Saúde
Pela primeira vez, rim de porco mantém paciente vivo até recebimento de órgão humano
BATANEWS/FOLHA
Há dois anos, Tim Andrews estava tão exausto que só queria dormir. O diabetes e a hipertensão haviam destruído seus rins, e as frequentes sessões de diálise que o mantinham vivo, filtrando seu sangue, eram extenuantes. Embora tivesse apenas 66 anos, ele não tinha energia nem apetite, estava fraco demais para caminhar e já havia sofrido dois infartos.
'Eu estava morrendo', diz Andrews. Um transplante de rim poderia ter salvado sua vida, mas há escassez de órgãos. Cerca de 90 mil pessoas estão na fila de espera por um transplante renal no EUA e, em média, 11 morrem todos os dias enquanto aguardam um órgão, segundo a United Network for Organ Sharing. Além disso, o raro tipo sanguíneo de Andrews tornava especialmente remota sua chance de receber um rim humano compatível.
Por isso, quando soube que médicos do Mass General Brigham estavam transplantando rins de porcos geneticamente modificados em pacientes, entrou em contato. 'Pensei: se vou morrer, então é melhor fazer algo pela humanidade e participar desse experimento.'
Andrews recebeu um rim de porco modificado em 25 de janeiro de 2025 e viveu com ele por nove meses. Neste ano, tornou-se o primeiro paciente de que se tem conhecimento a receber o rim de um doador humano após um transplante de rim de porco, um marco registrado em artigo publicado na última quinta-feira (3) na revista The Lancet.
Seu caso fornece uma comprovação inicial de um conceito promissor na medicina de transplantes: o de que rins de porco, embora ainda não sejam uma solução permanente, poderiam servir como uma 'ponte' até o transplante de órgãos humanos.
Os rins vêm de porcos submetidos a diversas alterações genéticas, algumas destinadas a evitar uma reação grave de rejeição do órgão, e outras capazes de inativar vírus presentes no genoma suíno.
Ao usar rins de porco como solução temporária, os médicos esperam manter os pacientes vivos enquanto avançam na fila de espera por um rim humano, além de proporcionar uma pausa na diálise, que pode ser debilitante.
'A diálise desgasta tanto nossos pacientes que eles acabam ficando doentes demais para receber um transplante ou morrem enquanto esperam', diz Leonardo V. Riella, principal autor do artigo e diretor associado do Legorreta Center for Clinical Transplant Tolerance, do Mass General Brigham.
Não era certo que rins de porco pudessem ser usados dessa forma. Quando os pesquisadores começaram a considerar a ideia, havia o receio de que pacientes que recebessem um rim de porco pudessem ficar mais propensos a rejeitar posteriormente um rim humano.
Mas a experiência de Andrews, somada à de outro paciente, sugere que 'isso aparentemente não muda em nada a forma como você reage ao tecido humano', diz Mike Curtis, presidente e CEO da eGenesis, empresa de biotecnologia que produz os porcos geneticamente modificados usados e que ajudou a financiar o estudo.
'Neste momento, não acreditamos que haja qualquer desvantagem em receber um rim de porco e depois um rim humano, mas, quando começamos, não fazíamos ideia de que isso seria verdade', diz Curtis.
Ao todo, cinco pacientes receberam rins de porcos produzidos pela eGenesis por meio de um programa da FDA, que permite acesso ampliado a pacientes sem outras opções de tratamento. Três deles, incluindo Andrews, viveram com os órgãos por mais de oito meses, segundo a empresa.
Um paciente morreu devido a um evento cardíaco inesperado pouco depois do transplante, e outro só foi transplantado em junho.
Os nove meses que Andrews passou com o órgão animal foram cruciais para que ele recuperasse a saúde, dizem seus médicos. O rim do porco produzia urina e eliminava resíduos de seu organismo 24 horas por dia, sete dias por semana —fazendo continuamente o que a diálise realiza por meio de uma máquina apenas a cada dois dias, em sessões que duram horas. Sua alimentação melhorou, e ele recuperou massa muscular. 'Isso me devolveu a vida', diz Andrews.
Médicos especializados em doenças renais muitas vezes ficam impressionados com o grau de sofrimento que os pacientes relatam durante a diálise. 'A mensagem dos pacientes, e isso foi muito chocante para nós, é que viver em diálise não é viver', diz Riella. 'Por isso, todos procuram essa alternativa, e é por isso que tantos pacientes se apresentaram, mesmo diante de todas as incertezas da pesquisa.'
Há outros trabalhos em andamento. A eGenesis iniciará no próximo ano um ensaio clínico formal com 33 pacientes. Outra empresa de biotecnologia que produz porcos geneticamente modificados, a United Therapeutics Corp., começou em novembro um ensaio clínico com seus rins e em breve iniciará um segundo estudo.
Curtis diz que, embora os rins usados como 'ponte' venham a se mostrar valiosos, o objetivo final é desenvolver rins de porco que possam durar tanto quanto os transplantes humanos.
'Talvez o primeiro objetivo, mais viável, seja fazer com que esse tratamento sirva como ponte. E talvez, daqui a dez ou 15 anos, estejamos falando de uma alternativa tão boa quanto os rins humanos', diz Riella.
Andrews precisou ser internado várias vezes enquanto estava com o rim de porco e, por fim, o órgão teve de ser retirado depois que coágulos se formaram em seus vasos sanguíneos e o danificaram. Ele retomou a diálise por um breve período e, em janeiro, recebeu um rim humano de um doador compatível.
Embora tenha enfrentado alguns problemas de saúde desde então, afirmou estar em melhor forma física do que nos últimos anos e ter voltado a passar boa parte do ano em uma cabana à beira de um lago. Ele nada, anda de caiaque e faz pequenos passeios de bicicleta, e seu apetite voltou.
'Passei a achar que só tinha alguns meses, talvez um ano, porque me sentia muito mal', diz. Mas os transplantes mudaram sua maneira de encarar a vida.






