Popularização das canetas mobiliza mercado por soluções contra perda de massa muscular

Trata-se de uma demanda emergente e amplificada pela busca de um corpo bonito e pelo sonho da longevidade

BATANEWS/VEJA


TREINO VITAL - Exercícios de força: cada vez mais essenciais à rotina (Lucy Lambriex/Getty Images)

Toda revolução tem seu preço. A ascensão da última geração de remédios para emagrecer — as canetas de Ozempic, Wegovy e Mounjaro — cobrou o seu. Trata-se da perda de músculos que acompanha a bem-sucedida diminuição da gordura corporal, para além de seus benefícios à saúde. Só que o esvaziamento da massa magra não é um detalhe estético. Processo incontornável com os quilos eliminados de forma mais rápida — e com o avanço da idade —, ele também pode maltratar o organismo se não for mitigado. Daí a mobilização de indústrias tão diversas, da farmacêutica à dos suplementos e academias de ginástica, a fim de atender a uma demanda emergente e amplificada pela busca de um corpo bonito e pelo sonho da longevidade.

De fato, o boom das canetas de GLP-1 sacudiu o mercado de soluções para manter os músculos em dia. E o motivo é biológico. “Toda perda de peso, independentemente do método utilizado, pode vir acompanhada de perda de massa muscular”, diz o endocrinologista Fabio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “De forma geral, se considera aceitável que cerca de 75% do peso perdido corresponda à massa gorda e até 25% à magra.” Só que, quanto mais se emagrece, mais músculos evaporam. Por isso a recomendação de sempre usar canetas ou outros fármacos com a prática de atividade física e ajustes na dieta. Uma prescrição que tem repercutido no movimento de espaços fitness e no segmento dos alimentos e suplementos proteicos.

No país, 90% das academias e estúdios ampliaram sua base de alunos nos últimos doze meses, um pouco acima da média global de aumento de 86%, segundo o Relatório do Mercado Fitness da plataforma Wellhub. Um fenômeno puxado pela conscientização da importância do exercício, mas certamente insuflado pelas novas exigências do emagrecimento em escala. É nessa onda que os suplementos alimentares surfam. Um levantamento da empresa Scanntech aponta um salto de 440% na venda da categoria, encabeçada pelo whey protein e pela creatina, voltados ao ganho de massa e força muscular. Além deles, em 2025 houve crescimento na busca por iogurtes proteicos (alta de 21%), shakes pré e pós-treino (16%) e leites saborizados proteicos (14%). A febre da proteína se encorpou com a das canetas.

Canetas emagrecedoras e o futuro da luta contra obesidade

Apesar do marketing, trata-se de uma preocupação genuína da população. “Embora o consumo de proteína por meio da alimentação seja bem suficiente no Brasil, tanto em idosos como em pessoas que fazem uso de canetas, é preciso equilibrar ainda mais essa ingestão e, muitas vezes, recorrer à suplementação”, diz a nutricionista Myrian Najas, professora da Unifesp. “Mas, sem exercício, tomar proteína não aumenta a massa muscular de ninguém.” Ou seja, sozinhos, pós e cápsulas não surtem efeito.

Sob essa perspectiva, a alta nas academias e em outros espaços de treinamento é extremamente salutar. “O músculo precisa ter estímulo mecânico para que exerça sua devida função”, afirma o educador físico Guilherme Peixoto, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP. E aí cabe pontuar que não basta caminhar, pedalar ou correr. É preciso intercalar as atividades aeróbicas com um treino de força e resistência, caso da boa e velha musculação. Peixoto toca em um ponto, ou melhor, uma palavra fundamental para entender a importância da massa magra: função, isto é, a capacidade de as células musculares se contraírem adequadamente para realizar qualquer esforço. “No passado, se olhava apenas para a quantidade de massa muscular. Hoje a função está na frente dela”, conta o professor. Sim, tamanho não é documento: os profissionais precisam saber como o paciente se sai em um teste de preensão manual, por exemplo.

A perda de massa e função muscular é justamente o que define a sarcopenia, um processo que ocorre com a idade, mas precisa ser contido se a meta é ampliar a qualidade e a expectativa de vida. Essa não é uma preocupação que se restringe à velhice, convém frisar. “A partir dos 30 ou 40 anos, perdemos, em média, de 3% a 8% de massa muscular a cada década de vida, algo que se acentua depois dos 60 e ocorre de maneira mais significativa em indivíduos que não praticam exercícios”, afirma o médico Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Comer direito, malhar com frequência, dormir bem, não se render a hábitos que podem sabotar os músculos (como fumar ou ingerir álcool) em meio ao estresse da rotina… Fato é que nem sempre é fácil seguir o roteiro para não engordar e ainda preservar os muques. Não é à toa que soluções como os suplementos entram cada vez mais na cesta de compras do cidadão que envelhece ou faz uso de canetas. A ponto de marcas como a Semavy, análogo de GLP-1 sintético recém-lançado pela Mantecorp, oferecer pacotes e descontos para uma linha própria de suplementos alimentares que podem ajudar a encarar a perda de peso com menos reveses, inclusive para os músculos.

Ainda assim, a tarefa de blindá-los é desafiadora. E é por essa razão que a indústria farmacêutica entrou na jogada, pesquisando e desenvolvendo medicações não hormonais que buscam atenuar a diminuição da massa magra. Um passo real acaba de ser dado nessa direção com a aprovação pela agência regulatória americana do primeiro anticorpo monoclonal testado e validado para essa finalidade. O apitegromabe foi autorizado por ora apenas a pacientes de atrofia muscular espinhal, doença rara que limita os movimentos e leva à perda de força, mas já está sendo estudado para mitigar o famoso efeito colateral em meio ao uso de canetas como o Mounjaro. No corpo, essa classe inédita de injeções inibe uma substância que trava o crescimento muscular.

Se tudo der certo, podemos esperar uma fornada de medicações com essa proposta. O bimagrumabe, em fase avançada de estudos, foi avaliado em pacientes com obesidade e diabetes que utilizavam canetas e chegou a aumentar um pouco o percentual de massa magra. Outro integrante da categoria, o trevogrumabe, demonstrou capacidade de reduzir pela metade a perda de músculo entre usuários de semaglutida. A expectativa é de que tais drogas possam estrear a partir de 2028 para aliviar esse fardo do emagrecimento nem sempre superado com mudanças de hábito.

No entanto, um consenso não deverá mudar. Tais remédios não vão substituir as sessões na academia e os cuidados com a alimentação. “Até porque, além de um efeito limitado, os estudos não mostram que essas novas drogas melhoram a função muscular”, ressalva Peixoto. Isso significa que o binômio dieta e exercício seguirá imperativo. “Nenhum remédio vai substituir a musculação”, afirma o professor da USP. E a evolução do treino de força, sempre gradual, não pode pautar-se na dos colegas, e sim respeitar particularidades e restrições individuais — lembremos que tamanho não é necessariamente documento em matéria muscular. Tampouco adianta se entupir de whey protein e se esquecer de um cardápio balanceado. “Não se deve trocar uma refeição por um shake ou qualquer coisa do tipo”, diz Najas. As demandas do mundo mudam, mas alguns princípios seguem firmes e fortes.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015