As canetas emagrecedoras e o risco para a visão

Assunto ganhou evidência com investigação da Anvisa. Suspeita de lesão no nervo óptico exige investigação, não pânico nem descaso

BATANEWS/VEJA


Problema no nervo óptico: suposto evento adverso raro ligado às canetas (//Arquivo)

Há males que chegam sem aviso e sem dor. Numa manhã qualquer, a pessoa acorda e percebe que metade do campo de visão de um olho parece coberta por uma cortina de névoa. Não houve pancada, não houve febre, não houve alerta prévio. Esse é, com frequência, o retrato da neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, uma doença de nome comprido, ocorrência rara e consequências que podem ser permanentes.

Nos últimos dois anos, ela deixou as páginas dos tratados de oftalmologia para ocupar manchetes, por uma suspeita incômoda: uma possível relação com os medicamentos da família do GLP-1, como a Ozempic e Mounjaro.

Recentemente a Agência Nacional de Vigilância Sanitária informou que investiga 13 notificações brasileiras da doença em usuários desses remédios. É hora, portanto, de separar o que se sabe do que se teme. E, para isso, nada melhor do que os números.

Um infarto silencioso no nervo da visão

O nervo óptico é o cabo que leva ao cérebro tudo o que os olhos captam. Na neuropatia isquêmica, a parte inicial desse cabo, logo na saída do olho, sofre uma queda súbita de irrigação sanguínea. Trata-se, em termos simples, de uma espécie de entupimentodo nervo. O resultado costuma ser a perda indolor de parte da visão de um olho, em geral percebida ao despertar.

Não existe tratamento capaz de revertê-la de forma consistente, e parte dos pacientes convive com a sequela pelo resto da vida.

A versão chamada “não arterítica” é a mais comum e não decorre de inflamação das artérias. Ela atinge sobretudo pessoas acima dos 50 anos e tem fatores de risco conhecidos: diabetes, hipertensão, colesterol elevado, apneia do sono e uma característica anatômica, o disco óptico pequeno e “apertado”. Guarde esta lista, porque ela será decisiva adiante.

Estudos populacionais clássicos estimam que a doença acometa algo entre 2 e 10 pessoas a cada 100 mil com mais de 50 anos, por ano. Para dimensionar: numa cidade de 100 mil adultos maduros, poucos casos surgiriam ao longo de um ano inteiro. É rara no sentido mais literal da palavra.

Agora, coloque esse número ao lado de outro. Os agonistas de GLP-1, em canetas semanais ou em comprimidos diários, são hoje usados por dezenas de milhões de pessoas no mundo. Apenas a fabricante da semaglutida original declara alcançar mais de 45 milhões de pacientes com seus tratamentos para diabetes e obesidade.

Nos Estados Unidos, cerca de um em cada oito adultos já recorreu a essa classe. No Brasil, levantamento da consultoria Euromonitor indica que 5,5% da população usa esses medicamentos, acima da média global. Vale lembrar que, até meados de 2025, as canetas eram compradas no balcão das farmácias sem retenção de receita, o que ajuda a explicar o alcance e o uso muitas vezes desassistido.

Quando uma doença rara encontra uma população gigantesca, casos inevitavelmente aparecerão, com ou sem relação causal. É pura aritmética.

O que dizem os números e estudos

A suspeita ganhou corpo em 2024, quando pesquisadores da Universidade Harvard descreveram, num único centro de oftalmologia, maior frequência da doença entre usuários de semaglutida. Estudos maiores vieram depois, com resultados divergentes: alguns encontraram associação, outros, nenhuma.

Uma revisão sistemática publicada em maio de 2026 na revista PLOS Medicine, reunindo dados de registros populacionais de pessoas com diabetes, calculou um risco cerca de duas vezes maior entre usuários de semaglutida. Traduzido em risco absoluto, porém, isso significa aproximadamente um caso adicional para cada 7 mil pessoas tratadas por ano.

E há o contraponto mais importante. Nos ensaios clínicos controlados, o padrão-ouro da ciência médica, em que os participantes são sorteados para receber o remédio ou placebo, não se observou diferença estatisticamente significativa.

Uma análise publicada na revista Ophthalmology, que reuniu oito desses estudos com mais de 31 mil participantes, contabilizou cinco casos entre os que usaram semaglutida e um no grupo controle, diferença que pode ser fruto do acaso. Entre pessoas tratadas para obesidade, nenhum sinal de aumento apareceu.

Por que, então, a dúvida persiste? Porque os estudos de mundo real, embora enormes, são observacionais: não conseguem separar com perfeição o efeito do remédio do perfil de quem o usa. E quem usa essas drogas carrega, justamente, os mesmos fatores de risco daquela lista: diabetes, hipertensão, apneia do sono.

Há ainda hipóteses biológicas em estudo, como a redução muito rápida da glicose ou variações da pressão arterial durante o sono. Nada disso, até aqui, está comprovado.

Vigiar não é condenar

Diante do conjunto, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu em 2025 que a doença pode ser um efeito colateral muito raro da semaglutida, com frequência estimada de até um caso em 10 mil usuários, e determinou atualização das bulas. A Anvisa seguiu o mesmo caminho. É assim que a farmacovigilância funciona: diante de um sinal, investiga-se, informa-se e ajusta-se a conduta.

Não é a primeira vez que essa classe passa pelo crivo. Há pouco mais de uma década, os mesmos remédios foram investigados por suspeita de pancreatite e de câncer de pâncreas. Mais recentemente, relatos de pensamentos suicidas levaram agências do mundo inteiro a reexaminar os dados. Em janeiro de 2026, após análise de grandes estudos, a agência americana, a FDA, chegou a pedir a retirada desse alerta das bulas dos remédios para obesidade. O mesmo rigor recai sobre anti-inflamatórios, antibióticos, estatinas, anticoncepcionais. Todo medicamento eficaz tem efeitos adversos, alguns só perceptíveis quando milhões de pessoas passam a usá-lo.

Por isso, convém ressaltar que a relação entre as canetas emagrecedoras e essa lesão do nervo óptico não é certa. É uma hipótese séria, em investigação, que merece atenção, e não uma sentença.

A receita da prudência

O que fazer com essa informação? Primeiro, não abandonar o tratamento por conta própria. Os benefícios dessas drogas no controle do diabetes, na perda de peso e na proteção do coração e dos rins estão entre os mais bem documentados da medicina recente.

Segundo, usar esses remédios somente com acompanhamento de um médico experiente, capaz de avaliar fatores de risco, ajustar doses e reconhecer sinais de alarme. Terceiro, procurar atendimento imediato diante de qualquer perda súbita de visão.

Pesar riscos e benefícios não é um capítulo especial reservado às canetas. É a essência de toda prescrição médica. A ciência avança assim, sem pânico e sem complacência, com os olhos bem abertos.

Apenas um comentário antes de terminar: há no Brasil milhares de pessoas com coragem de usar medicamentos contrabandeados e manipulados de maneira irregular. Se estamos discutindo efeitos adversos de medicamentos aprovados por Anvisa, FDA e EMA, imagine o que acontece com os ilegais.