Lula vence a eleição. Agora precisa vencer os problemas do Brasil

Congresso à direita e desconfiança econômica cobram diálogo e recursos para cumprir promessas

JOSé CâNDIDO


Foto: Divulgação

A conquista do quarto mandato impõe a Luiz Inácio Lula da Silva uma responsabilidade que ultrapassa o resultado das urnas. O presidente terá de administrar um país dividido, enfrentar o desequilíbrio das contas públicas, negociar com um Congresso mais conservador e oferecer respostas a uma população que precisa de segurança, atendimento de saúde, educação de qualidade e renda suficiente para viver. A experiência acumulada aumenta a obrigação de entregar resultados.

A primeira tarefa será reconstruir a confiança. A reação dos investidores à reeleição foi contundente: na manhã desta segunda-feira, o EWZ, fundo que acompanha ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos, chegou a recuar cerca de 26% no pré-mercado. É importante delimitar o dado: tratava-se de uma cotação anterior à abertura regular das negociações, e não de uma queda consolidada no fechamento. Ainda assim, o movimento expressa a dimensão da desconfiança que o governo terá de enfrentar. veja.abril.com.br

O mercado não governa o Brasil nem substitui a soberania do voto. Suas reações, entretanto, podem produzir consequências para quem está longe da Bolsa: encarecer o crédito, pressionar o câmbio, adiar investimentos e dificultar a geração de empregos. Cabe ao presidente responder com uma política econômica compreensível, uma equipe capaz e compromissos que sobrevivam aos discursos.

O centro dessa resposta está nas contas públicas. O governo precisa demonstrar como pretende financiar suas prioridades, controlar o crescimento das despesas e construir uma trajetória sustentável para a dívida. A responsabilidade fiscal interessa diretamente ao cidadão que depende dos serviços públicos. Quando o orçamento perde credibilidade, fica mais difícil criar condições para juros menores, ampliar investimentos e preservar políticas sociais.

Nesse cenário, o chamado “pacote de bondades' anunciado na reta final da campanha exige explicações claras. Reajuste do Bolsa Família, ampliação do Pé-de-Meia Universitário, propostas de perdão de dívidas de microempreendedores e transporte gratuito nos fins de semana reúnem medidas em diferentes estágios de implementação. Agora, cada uma precisa ter custo, alcance e financiamento apresentados à sociedade. Folha

A necessidade de ajudar famílias endividadas e trabalhadores de baixa renda é evidente. Mas a urgência social exige políticas que possam ser mantidas. O governo deve demonstrar quais despesas serão reorganizadas, quais receitas sustentarão os compromissos e como evitar que a conta retorne à população na forma de inflação, impostos ou deterioração dos serviços. A eleição terminou; a obrigação de explicar o orçamento permanece.

A tarefa política será igualmente difícil. Lula encontrará um Legislativo com maior presença da direita e uma bancada bolsonarista fortalecida. O PL terá as maiores bancadas da Câmara e do Senado, ampliando sua capacidade de influenciar pautas e dificultar iniciativas do Executivo. A vitória presidencial não entregou ao governo uma maioria parlamentar. noticias.uol.com.br

Será preciso negociar. Essa negociação deve se apoiar em prioridades públicas, compromissos transparentes e respeito à autonomia dos Poderes. Distribuir cargos e recursos sem exigir resultados pode garantir votações ocasionais, mas dificilmente sustentará um projeto de país. Ao Congresso também cabe responsabilidade: fiscalizar o governo e disputar seus rumos não autoriza paralisar soluções necessárias à população.

A segurança pública precisa ocupar lugar central nesse entendimento. O cidadão que teme sair de casa, o comerciante submetido à extorsão e a mulher ameaçada por um agressor não podem esperar que Brasília encerre suas disputas. O presidente deve assumir a liderança de uma política nacional com metas, financiamento e cooperação permanente entre União, estados e municípios.

Para Mato Grosso do Sul, esse compromisso passa necessariamente pela fronteira com Paraguai e Bolívia. O combate ao tráfico de drogas e armas exige presença federal contínua, inteligência compartilhada, fiscalização e capacidade de atingir o dinheiro das organizações criminosas. Operações pontuais precisam integrar uma estratégia duradoura, acompanhada de investigação, controle dos presídios e prevenção do recrutamento de jovens pelo crime.

Outra agenda indispensável é a reforma do sistema de Justiça. Lula deve participar, junto ao Congresso e ao próprio Judiciário, da construção de mudanças que ampliem a transparência, reduzam privilégios, enfrentem a demora dos processos e fortaleçam os mecanismos de responsabilização. A independência judicial precisa caminhar com prestação de contas. O cidadão tem direito a uma Justiça acessível e imparcial, qualquer que seja sua renda ou influência.

Essa discussão deve alcançar o Supremo Tribunal Federal com seriedade institucional. Regras mais claras sobre conflitos de interesse, limites de atuação e decisões individuais merecem debate público. Reformas exigem critérios capazes de valer para todos, sem servir à proteção de aliados ou à perseguição de adversários.

Ao mesmo tempo, o governo terá de mostrar como pretende melhorar a vida cotidiana. Reduzir filas do SUS, assegurar aprendizagem nas escolas, qualificar trabalhadores, ampliar o saneamento e melhorar o transporte público são compromissos que precisam de execução e avaliação. Na infraestrutura, ferrovias, hidrovias e rodovias devem integrar um planejamento que reduza custos, aumente a competitividade e conecte regiões produtoras aos mercados.

O quarto mandato também cobrará de Lula disposição para ouvir quem não votou nele. Unificar o país exige reconhecer problemas, aceitar críticas e abandonar a conveniência de atribuir cada dificuldade à oposição. A autoridade conferida pelas urnas deve ser exercida em favor de toda a população.

Lula recebeu uma nova oportunidade e uma cobrança proporcional à sua experiência. Seu legado dependerá da capacidade de organizar as contas, preservar a proteção social, enfrentar o crime e melhorar os serviços públicos. A vitória já está registrada. O que os brasileiros esperam agora é um governo à altura das necessidades do país.