Antidepressivos: existe mesmo risco de dependência? Nova pesquisa traz respostas

Cercado de controvérsias, tema ganha novo capítulo com estudo que aponta sintomas leves após interrupção, mas divide especialistas

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Antidepressivos: interrupções abruptas e uso irregular elevam risco de efeitos colaterais (//iStock)

A velha controvérsia sobre a possibilidade de dependência associada aos antidepressivos ganhou um novo fôlego em 2025. Publicada na revista científica JAMA Psychiatry, uma revisão envolvendo mais de 17 mil participantes sugere que, embora sintomas como tontura, náusea e vertigem possam ocorrer após a interrupção dos medicamentos, esses efeitos tendem a ser leves, passageiros — e, segundo os autores, “não atingem o nível de abstinência clinicamente significativa”.

O estudo diverge de revisões anteriores ao adotar uma nova abordagem metodológica. Em vez de apenas descrever a prevalência dos sintomas de retirada, os pesquisadores compararam os efeitos em pacientes que pararam de tomar antidepressivos com aqueles que interromperam o uso de placebo. O resultado foram sintomas semelhantes nos dois grupos. Isso levou os autores a sugerirem que parte do desconforto pode estar ligado a fatores psicológicos, como o chamado “efeito nocebo”, em que a expectativa de sintomas negativos pode, por si só, desencadeá-los.

O estudo, no entanto, dividiu a comunidade científica. James Davies, psicólogo e professor da Universidade de Roehampton, no Reino Unido, criticou abertamente a conclusão. “É como dizer que a cocaína não vicia porque fizemos um estudo com pessoas que a usaram por apenas oito semanas”, ironizou em entrevista ao New York Times. Davies foi um dos responsáveis por uma revisão de 2019 que estimou que mais de 50% dos usuários de antidepressivos experimentam sintomas de abstinência, sendo 46% considerados graves.

Para ele, o novo trabalho corre o risco de minimizar o sofrimento de muitos pacientes. “Existem pessoas reais por aí que não estão inventando o fato de que sentem muita dor por causa dessas fármacos”, afirmou.

Do outro lado do debate, o psiquiatra Jonathan Henssler, um dos autores da nova revisão, rebateu. Segundo ele, o objetivo da pesquisa foi justamente “trazer equilíbrio ao debate”, em um campo marcado por visões bastante polarizadas. “Esperávamos contribuir com equilíbrio e calma, mas isso não aconteceu”, disse ao NY Times.

Dependência ou síndrome da retirada?

No Brasil, o psiquiatra Guido Boabaid, do Hospital Israelita Albert Einstein, reconhece os avanços metodológicos da nova revisão, mas adota uma postura cautelosa. “Sim, é um estudo com mais rigor, usou escalas, controle com placebo, análise estatística refinada. Mas ainda há limitações importantes. A maioria dos estudos incluídos tem curta duração, com pacientes altamente selecionados, o que não representa a prática clínica real”, avalia.

Ele também destaca que o termo “dependência”, tão comum nas discussões, não é a melhor opção — até porque pode reforçar o estigma em relação a esses medicamentos. “Não há euforia ou busca compulsiva pela substância, como vemos nas drogas recreativas ou em substâncias estimulantes. É um erro conceitual. O termo mais apropriado é ‘síndrome de retirada’ — que é o conjunto de sintomas físicos e emocionais que podem surgir quando o medicamento é interrompido abruptamente ou reduzido rapidamente — e não ‘dependência’.”

Produzir estudos sólidos sobre o tema está longe de ser uma tarefa simples. Isso acontece, em grande parte, porque os sintomas relatados costumam ser amplos e inespecíficos. Eles podem facilmente ser confundidos com recaída da doença, efeito rebote ou até mesmo efeito nocebo, o que dificulta a padronização dos resultados. Além disso, são raras as pesquisas que acompanham pacientes em uso prolongado dos medicamentos. Por isso, segundo Boabaid, o aspecto mais importante continua sendo o acompanhamento médico cuidadoso e individualizado.

“Nada substitui a boa prática clínica ao descontinuar um antidepressivo. É importante considerar o perfil do paciente, o tempo de uso, a dose e, se possível, até a taxa de metabolização da substância. Hoje, a medicina de precisão nos permite fazer isso de forma muito mais segura.”

Ele explica que alguns antidepressivos têm maior risco de causar síndrome de descontinuação, principalmente os que têm meia-vida mais curta. Ou seja, eles são eliminados mais rapidamente da corrente sanguínea, e isso pode gerar sintomas mais agudos de retirada. Ele lembra ainda que medicamentos com ação mais direta sobre a serotonina tendem a apresentar quadros mais clássicos de descontinuação, como a tontura, citada como efeito comum no novo estudo. “Mas dizer que não é significativo clinicamente não significa que não ocorra”, pondera.

Para Boabaid, a revisão do JAMA Psychiatry não invalida a existência dos sintomas de retirada, mas deve ser lida dentro de um contexto: a maior parte dos pacientes, mesmo aqueles que usam antidepressivos por anos, consegue fazer uma retirada gradual sem maiores problemas, desde que haja acompanhamento. A questão é que nem sempre isso acontece. Muitos pacientes interrompem o tratamento por conta própria e, nesses casos, os sintomas tendem a ser mais intensos. “Interrupções abruptas de antidepressivos não são indicadas, salvo em situações muito específicas. E, na prática, é raro ver casos de abstinência prolongada ou severa”, diz o psiquiatra.

Outra contribuição importante do novo estudo, na opinião do especialista, é que ele pode ajudar a reduzir o estigma ainda associado ao uso de antidepressivos. “Esse medo de ‘ficar viciado’ afasta muita gente de um tratamento eficaz. Antidepressivo bem indicado e bem utilizado melhora a vida, aumenta a eficiência do tratamento de transtornos como depressão e ansiedade, e tem um perfil de segurança muito alto.”