Cotidiano
Por trás da briga entre Virginia e Luana Piovani há um alerta sobre saúde mental e financeira
Em artigo para VEJA, psicóloga examina cenário preocupante impulsionado pelas plataformas de apostas
BATANEWS/VEJA / KAREN SCAVACINI*
A recente troca de críticas entre duas influenciadoras conhecidas no mundo da internet – Virginia Fonseca e Luana Piovani – ultrapassa o ruído típico das redes sociais para iluminar uma transformação silenciosa (e preocupante) no comportamento financeiro dos brasileiros.
O crescimento acelerado das chamadas “bets” não é apenas um fenômeno econômico ou tecnológico. Trata-se, sobretudo, de uma mudança cultural, impulsionada pela naturalização da aposta como entretenimento cotidiano e, em muitos casos, como promessa implícita de solução financeira.
Os dados recentes da Confederação Nacional do Comércio são contundentes: em pouco mais de três anos, os gastos mensais com apostas saltaram para além de R$ 30 bilhões, em paralelo à deterioração de indicadores de inadimplência.
Essa coincidência não parece trivial. Ao contrário, sugere um deslocamento relevante no uso da renda, especialmente em contextos de vulnerabilidade econômica. Quando a aposta deixa de ocupar um espaço marginal e passa a competir com despesas essenciais, o que está em jogo não é apenas o orçamento, mas a própria percepção de risco.
Do ponto de vista psicológico, esse movimento é ainda mais sensível. A exposição constante a conteúdos de apostas, frequentemente mediados por influenciadores, contribui para reduzir barreiras cognitivas e emocionais. Ao ver figuras públicas associando ganhos rápidos a experiências positivas, o indivíduo tende a reinterpretar a aposta não como um jogo de probabilidade desfavorável, mas como uma alternativa viável diante de dificuldades financeiras.
Esse processo pode transformar o ato de apostar em uma estratégia ilusória de enfrentamento, especialmente em momentos de pressão econômica.
O impacto se materializa de forma concreta. O aumento significativo no número de famílias incapazes de pagar suas dívidas entre apostadores revela que o problema não se limita a excessos pontuais, mas indica um padrão de comportamento. Mais do que isso, o prolongamento do tempo de atraso das contas sugere uma inversão de prioridades: antes de quitar compromissos básicos, parte da renda é direcionada às plataformas de aposta. Esse dado é particularmente relevante porque aponta para a persistência da inadimplência, e não apenas para episódios isolados.
Outro aspecto que desafia leituras simplistas é o perfil dos afetados, pois embora famílias de menor renda permaneçam mais vulneráveis, o avanço entre adultos acima de 35 anos e indivíduos com maior escolaridade evidencia que o fenômeno atravessa diferentes camadas sociais.
A maior familiaridade com o ambiente digital e o acesso facilitado a serviços financeiros ampliam não apenas a entrada, mas a recorrência no consumo. Entre os mais ricos, o efeito assume outra forma: a chamada “despoupança”, na qual recursos próprios são direcionados às apostas, comprometendo a estabilidade financeira no médio prazo.
Diante desse cenário, a discussão sobre regulação e publicidade se torna inevitável, mas insuficiente se isolada. É preciso reconhecer que estamos diante de um fenômeno que combina tecnologia, comportamento e contexto socioeconômico. A forma como as apostas são comunicadas (muitas vezes dissociadas de seus riscos reais) contribui para distorcer a tomada de decisão.
Mais do que proibir ou restringir, o desafio está em reconstruir a percepção de risco e fortalecer a educação financeira e emocional da população. Porque, no fim, a linha que separa o entretenimento do prejuízo não é definida pela plataforma, mas pela forma como cada indivíduo percebe, ou deixa de perceber, o que está realmente em jogo.
* Karen Scavacini é doutora em psicologia pela USP e fundadora do instituto de pesquisa em saúde mental Vita Alere

