Do pasto ao laboratório: pesquisa busca identificar a origem da carne, soja e madeira

Pesquisa cruza assinaturas isotópicas e características de biomas brasileiros para criar modelos capazes de identificar a origem de produtos e reforçar a rastreabilidade das cadeias produtivas.

BATANEWS/OPR


Fotos: Divulgação/Projeto Rasteia/USP

A origem de uma carne, de uma carga de soja ou de uma peça de madeira pode estar registrada em sua própria composição química. É a partir dessa hipótese que pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/USP), em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e a Embrapa, desenvolvem um estudo para identificar a procedência de produtos agropecuários e florestais brasileiros.

A pesquisa analisa amostras de carne bovina, soja e madeira produzidas em diferentes regiões e biomas do país. A proposta é encontrar padrões químicos e isotópicos capazes de diferenciar produtos de acordo com o ambiente em que foram produzidos. Para isso, os pesquisadores combinam técnicas da ciência nuclear, análises laboratoriais, modelos estatísticos e ferramentas de inteligência artificial.

O estudo ganhou relevância em meio à crescente exigência de comprovação da origem das commodities brasileiras nos mercados internacionais. Em 3 de setembro, entrou em vigor a decisão da União Europeia de suspender a entrada de carne brasileira, sob a alegação de que as garantias oferecidas pelo país eram insuficientes em relação ao controle do uso de antibióticos na produção animal e aos mecanismos de rastreabilidade.

Embora a pesquisa da USP não esteja restrita à carne bovina nem tenha sido criada em resposta à decisão europeia, o episódio evidencia a importância de mecanismos capazes de comprovar, de forma independente e tecnicamente verificável, a origem dos produtos que chegam aos mercados.

A base da pesquisa está na diferença de composição encontrada entre os ambientes brasileiros. Clima, solo, relevo, vegetação e disponibilidade de água interferem na composição isotópica de plantas e animais e podem deixar uma espécie de assinatura química nos produtos.

Luiz Martinelli, pesquisador do Laboratório de Ecologia Isotópica do CENA/USP, explica que essas características ambientais ajudam a determinar quais organismos conseguem se desenvolver em cada região. “O clima, em conjunto com os atributos pedológicos e topográficos, atua como um conjunto de filtros que determina quais espécies, sejam elas animais ou vegetais, terão condições competitivas para colonizar aquele ambiente”, esclarece.

É essa relação entre ambiente e composição química que os pesquisadores pretendem transformar em uma ferramenta de rastreabilidade. Em vez de depender exclusivamente de registros documentais ou informações fornecidas ao longo da cadeia, o método busca encontrar na própria amostra elementos que indiquem sua procedência.

No caso da carne bovina, a análise considera diferentes elementos químicos presentes no produto. A alimentação e a água consumida pelo animal estão entre as fontes que podem carregar características do ambiente de origem.

Paulo Sergio Cardoso da Silva, pesquisador do IPEN, explica que a combinação entre os elementos encontrados na amostra pode ajudar a estabelecer sua procedência. “O próprio pasto e a água, principalmente, vão trazer informações das assinaturas daquela região”, destaca.

Amostras de diferentes regiões são submetidas a análises laboratoriais para identificar essas características. O objetivo é construir um conjunto de referências que permita comparar uma nova amostra com os padrões associados aos diferentes territórios.

Biomas entram no modelo de rastreabilidade

A pesquisa considera as características dos principais biomas brasileiros. A Amazônia, por exemplo, apresenta condições ambientais distintas das encontradas na Mata Atlântica, no Cerrado, no Pantanal, na Caatinga ou no Pampa. Essas diferenças são importantes para estabelecer os padrões utilizados no modelo.

A caracterização ambiental também é relevante para os produtos florestais. No caso da madeira, conhecer as condições climáticas, geológicas e de vegetação de determinada região pode ajudar a identificar se uma amostra é compatível com a área declarada como sua origem.

“A caracterização de um bioma, principalmente de seus atributos climáticos e geológicos, bem como do tipo de vegetação, exerce influência direta sobre a composição dos produtos florestais. Portanto, um modelo de rastreabilidade somente se torna robusto quando utiliza uma série de variáveis ambientais características de cada bioma brasileiro”, afirma Martinelli.

A pesquisa conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pretende ampliar o conhecimento sobre as características químicas associadas aos diferentes ambientes brasileiros.

Inteligência artificial transforma dados em identificação

Depois da etapa de caracterização, os pesquisadores trabalham na construção de uma base de dados que reúna as informações obtidas nas análises. É nesse estágio que entram os modelos estatísticos e a inteligência artificial.

A tecnologia será utilizada para identificar padrões entre as características químicas das amostras e as condições ambientais das regiões onde foram produzidas. Quanto maior a base de dados, maior tende a ser a capacidade do modelo de comparar uma nova amostra com os padrões previamente identificados.

A proposta é chegar a uma ferramenta capaz de indicar a provável região de origem de um produto a partir de sua composição, ampliando a capacidade de rastreamento das cadeias produtivas.

O método não substitui os sistemas convencionais de rastreabilidade. A perspectiva é complementar informações documentais, registros de produção e mecanismos de monitoramento com uma evidência científica obtida diretamente do produto.

Além da relação comercial entre produtor e comprador, os pesquisadores apontam possíveis aplicações ambientais para a tecnologia. Identificar a procedência de uma commodity pode ajudar órgãos de fiscalização a verificar se o produto é compatível com a área declarada como origem.

Para Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e integrante do MapBiomas, a rastreabilidade é também uma ferramenta de proteção ambiental e de transparência comercial. “A rastreabilidade de produtos e cadeias produtivas é fundamental para prevenir a proliferação do desmatamento ilegal, garantir o respeito à integridade territorial de áreas protegidas e comunidades tradicionais, evitar que produtores comprometidos com o manejo e produção sustentável sejam penalizados ou tenham restrição de acesso ao mercado internacional e garantir transparência ao consumidor final”, ressalta.

Na prática, uma ferramenta capaz de identificar a origem de carne, soja ou madeira pode ter diferentes aplicações: auxiliar a fiscalização, detectar inconsistências em declarações de procedência, apoiar o combate ao comércio de produtos provenientes de áreas ilegais e oferecer aos compradores uma camada adicional de verificação.

O desafio científico está em transformar a diversidade ambiental brasileira em um banco de assinaturas suficientemente robusto para distinguir regiões próximas e lidar com a variabilidade natural dos produtos.

Se os modelos alcançarem esse nível de precisão, a composição química poderá deixar de ser apenas uma característica analisada em laboratório e passar a funcionar também como uma espécie de impressão digital de origem para produtos das cadeias agropecuária e florestal.