Saúde
Novo medicamento reduz em 67% o risco de progressão de câncer ósseo que afeta crianças e adolescentes
Estudo apresentado na ESMO 2026 foi avaliado como avanço inédito em duas décadas para pacientes com osteossarcoma avançado
BATANEWS/VEJA
Um novo medicamento reduziu em 67% o risco de progressão da doença ou morte em pacientes com osteossarcoma recidivado ou refratário, um tipo raro de câncer que se desenvolve nos ossos e afeta principalmente adolescentes e adultos jovens.
Os resultados do estudo de fase 3 ARTEMIS-011 foram apresentados no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), realizado em Madri, na Espanha, nesta terça-feira, 27.
A pesquisa avaliou o risvutatug rezetecana, também conhecido como Ris-Rez, em pacientes cuja doença havia voltado ou continuado a avançar após pelo menos duas linhas anteriores de tratamento.
Nesse grupo, as opções terapêuticas são consideradas limitadas, e a quimioterapia convencional nem sempre consegue controlar o tumor.
No estudo, 122 pacientes foram distribuídos aleatoriamente para receber o novo medicamento ou a combinação de gencitabina e docetaxel, dois quimioterápicos utilizados no tratamento de diferentes tipos de câncer.
O Ris-Rez foi administrado a 80 participantes, enquanto outros 42 receberam a combinação convencional.
O principal resultado foi a diferença na sobrevida livre de progressão, indicador que mede quanto tempo o paciente vive sem que a doença avance.
No grupo tratado com o Ris-Rez, a mediana foi de 5,5 meses, contra 1,4 mês entre aqueles que receberam gencitabina e docetaxel.
A diferença corresponde a uma redução de 67% no risco de progressão ou morte.
Durante a discussão dos dados no congresso, a pesquisadora Nathalie Gaspar destacou a importância do avanço diante da falta de novas opções terapêuticas para esses pacientes.
“Se você compara com os últimos 20 anos em osteossarcoma, não tivemos nenhum novo fármaco que mudasse sobrevida até então”, avaliou, durante coletiva de imprensa acompanhada por VEJA. “Então, isso é muito positivo”.
Como funciona o medicamento
O Ris-Rez pertence à classe dos conjugados anticorpo-fármaco (ADCs, na sigla em inglês). Essas moléculas combinam um anticorpo, que reconhece um alvo específico nas células tumorais, a uma substância capaz de destruir as células cancerosas.
Nesse caso, o anticorpo é direcionado à proteína B7-H3, encontrada em níveis elevados em diversos tumores, incluindo sarcomas.
Uma vez ligado ao alvo, o medicamento permite a liberação de uma substância que inibe a TOP1, uma enzima envolvida na replicação do DNA. A estratégia busca levar o agente tóxico às células tumorais.
Benefício precisa ser ponderado com os efeitos adversos
Apesar dos resultados de eficácia, o tratamento também apresentou uma frequência elevada de efeitos adversos, segundo os dados apresentados por Lu Xie, principal autora do estudo.
Eventos de grau 3 ou superior, considerados graves ou clinicamente importantes, ocorreram em 92,5% dos pacientes que receberam o Ris-Rez e em 83,3% daqueles tratados com gencitabina e docetaxel.
Os efeitos adversos mais frequentes foram hematológicos, ou seja, relacionados ao sangue e à produção de células sanguíneas.
Eventos adversos graves relacionados ao tratamento foram registrados em 63,8% dos participantes do grupo do novo medicamento, contra 28,6% no grupo de comparação.
Ainda assim, a interrupção definitiva do tratamento por efeitos adversos relacionados à terapia foi pouco frequente: 3,8% e 2,4%, respectivamente.
Nenhum evento adverso de grau 5, correspondente à morte, foi registrado.
“A grande questão é a toxicidade, que foi principalmente hematológica, o que pode ser um problema se estivermos pensando em combiná-lo no futuro com outros agentes”, avaliou Gaspar.
A pesquisadora também ressaltou que ainda será necessário entender quais pacientes têm maior probabilidade de responder ao medicamento e como ele poderá ser utilizado na prática clínica, seja isoladamente, seja em combinação com outras terapias.
Sobrevida global ainda é uma incógnita
Além disso, embora o estudo tenha demonstrado ganho na sobrevida livre de progressão, os dados de sobrevida global, que mede o tempo entre o início do tratamento e a morte por qualquer causa, ainda são considerados imaturos.
Por isso, não é possível concluir se o Ris-Rez prolonga a vida dos pacientes.
Para Gaspar, esse será um dos pontos centrais das próximas etapas de investigação, assim como o acompanhamento da segurança e a definição da melhor sequência de tratamentos.
No Brasil, o osteossarcoma é o tumor ósseo maligno mais comum entre crianças e adolescentes e tem pico de incidência entre os 10 e 19 anos, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca).
A doença representa de 3% a 5% de todas as neoplasias nessa faixa etária e costuma atingir ossos longos, principalmente nas regiões próximas ao joelho e no ombro.
*A repórter viajou a convite da GSK







