Safra recorde esbarra na falta de armazenagem e força busca por eficiência

Produção brasileira deve chegar a 360,1 milhões de toneladas em 2025/26, enquanto capacidade estática é de cerca de 228 milhões. Automação ajuda a acelerar o fluxo de grãos, reduzir perdas e extrair mais das estruturas existentes.

BATANEWS/OPR


Foto: Divulgação/Capal

A produção brasileira de grãos deve alcançar 360,1 milhões de toneladas na safra 2025/26, segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Se confirmado, o volume será 2,2% superior ao do ciclo anterior e estabelecerá um novo recorde. O crescimento, porém, amplia a pressão sobre uma estrutura que há anos é apontada como um dos gargalos do agronegócio: a capacidade de armazenagem.

Dados do portal Armazéns do Brasil, da Conab, apontam capacidade estática de aproximadamente 228 milhões de toneladas no país. A diferença entre o que é produzido e o que pode ser armazenado evidencia um problema que não se resolve apenas com a construção de novos silos. A eficiência das estruturas existentes também passa pelo uso de tecnologia.

Automação ganha espaço justamente nesse ponto. Sistemas de controle permitem acompanhar em tempo real etapas como recebimento, secagem, transporte e armazenagem, além de ajustar equipamentos conforme a necessidade da operação.

Nos silos, por exemplo, motores podem ser acionados apenas quando necessário, reduzindo o consumo de energia e o uso de mão de obra. Nos secadores, o controle automatizado de temperatura e umidade permite trabalhar dentro dos parâmetros definidos, reduzindo desperdícios e riscos que podem comprometer a qualidade dos grãos.

Mais velocidade na operação Na Capal Cooperativa Agroindustrial, no Paraná, a automação já está incorporada a diferentes processos, com destaque para a secagem. “No que diz respeito à automação geral das plantas, estamos em constante evolução. Porém, o nosso grande diferencial são os secadores de grãos. Neles, possuímos automação completa para o fluxo contínuo. O fluxo de carga e descarga, além do controle de temperatura e de umidade dos grãos, são todos controlados de forma automática pela lógica do programa, garantindo um padrão rigoroso de secagem sem depender exclusivamente de ajustes manuais contínuos', explica Carlos Faria, coordenador de Operações de Grãos da cooperativa.

A experiência também aparece na Cooperativa Comigo, em Goiás. Durante a última colheita, marcada pelo excesso de chuvas, a cooperativa chegou a movimentar 2 milhões de sacas de soja em um único dia.

Para o diretor industrial Paulo Carneiro Junqueira, alcançar esse volume sem sistemas automatizados seria praticamente impossível. “A automação agiliza a operação, te dá uma segurança maior para você trabalhar de forma mais ágil. Ao receber mais rápido, seca mais rápido, guarda mais rápido, conserva mais rápido e mantém a qualidade. A automação também ajuda a controlar a conservação, termometria e aeração. Hoje todas essas etapas são controladas automaticamente na Comigo', afirma.

Segundo relatos internos da cooperativa, a automação proporcionou aumento de aproximadamente 30% na produtividade. Entre os equipamentos modernizados estão elevadores, máquinas de limpeza, secadores e sistemas de transporte.

Equipamento no limite, sem perder o controle A automação também permite que os equipamentos trabalhem mais próximos de sua capacidade máxima sem comprometer a segurança da operação. É o caso dos elevadores de grãos. “Um elevador tem capacidade para 300 toneladas por hora. A automação permite que ele opere próximo a esse máximo com segurança. O operador visualiza em uma tela se o equipamento está em 80% ou 85% de sua capacidade, tendo margem para evitar que a máquina ‘embuche’ – o que pode gerar até cinco horas de paralisação e desperdício de produto', exemplifica Junqueira.

Além de aumentar a velocidade, o acesso aos dados muda a função dos operadores. Em vez de depender apenas da observação manual, eles passam a acompanhar indicadores e parâmetros de funcionamento para antecipar problemas e ajustar a operação. “Tenho a certeza de que, ao proporcionarmos a melhor condição, com dados e automação, para os nossos operadores gerenciarem o turno, as perdas são reduzidas drasticamente. A automação empodera o operador, e essa é a forma mais eficiente de atingir excelência qualitativa e quantitativa', afirma Faria.

Inteligência artificial no próximo passo A próxima etapa da digitalização da armazenagem tende a envolver a aplicação de inteligência artificial na análise dos dados gerados pelos equipamentos. A expectativa é que os sistemas consigam identificar padrões, antecipar desvios e apoiar decisões em tempo real. “Visualizo um monitoramento contínuo em todas as etapas, com todos os pontos críticos cobertos e seguros. O objetivo da IA é assegurar que tudo ocorra como precisa. A grande revolução será termos os nossos operadores atuando como verdadeiros gestores de tecnologia, com a segurança e a precisão de que a carga chegará ao seu destino com total qualidade e volume intacto', opina Faria.

Para Junqueira, o movimento deve avançar até níveis maiores de robotização, com sistemas capazes de ajustar automaticamente o fluxo de grãos de acordo com as condições de secagem, reduzindo ainda mais a necessidade de intervenção humana.

O custo, entretanto, continua sendo uma barreira para a adoção de algumas tecnologias. Equipamentos de maior precisão ainda exigem investimentos elevados, especialmente em estruturas com grande número de secadores. “Os determinadores de umidade precisos, por exemplo, atualmente ultrapassam os R$ 100 mil por unidade. Para cooperativas que possuem mais de 100 secadores, o investimento ainda é considerado inviável', afirma Junqueira.

O avanço da produção, portanto, coloca duas questões simultâneas para o setor: ampliar a capacidade física de armazenagem e fazer as estruturas existentes operarem com maior eficiência. Nesse cenário, a automação deixa de ser apenas uma ferramenta de modernização e passa a ter impacto direto sobre velocidade, perdas, qualidade e aproveitamento da infraestrutura disponível.