Zarc reduz perdas em até 70% nas lavouras no Brasil

Ferramenta orienta crédito e seguro rural em 49 culturas e evolui para modelo que mede impacto do manejo do solo na redução de risco e na produtividade.

BATANEWS/OPR


Foto: Geraldo Bubniak

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) chega aos 30 anos com impacto direto na redução de perdas e passa por uma transição metodológica que incorpora o manejo do solo como variável central na gestão de risco. Durante a 9ª Reunião da Rede Zarc, em Brasília (DF), o coordenador da iniciativa, Eduardo Monteiro, apresentou a evolução da ferramenta e os próximos passos do programa.

As primeiras avaliações de risco em culturas no Brasil antecedem a formalização do Zarc, ainda na década de 1990, com estudos conduzidos pela Embrapa Arroz e Feijão. O projeto ganhou escala após 1995, quando passou a ser estruturado como política pública voltada à redução de perdas climáticas na produção agrícola.

Segundo Monteiro, a introdução do zoneamento trouxe efeitos mensuráveis. “Houve redução de 70% no índice médio de perdas no conjunto de contratos que seguiam o Zarc em comparação ao total de contratos. Qualquer redução de 20% de perdas já representa uma economia na casa dos bilhões de reais', afirmou.

Ao longo da trajetória, o programa passou por mudanças institucionais. Entre 2003 e 2015, o Zarc ficou fora da estrutura operacional da Embrapa e retornou à instituição com necessidade de reconstrução técnica. “O trabalho partiu praticamente do zero, mas o passivo foi superado', disse Monteiro, ao destacar o apoio institucional recebido no período.

Hoje, o Zarc integra uma rede com foco em conectar pesquisa, políticas públicas e instrumentos financeiros. “É um ambiente de relacionamento e colaboração que aproxima o corpo técnico dos desafios do Proagro, do seguro rural e das políticas do Ministério da Agricultura. Para cada demanda priorizada, conseguimos entregar resultados em 18 a 24 meses para aplicação prática', explicou. Entre as soluções desenvolvidas estão o Zarc Pecuário, o Zarc Produtividade e o Zarc Níveis de Manejo.

Atualmente, o programa está operacionalizado em 49 culturas, com uso direto em operações de crédito rural, seguro e Proagro. A próxima etapa envolve a expansão do Zarc Níveis de Manejo (ZarcNM), considerado uma evolução da ferramenta tradicional. “O ZarcNM representa uma segunda geração do zoneamento, mais exigente. Ele permite trabalhar produtividade mesmo em cenários de risco', afirmou Monteiro.

Diferentemente do modelo atual, que considera clima, solo e ciclo da cultura, a nova abordagem incorpora a qualidade do manejo como variável determinante.

Na prática, o ZarcNM quantifica o risco de forma individualizada por gleba e talhão, permitindo mensurar o efeito de práticas agrícolas sobre a estabilidade produtiva. “É um mecanismo de indução da sustentabilidade, porque mostra como melhorar a produção, aumentar o carbono no solo e a retenção de água, premiando áreas com menor risco', disse.

Os resultados de campo reforçam a diferença entre níveis de manejo. Durante a seca de 2022, considerada uma das mais severas dos últimos anos, áreas com baixo nível de manejo registraram perdas de até 90%, enquanto propriedades com manejo avançado limitaram perdas a cerca de 20%. No Sul do país, estudos da Embrapa Soja apontaram produtividade 43% maior em áreas com melhor manejo.

O ZarcNM está em fase piloto na cultura da soja no Paraná e já foi expandido para outros estados do Sul e para Mato Grosso do Sul. A previsão é ampliar o modelo para culturas como milho e trigo, em um processo gradual. “Vamos ter que treinar e capacitar o setor produtivo e validar os dados no campo. O Zarc tradicional precisa continuar existindo enquanto essa transição acontece', alertou o pesquisador.

Para a continuidade do programa, Monteiro aponta dois pontos críticos. “Precisamos de um modelo de financiamento compatível com essa inovação, que atenda às exigências do crédito, do Proagro e do seguro rural. E também é necessário mudar a forma de construir parcerias com outras instituições para sustentar essa evolução', ressaltou.