Preso em MS com nome de morto, “Fantasma” negociava cocaína com Clã Haidar

PF aponta que Maroan Fernandes forneceu RG falso ao narcotraficante e acertou envio de drogas à Europa

BATANEWS/CGNEWS


Passaporte falso usado por Jorge Adalid Granier Ruiz para despistar polícia (Foto: Paulo Francis/Arquivo)

Era uma terça-feira, 28 de março de 2023, quando a PRF (Polícia Rodoviária Federal) abordou uma Toyota Hilux na BR-163, em Jaraguari, e encontrou um dos narcotraficantes mais procurados da América do Sul. O boliviano Jorge Adalid Granier Ruiz, conhecido como “Fantasma' ou “Nono', apresentou documentos em nome de Jorge Mendez Ardaya, boliviano que havia morrido em 2012.

Três anos depois, outra história digna de capítulo em Narcos, série famosa da Netflix, tem o território sul-mato-grossense como cenário. Investigação da Operação Ifrit revelou uma suspeita até então desconhecida sobre a identidade falsa: ela teria sido fornecida por Maroan Fernandes Haidar Ahmed, integrante da família apontada como responsável por um esquema milionário de tráfico internacional de drogas e armas na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai.

A descoberta consta da decisão da 3ª Vara Federal de Campo Grande que autorizou o sequestro de bens da organização criminosa investigada pela PF (Polícia Federal) e pela Receita Federal. O documento detalha a relação comercial entre Granier e Maroan, filho de Bassam Hassan Haidar Ahmed, um dos três irmãos apontados como chefes do grupo. Segundo os investigadores, o boliviano fornecia cocaína à organização, negociava remessas para a Europa e mantinha contato direto com integrantes da cúpula familiar.

A ligação vai além do fornecimento de drogas, segundo a Polícia Federal. Em conversas interceptadas, há informações sobre pagamentos em dólar, exportação de cocaína, compra de armas e munições, além de documentos falsos e informações sobre operações policiais. Os registros também indicam que Granier mantinha relação pessoal com Bassam, pai de Maroan, e continuou negociando com a família mesmo depois da prisão do filho dele.

Identidade falsa – A investigação atribui a Maroan a falsificação dos documentos utilizados por Granier durante sua permanência como foragido. A decisão afirma que ele teria oferecido documentação falsa ao narcotraficante e sido o responsável por conseguir passaporte, RG e outras cédulas que “Fantasma' apresentou na abordagem da PRF, com o nome de Jorge Mendez Ardaya.

A Polícia Federal identificou ainda o envio de fotografias e documentos relacionados a um mandado de busca cumprido na Bolívia contra Granier. Segundo os investigadores, Maroan também fornecia apoio para dificultar sua localização pelas autoridades.

A nova informação contrasta com a versão apresentada por Granier quando foi preso em Mato Grosso do Sul. Na ocasião, ele contou aos policiais que havia comprado identidades e passaporte falsos em Belém (PA), por 6 mil dólares.

A abordagem ocorreu durante uma fiscalização de rotina da PRF. O narcotraficante dirigia uma Toyota Hilux e não transportava drogas ou armas. Os policiais desconfiaram da documentação apresentada e descobriram que o verdadeiro Jorge Ardaya estava morto havia mais de uma década.

Granier também havia modificado a aparência física. Segundo relatou na época, passou por cirurgia bariátrica e lipoaspiração, procedimentos que o ajudaram a circular sem ser reconhecido. Até então, praticamente não existiam fotografias recentes dele, circunstância que contribuiu para o apelido de “Fantasma'.

A prisão encerrou uma busca internacional iniciada em abril de 2022, quando a Interpol incluiu seu nome na lista vermelha de procurados, a pedido da Justiça argentina.

Negócios milionários – Os registros financeiros recuperados pela Polícia Federal revelam a dimensão das negociações entre Granier e o “Clã Haidar'.

Maroan, identificado nas conversas pelo codinome “Transval', enviou ao fornecedor uma prestação de contas intitulada “PASSEI PARIENTE'. A anotação apresentava inicialmente o valor de US$ 586.650, posteriormente atualizado para US$ 892.200.

“Pariente' era um dos apelidos utilizados por Granier, chamado ainda de “Rey de los Cielos', expressão espanhola que significa “Rei dos Céus'.

Segundo os investigadores, a prestação de contas estava relacionada às negociações de cocaína entre os dois.

A análise de operações realizadas em uma casa de câmbio no Paraguai também identificou pagamentos superiores a 120 mil dólares destinados a Michael Harold El Hage, apontado como possível intermediário indicado por Granier para receber dinheiro das drogas fornecidas ao grupo.

Outro nome identificado foi Rufino Rosell, que, conforme os registros examinados, teria recebido mais de 350 mil dólares em operações relacionadas ao fornecedor.

Cocaína para a Europa – As negociações não se limitavam ao abastecimento do mercado brasileiro. Segundo a Polícia Federal, Maroan e Granier mantinham contato direto, inclusive por videochamadas, para organizar a venda de drogas a compradores espanhóis, especialmente em Madri e Valência.

As conversas abordavam quantidade, qualidade da cocaína, preço final e logística de transporte. Os investigadores também identificaram discussões sobre valores em dólar e possíveis operações de câmbio realizadas no Paraguai.

Em uma dessas conversas, Granier informou a Maroan que havia enviado uma carga pelo porto do Uruguai com destino a Valência, Tenerife, Barcelona e Ilhas Canárias, na Espanha. Na ocasião, afirmou que dispunha de apenas 20 unidades da “mercadoria'.

A investigação também identificou conversas sobre aquisição de armas e munições. Segundo a Polícia Federal, os produtos não seriam necessariamente vendidos diretamente por Granier, mas por pessoas de sua confiança.

Os diálogos reforçaram a suspeita de que o narcotraficante atuava como fornecedor internacional e intermediário de negócios do grupo sediado na fronteira.

Aviões e pistas – A estrutura atribuída a Granier também chamou a atenção dos investigadores. A análise dos aparelhos apreendidos com ele revelou coordenadas de pistas de pouso, frequências de rádio, rotas aéreas e instruções para equipes de apoio terrestre. Os registros indicavam possíveis operações com origem na Bolívia e destinos no Brasil, Paraguai e Argentina.

A Polícia Federal encontrou ainda informações sobre aeronaves, uma propriedade rural boliviana com pista de pouso e pessoas responsáveis por deslocamentos entre Cuiabá (MT) e Ponta Porã.

O material incluía conversas sobre valores de frete, descarga e entrega de mercadorias em São Paulo (SP), além de fotografias de grandes quantidades de dinheiro, armas e volumes com aparência de tabletes de drogas.

Para os investigadores, os elementos mostram que Granier não atuava apenas como participante ocasional das operações, mas exercia funções de coordenação e fornecimento internacional de cocaína.

O histórico já era conhecido das autoridades argentinas e norte-americanas. Conforme relatório da DEA (agência antidrogas dos Estados Unidos), divulgado quando ele foi preso em Mato Grosso do Sul, Granier comandava uma estrutura de transporte de cocaína em pequenos aviões entre Bolívia, Paraguai e Argentina.

A organização cobrava comissões elevadas pelo transporte aéreo. Segundo informações publicadas pelo Campo Grande News em 2024, promotores argentinos apontaram valores próximos de US$ 300 mil por operação de transporte.

Confiança familiar – A proximidade entre o fornecedor e os Haidar também aparece em conversas recuperadas pela investigação. Em um diálogo com Maroan, Granier contou que estava tomando cerveja com Bassam, pai do interlocutor.

O narcotraficante afirmou ainda que Bassam havia deixado um fuzil para que ele pudesse dormir. Para a Polícia Federal, o episódio demonstra a relação de confiança entre Granier e a cúpula familiar. A entrega da arma também aparece como indício de que a ligação ultrapassava as negociações comerciais e envolvia apoio pessoal e proteção.

A decisão cita ainda o fornecimento de informações sobre operações policiais e a utilização de VPN, tecnologia que pode dificultar a identificação da conexão utilizada na internet, como parte das medidas de segurança adotadas pelos investigados.

Quem é Maroan? – Maroan Fernandes Haidar Ahmed integra a segunda geração da família investigada pela Operação Ifrit. Ele é filho de Bassam Hassan Haidar Ahmed e sobrinho de Adel Hassan Haidar e Nasser Haidar, conhecido como Nana.

Os três irmãos são apontados pela Polícia Federal como lideranças da organização criminosa instalada em Ponta Porã, com ramificações em Campo Grande e conexões com traficantes internacionais.

Na estrutura descrita pela investigação, Maroan exercia funções ligadas ao fornecimento de drogas, às negociações internacionais, ao controle financeiro e à aquisição de armamentos.

A Polícia Federal considera que ele ocupava posição de destaque nas relações comerciais do grupo. As conversas com Granier, as prestações de contas em dólar e os contatos com compradores estrangeiros são apontados como elementos dessa atuação.

Maroan também possui histórico criminal anterior à Operação Ifrit. Em janeiro de 2025, foi condenado a 21 anos e seis meses de prisão pelo Tribunal do Júri de Rondonópolis (MT), pela morte de Fábio Batista da Silva, ocorrida em dezembro de 2018, após uma discussão em um posto de combustíveis.

Em julho de 2021, ele ficou ferido em um tiroteio em um bar de Ponta Porã. O episódio deixou um homem morto e outros feridos.

Maroan foi preso em 9 de janeiro de 2023, antes da captura de Granier em Jaraguari. A decisão da Operação Ifrit aponta que, após sua prisão, o fornecedor passou a negociar diretamente com Adule Vasques Haidar, filho de Adel e primo de Maroan.

Os investigadores consideram essa mudança um indício de que Adule assumiu parte das funções comerciais anteriormente exercidas por Maroan, permitindo que as negociações internacionais continuassem apesar da prisão.

Prisão em MS – Quando foi preso em Jaraguari, em março de 2023, Granier era considerado um dos narcotraficantes mais procurados da Argentina. Boliviano de nascimento, ele também possui nacionalidades argentina e paraguaia.

As autoridades argentinas o procuravam pela suspeita de participação no transporte de 389 quilos de cocaína, encontrados em setembro de 2020, escondidos em sacos de estopa na carroceria de uma Ford Ranger, na Rota 9, na província de Buenos Aires.

Ele também era investigado por outras operações internacionais de tráfico. Segundo informações divulgadas pela DEA, Granier mantinha relações com integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital), incluindo Gilberto Aparecido dos Santos, conhecido como Fuminho, apontado como pessoa próxima de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.

A investigação norte-americana atribuía ao boliviano a função de conectar organizações criminosas responsáveis pelo transporte e distribuição de cocaína na América do Sul.

A prisão em Mato Grosso do Sul também resultou em condenação pelo uso de documentos falsos. Em setembro de 2023, o Campo Grande News informou que ele havia recebido pena de dois anos de reclusão, em regime aberto, pelo crime cometido no Brasil.

Mesmo assim, Granier permaneceu preso por determinação do STF (Supremo Tribunal Federal), em razão do processo de extradição solicitado pela Argentina.

Extradição sigilosa – Granier passou 225 dias na Penitenciária Estadual Masculina de Regime Fechado da Gameleira, conhecida como Supermáxima, em Campo Grande. Ele permaneceu na unidade de 30 de março a 10 de novembro de 2023, quando deixou Mato Grosso do Sul em uma operação sigilosa coordenada pelo Ministério da Justiça.

A extradição ocorreu após o ministro Luiz Fux, do STF, autorizar a entrega do narcotraficante à Argentina e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aprovar a transferência.

A saída foi mantida sob sigilo. Conforme revelou o Campo Grande News em abril de 2024, a operação foi tão discreta que, mesmo depois de Granier deixar o Brasil, o Supremo ainda analisou pedido de habeas corpus apresentado pela defesa.

Na Argentina, ele respondia por comandar uma estrutura de transporte aéreo de cocaína. Em dezembro de 2023, a Justiça Federal de Salta determinou o prosseguimento da ação penal e o bloqueio de 30 milhões de pesos argentinos em bens do acusado.

Na época, o advogado Haroldson Loureiro Zatorre, responsável pela defesa de Granier no Brasil, negava o envolvimento do cliente com o tráfico internacional e contestava a consistência das acusações.

Operação Ifrit – Deflagrada na quarta-feira (4), a Operação Ifrit investiga uma organização criminosa de base familiar, sediada na fronteira de Ponta Porã com Pedro Juan Caballero, no Paraguai.

A Polícia Federal atribui ao grupo o tráfico internacional de drogas e armas, a lavagem de dinheiro, a corrupção de agentes públicos e a prática de crimes violentos para proteger seus negócios.

Segundo os investigadores, a organização movimentou pelo menos R$ 500 milhões em aproximadamente dois anos e mantinha uma estrutura de empresas, imóveis, fazendas, veículos e intermediários financeiros.

A Justiça Federal expediu 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva, 1 de prisão temporária e 3 medidas de monitoramento eletrônico. A operação também determinou o afastamento de três policiais civis de Mato Grosso do Sul.