Bem-vindo à era da psicose artificial

BATANEWS/FOLHA


Sebastien Bozon /AFP

Vivemos numa época em que um pré-candidato a presidente mente dizendo ser mentira pedido de R$ 134 milhões. Pego na mentira, mente de novo dizendo que está tudo bem, afinal uma cláusula de sigilo em contrato exigiria que mentisse a respeito.

Sem corar, sem abalar seus eleitores fiéis, sem ser defenestrado da disputa. Não existirá no Brasil um pastor honesto para explicar ao senador e seu rebanho que sigilo não obriga ninguém a mentir, só a calar ou desconversar? Supondo que o contrato e a cláusula existam.

Já não vigora máxima 'é a economia, estúpido'. Doravante prevalece 'é a narrativa, estúpido'. Mesmo que a narrativa seja incoerente, mendaz, errática, alucinada. Tipo as narrativas que cercam o cessar-fogo no Irã, em Gaza ou na Ucrânia.

Discursa-se para quem vai concordar de antemão. Para os escravos do viés de confirmação. Para os arautos da servidão voluntária. Para quem acredita em mamadeira de piroca, cloroquina, proxalutamida e ivermectina. Para quem toma detergente e desdenha de vacinas.

Quando a melhor tática de guerra cultural é inundar o campo com excrementos, não se turvam só as águas da retórica política. Valem mais o ato reflexo, a reação imediata, o juízo pronto, a ideia feita. Saem de cena a verificação dos fatos, a ponderação dos argumentos, a obediência à lógica e o benefício da dúvida.

No clima de pega para cancelar, imola-se a reputação da artista Marília Marz por uma charge de crítica aos penduricalhos do Judiciário que foi instrumentalizada como suposto deboche da morte de uma juíza em procedimento cirúrgico. Até uma pesquisadora imortal da ABL caiu na esparrela de corporativistas despudorados.

Dostoiévski escreveu em 'Os Irmãos Karamazov' que, se Deus não existe, tudo é permitido. Atualize-se o dito para estes tempos ímpios e filistinos: se fatos não existem nem para luminares da academia (ou das redes antissociais), vale tudo. E se engana quem acha que a ciência está imune à pandemia de falsidade.

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Fabricação de dados, maquiagem de estatísticas e manipulação de imagens sempre acossaram a pesquisa acadêmica, é fato. Elizabeth Bik que o diga. Mas ferramentas digitais e inteligência artificial (IA) bombardeiam a integridade do edifício do conhecimento com a eficiência módica de um enxame de drones iranianos. Nunca foi tão fácil forjar um paper.

Mentiras produzidas por IA ganharam o apelido fofo de 'alucinações' (não tão fofo assim, pois nem mesmo carregam o lastro de sofrimento nas psicoses reais). Um sintoma da fabulação está na invenção de citações, como vêm de quantificar Zhenyue Zhao e colegas num artigo para o diretório arXiv, onde pesquisadores postam trabalhos (preprints) sem passar pelo crivo de pares ('peer review').

Zhao &cia peneiraram 111 milhões de referências listadas em 2,5 milhões de artigos do ano passado em coleções como o próprio arXiv ou bioRxiv, SSRN e PubMed. Encontraram 146.932 citações falsas, ou seja, referências a trabalhos que não existem.

Dizem que só as baratas sobreviverão à passagem de humanos pela Terra, mas, se o site Kalshi da bilionária brasileira Luana Lopes Lara aceitar, apostaria dois tostões nos cupins.