para complementar a ingestão do meu filho', afirma.
Na semana passada, a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) divulgou um alerta contraindicando o uso dessas substâncias em crianças e adolescentes.
'Esses suplementos estão amplamente difundidos no contexto da prática de atividade física e esportiva entre adultos e caracterizam-se, em sua maioria, como produtos ultraprocessados, por incorporarem ingredientes como aromatizantes, edulcorantes e emulsificantes', diz a nota da SBP.
'Diferentemente dos alimentos, que fornecem proteínas associadas a vitaminas, minerais, fibras e compostos bioativos, esses produtos promovem uma oferta concentrada e descontextualizada de nutrientes.'
Pais e mães disseram à reportagem que fazem a suplementação com whey como forma de contornar a inapetência das crianças. A pediatra Fabíola Suano, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da SBP, explica que a seletividade alimentar faz parte do desenvolvimento e tende a se manifestar naturalmente, de forma temporária, entre os 4 e 7 anos. O segredo para driblar a rejeição a determinados alimentos, diz ela, é justamente diversificar a dieta ao máximo possível.
'Uma criança de 15 quilos precisa de 1g de proteína para cada quilo, ou seja, 15 g. Um bifinho. O whey protein não tem nenhuma vantagem em relação à proteína dos alimentos, pelo contrário, tem qualidade inferior', diz.
'Pequenas quantidades já interferem na sensação de saciedade. Além disso, são produtos com sabor forte e adocicado, que impactam na formação do paladar', diz. Ou seja, vai ser difícil a criança aceitar espinafre ou abóbora se ela está acostumada à mamadeira de whey sabor chocolate.
Segundo estudos científicos citados pela SBP, o excesso de proteína representa risco de sobrecarga renal e hepática. 'Estudos descrevem potenciais efeitos adversos renais, hepáticos e metabólicos associados ao consumo excessivo e crônico de proteína', diz a sociedade.
O excesso proteico pode ainda estimular a secreção de insulina e interferir no balanço energético, favorecendo a lipogênese, ou seja, maior armazenamento de gordura pelo corpo, acrescenta o comunicado.
Para adolescentes e pré-adolescentes, o consumo desses suplementos se torna ainda mais nocivo quando é ligado à percepção psicológica de saúde e à pressão estética. 'Está se criando um modelo de saúde 'marombada'. É como se ter mais músculo significasse ser mais saudável', explica Suano.
Ela ressalta que a formação do hábito alimentar vem de dentro de casa, por meio de exemplos. 'O conceito de que whey protein e creatina melhoram a performance está muito disseminado entre adultos. Um percentual enorme de famílias saudáveis está consumindo esses produtos sem indicação', diz. 'Os pais devem prestar atenção no uso que eles estão fazendo para si desse tipo de suplemento.'
Marcelo Bella, presidente da Abenutri (Associação Brasileira das Empresas de Produtos Nutricionais), classificou como lamentável o alerta da SBP. 'Não existe nenhum trabalho robusto científico no mundo que tenha comprovado sobrecarga renal e hepática por whey e creatina em adultos ou em crianças', diz.
'Erra a Sociedade Brasileira de Pediatria ao falar em prevenção de risco sem estudo que comprove esse tipo de lesão. Não há risco na suplementação para crianças, desde que não haja excesso', completa.
Aline Goettet, nutricionista e Diretora Executiva da Brasnutri (Associação Brasileira de Fabricantes de Suplementos Nutricionais), diz que a recomendação da Anvisa deve ser respeitada e que 'o principal risco está no uso indiscriminado, sem necessidade real e sem orientação profissional' desses suplementos.




