Uma picada, 21 alvos: a nova vacina contra pneumonia aprovada pela Anvisa

Novo imunizante, Capvaxive protege adultos contra 21 tipos de bactéria com uma única dose

BATANEWS/VEJA


Vacina contra pneumonia: benefício para idosos e portadores de doenças crônicas (Foto: GI/Getty Images)

Ele não costuma virar manchete, não tem nome fácil e raramente é lembrado nas conversas de família. Mas o Streptococcus pneumoniae , o pneumococo, é uma das bactérias mais eficientes em transformar uma tosse aparentemente banal em internação, UTI e luto.

Ele é a principal causa bacteriana de pneumonia no mundo e pode invadir a corrente sanguínea e as meninges, provocando infecção generalizada e meningite. Na Europa, quase um em cada cinco idosos com a forma grave da doença morre.

No Brasil, o retrato é parecido. A infecção grave pelo pneumococo em idosos é frequente e grave, e se concentra justamente em quem já convive com outras doenças como diabetes, doenças cardíacas e pulmonares e doença renal, por exemplo. As internações duram cerca de dez dias, e em um estudo brasileiro mais da metade dos pacientes precisou de terapia intensiva.

Isso faz da doença um desafio enorme para hospitais, para o SUS e para os planos de saúde. Para as famílias, o custo é outro. É o idoso que entra andando e sai dependente, a perda de autonomia, a recuperação que nunca se completa.

Há ainda uma face menos conhecida dessa infecção, e ela interessa a qualquer pessoa preocupada com o coração. A pneumonia pneumocócica dispara uma tempestade inflamatória no organismo.

Essa inflamação agride o endotélio, a camada que reveste os vasos, desestabiliza placas de gordura nas artérias e favorece a formação de coágulos. O resultado é um aumento importante do risco de infarto e de AVC nas semanas seguintes à infecção, com pico logo na primeira semana.

Em outras palavras, a bactéria que entra pelos pulmões pode terminar o serviço no coração. Proteger-se contra ela é também uma forma de proteger a saúde cardiovascular.

É nesse contexto que chega uma boa notícia. A Anvisa acaba de aprovar a Capvaxive, da farmacêutica MSD, uma vacina pneumocócica conjugada 21-valente indicada para adultos a partir de 18 anos, na prevenção da doença invasiva e da pneumonia. O número 21 se refere aos sorotipos, as diferentes “versões” do pneumococo que a vacina ensina o sistema imunológico a reconhecer.

O diferencial está na escolha desses sorotipos. A vacinação das crianças, um sucesso indiscutível, reduziu a circulação de vários tipos da bactéria, mas outros ocuparam o espaço deixado, sobretudo entre adultos. A nova vacina foi desenhada pensando nesse cenário e inclui oito sorotipos que não estão presentes em nenhuma outra vacina pneumocócica disponível hoje no país.

Vacina polivalente

A aprovação do imunizante se apoiou em seis estudos de fase 3, com cerca de 8.400 adultos. Eles mostraram boa resposta imune e um perfil de segurança comparável ao das vacinas já em uso hoje no Brasil e no mundo. Vale um registro: como é praxe nessa área, o registro foi baseado na resposta imunológica, e os estudos de efetividade no mundo real seguem em andamento.

Outra vantagem é a praticidade, já que a Capvaxiveé aplicada em dose única. A contraindicação formal é o histórico de reação alérgica grave a algum componente da vacina, incluindo o toxoide diftérico.

Quem mais se beneficia? Pessoas com 60 anos ou mais e adultos de qualquer idade com doenças crônicas: diabetes, cardiopatias, doença pulmonar crônica e asma, problemas renais ou hepáticos. Também fumantes, pessoas que abusam do álcool e quem tem a imunidade comprometida. A escolha da vacina e do momento certo de tomá-la deve ser feita com o médico, levando em conta o histórico vacinal de cada um.

Por enquanto, é preciso paciência. A vacina ainda não está disponível em farmácias e clínicas de vacinação. Ela aguarda a definição de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), etapa obrigatória antes da comercialização.

Mas nada disso terá valor se a vacina ficar parada na geladeira das clínicas. A hesitação vacinal, alimentada pela desinformação e pela ilusão de que “isso não acontece comigo”, é hoje um dos grandes obstáculos da saúde pública.

Muitos adultos nem sabem que existem vacinas para eles. E aqui os profissionais de saúde têm papel decisivo: a recomendação direta do médico, do enfermeiro ou do farmacêutico está entre os fatores que mais pesam na decisão de se vacinar. Perguntar sobre a caderneta de vacinação deveria ser tão rotineiro quanto medir a pressão.

As vacinas são um dos pilares da promoção da saúde, ao lado da alimentação, da atividade física e do sono. E não são coisa só de criança. Envelhecer bem também significa chegar aos 70 ou 80 anos sem que uma pneumonia roube, em poucos dias, a autonomia conquistada ao longo de uma vida. A ciência fez a sua parte. Agora, cabe a nós transformar uma aprovação em proteção.