O eleitor do TikTok: quando compartilhar vídeos substitui o debate político

BATANEWS/REDAçãO


Foto: Divulgação

Em tempos de política cada vez mais digital, uma nova figura ganhou espaço nas campanhas eleitorais, o chamado “eleitor do TikTok”. É aquele eleitor que passa boa parte do dia consumindo vídeos políticos, encaminhando conteúdos para grupos de família, amigos e conhecidos e, muitas vezes, compartilhando dezenas, ou até mais de uma centena, de vídeos por dia.

O problema não está em utilizar as redes sociais para acompanhar política. O problema começa quando o volume de vídeos compartilhados passa a substituir o debate sobre propostas, ideias e resultados.

Em muitos grupos de WhatsApp e outras redes sociais, é possível observar uma verdadeira avalanche de vídeos curtos. Alguns são engraçados, outros provocativos e muitos apresentam informações sem qualquer fonte, contexto ou comprovação. Mesmo assim, são imediatamente encaminhados para dezenas de pessoas.

E, nesse processo, a política pode acabar se transformando em uma disputa de quem compartilha mais vídeos, e não de quem apresenta as melhores propostas.

Compartilhar muito não significa conquistar votos
Um eleitor pode passar horas consumindo conteúdo político e encaminhar 100 vídeos em um único dia. Mas isso não significa que tenha convencido uma única pessoa a votar em determinado candidato.

Pelo contrário. O excesso pode produzir o efeito oposto.

Quando uma pessoa recebe dezenas de vídeos políticos diariamente, principalmente conteúdos repetitivos, ataques pessoais, cortes fora de contexto ou informações falsas, ela pode simplesmente deixar de prestar atenção. O que deveria ser uma tentativa de convencer acaba se tornando apenas mais um conteúdo ignorado.

Eleição não se ganha necessariamente pelo número de vídeos encaminhados, mas pela capacidade de apresentar argumentos que façam sentido para o eleitor.

A perigosa fábrica de fake news
Outro problema é que muitos usuários compartilham conteúdos sem verificar a origem da informação.

Um vídeo aparece no TikTok, ganha milhares de visualizações e, minutos depois, começa a circular em grupos de família e amigos como se fosse uma informação comprovada. Muitas vezes, ninguém sabe quem produziu o material, quando foi gravado, de onde veio a informação ou se aquilo realmente aconteceu.

A velocidade das redes sociais favorece esse comportamento.

Um conteúdo falso, porém emocionalmente convincente, pode alcançar muito mais pessoas do que uma explicação séria e documentada. E, quando chega aos grupos familiares, frequentemente já perdeu o contexto original.

O eleitor, muitas vezes sem perceber, acaba se tornando um multiplicador de desinformação.

Mas isso realmente ajuda o candidato?
Essa é uma pergunta que todo eleitor deveria fazer antes de apertar o botão “encaminhar”.

O vídeo que estou compartilhando explica uma proposta? Mostra um resultado? Apresenta uma informação verificável? Demonstra por que esse candidato seria melhor?

Se a resposta for não, talvez aquele conteúdo não esteja contribuindo para a campanha.

Atacar o adversário pode gerar engajamento. Um vídeo provocativo pode receber milhares de curtidas. Uma montagem pode provocar centenas de comentários. Mas engajamento não é necessariamente voto.

Uma campanha eficiente precisa transformar atenção em confiança.

E confiança dificilmente é construída apenas com vídeos de poucos segundos.

Propostas deveriam ocupar o lugar da guerra de vídeos
Em vez de enviar dezenas de vídeos diariamente, o eleitor poderia utilizar as redes sociais de maneira muito mais estratégica.

Poderia compartilhar, por exemplo, uma proposta concreta do candidato. Poderia explicar como determinada medida pretende melhorar a saúde, a educação, a segurança, a infraestrutura ou a geração de empregos.

Poderia apresentar dados, comparar propostas e mostrar o histórico dos candidatos.

Poderia também fazer algo que parece simples, mas é cada vez mais raro: conversar.

“Por que você acredita que esse candidato é melhor?”

“Qual proposta dele você considera mais importante?”

“Como essa proposta será colocada em prática?”

Essas perguntas podem produzir muito mais efeito do que uma sequência interminável de vídeos.

O eleitor também é responsável pela qualidade da eleição
É importante lembrar que a responsabilidade não é apenas dos candidatos e das campanhas.

O eleitor também exerce influência sobre o ambiente político.

Cada vídeo compartilhado ajuda a determinar o tipo de informação que circula. Cada mensagem encaminhada sem verificação pode contribuir para espalhar uma mentira. Da mesma forma, cada proposta bem explicada, cada informação checada e cada debate respeitoso pode contribuir para uma escolha mais consciente.

A tecnologia oferece ao eleitor uma ferramenta poderosa. O problema é quando essa ferramenta passa a ser utilizada apenas para reforçar aquilo que ele já acredita.

O eleitor não precisa ser um “distribuidor automático de vídeos”.

Pode ser um cidadão que pesquisa, compara, questiona e apresenta argumentos.

Menos vídeos, mais argumentos
Talvez uma das grandes mudanças necessárias na política digital seja justamente essa: trocar quantidade por qualidade.

Não adianta enviar 100 vídeos se nenhum deles explica por que o candidato merece o voto.

Não adianta lotar grupos de família com ataques se não existe uma proposta concreta para apresentar.

Não adianta passar o dia inteiro no TikTok se, no final, o eleitor não consegue explicar quais são as principais propostas do candidato que pretende apoiar.

A eleição deveria ser um momento de escolha entre projetos, ideias e pessoas capazes de administrar os problemas da sociedade.

As redes sociais podem ajudar nesse processo, mas também podem empobrecê-lo.

No fim das contas, talvez o eleitor mais eficiente não seja aquele que encaminha mais vídeos.

É aquele que consegue convencer outra pessoa com informação, argumentos e propostas.

Porque, em uma eleição, viralizar pode render milhões de visualizações.

Mas quem decide o resultado é o voto.