Por que Gonet quer encerrar o caso Master antes mesmo de ele começar

Diálogos colhidos pela PF revelam que o PGR e o banqueiro eram próximos pelo menos desde meados de 2024

BATANEWS/VEJA


PESSOALMENTE - O PGR: ele teria garantido a Vorcaro que não haveria nenhuma “sacanagem' nas investigações sobre o banco (Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Paulo Gonet chegou pela primeira vez à chefia da Procuradoria-Geral da República (PGR), em 2023, por uma confluência de interesses. O perfil conservador o aproximou de parlamentares ligados ao bolsonarismo, a carreira acadêmica ajudou a cabalar simpatizantes no Supremo Tribunal Federal (STF) e o compromisso com uma atuação discreta seduziu os setores mais resistentes do PT. No cargo de fiscal da lei e protetor dos direitos da sociedade, o mínimo que se esperava de Gonet diante das surpreendentes revelações que surgiram no rastro do escândalo financeiro do Banco Master era empenho em esclarecer os muitos pontos obscuros que ainda cercam o caso quase um ano depois da primeira incursão da Polícia Federal. Não foi o que aconteceu.

O procurador-geral foi contra a prisão de Daniel Vorcaro, recusou duas propostas de delação premiada do ex-banqueiro, condicionou acordos de colaboração à devolução de quantias estupendas de dinheiro e deu parecer contrário a diligências elementares. As revelações trazidas pelo explosivo relatório da Polícia Federal parecem deixar claro agora o motivo para esse comportamento. O resultado foi demolidor para a reputação de Alexandre de Moraes e revelou que Gonet também estava preso na teia de relações impróprias que certas autoridades mantinham com o banqueiro.

Relator do caso Master no STF, o ministro André Mendonça trava uma batalha particular com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e desconfia há tempos que forças ocultas têm atuado para impedir que algumas das falcatruas do banco liquidado venham a público. Por isso, havia determinado que fosse encaminhado a ele todo o material apreendido nos telefones celulares de Daniel Vorcaro e dado ordens para que a PF fizesse “a identificação dos integrantes da rede de influência e monitoramento” gerenciada pelo executivo.

De perfil discreto, Gonet nunca falou de suas relações com Daniel Vorcaro, mas os diálogos colhidos pela PF revelam que o procurador e o banqueiro eram próximos pelo menos desde meados de 2024, quando já circulavam rumores sobre o risco de implosão do Master. Não era uma relação muito comum. Cabia ao advogado Ciro Soares, que já atuou como advogado do banco, fazer a interlocução entre Vorcaro e o procurador-geral, intermediar as viagens que ambos faziam ao exterior e servir como pombo-correio entre a dupla.

Em março de 2025, por exemplo, Soares enviou a Vorcaro uma foto com Gonet e disse que o chefe do MP queria conversar com o banqueiro, o que ocorreu em uma ligação naquele mesmo dia. Semanas depois, o advogado encaminhou a Vorcaro mensagens do PGR em que ele dizia estar “com saudade” do banqueiro e “na torcida” por ele, e ainda celebrou o evento que o ex-dono do Master promoveria na Inglaterra. “Oba!!!! Tomara que tenha charuto e macalan!”, escreveu Gonet. O banqueiro reagiu com ironia: “Agora vai ter que ter plantação de charuto e barril de macalan”.

Conhecido pelas festas badaladas que promovia com a presença de altas autoridades, Daniel Vorcaro ofereceu em abril de 2024 uma degustação do famoso uísque escocês Macallan a juízes e parlamentares brasileiros que estavam em Londres para um seminário jurídico patrocinado pelo Master. A degustação ocorreu no George Club e reuniu, entre outros, os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador Paulo Gonet. A resenha custou 640 000 dólares (3,3 milhões de reais), mas Gonet não precisou tirar um tostão do bolso. Dez dias antes do convescote na capital inglesa, Ciro Soares e Daniel Vorcaro trocaram mensagens sobre o PGR. “Amizade é tudo”, “Gonet é firme”, escreveu o advogado sobre a articulação do procurador em uma eleição de classe que interessava ao grupo do banqueiro.

Embora não seja crime, confraternizar com investigados coloca sob suspeição a temperança que é esperada do chefe do Ministério Público na análise de casos tormentosos e alimenta a hipótese de que não existe o distanciamento necessário para que o procurador analise as provas da investigação e tome as providências necessárias. Como procurador-geral, cabe a Gonet apresentar ao Supremo denúncias contra eventuais crimes cometidos por magistrados do STF na esteira do escândalo do Master e analisar propostas de delação que eventualmente atribuam a juízes da Corte ilícitos relacionados a Vorcaro. Se por qualquer razão o PGR se omitir ou, em uma hipótese mais benevolente, não detectar nada de errado na relação de ministros do Supremo com o radioativo ex-dono do banco, as suspeitas que levaram o tribunal a uma inédita crise de imagem e credibilidade serão varridas para debaixo do tapete. E, se depender apenas de Gonet, é isso que se avizinha.

No início do ano, o procurador-geral da República já havia arquivado três pedidos de afastamento do ministro Dias Toffoli do caso Master, mesmo depois de revelações de que um dos advogados do banco viajou em um jatinho com o magistrado e de que um resort da família Toffoli havia sido comprado por um fundo de investimento ligado ao banco. Gonet, sem investigar, concluiu que não havia nada a se investigar. As mensagens recuperadas pela Polícia Federal colocam o procurador como uma espécie de conselheiro de Vorcaro. Em um diálogo de 19 de março de 2025, o banqueiro escreve ao antigo diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves, hoje investigado, e informa que o ministro do STF iria “chamar Paulo pra dar um aperto”. Meses depois, em 30 de outubro, Vorcaro conta ao próprio Alexandre de Moraes que o PGR teria assegurado que não haveria “sacanagem” contra a instituição dele.

Na época, o banqueiro dizia ter ouvido de informantes de dentro do BC que procuradores e policiais federais haviam se reunido com técnicos em busca de dados sobre o envolvimento do Master em um esquema bilionário de fraudes — e acionou mais uma vez o amigo. “Estamos no escuro, o Paulo só disse que estava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem. Mas ontem ligou alerta vermelho, né? Uma ação desmedida coloca em risco milhões de clientes”, escreveu Vorcaro a Moraes.

O ex-dono do Master acabaria preso cerca de duas semanas depois, em 17 de novembro, quando tentava sair do país. Na terça-feira 1º, poucas horas depois das conversas comprometedoras se tornarem públicas, o procurador-geral apresentou parecer em que defendeu a nulidade do relatório da Polícia Federal e ainda acusou André Mendonça, o relator, de fazer uma investigação ilegal contra o colega de toga — o que, se comprovado, pode colocar um ponto-final em tudo, garantindo impunidade a todos.

Na história recente do país, ficaram famosos os casos de PGRs que não mostravam o menor apetite por investigações importantes, algo que se repetiu em diversos governos, dos mais diferentes matizes ideológicos. A situação chegou ao ponto de integrantes do cargo receberem a alcunha irônica de “engavetador-geral da República”. Gonet parece estar honrando essa tradição. “Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais.

Não lhe é dado valer-se da polícia judiciária como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas”, ressalta o parecer do atual PGR sobre o pedido de abertura de investigação feito por André Mendonça com base no novo relatório da PF. O procurador não disse uma única palavra sobre as suspeitas que recaem sobre Alexandre de Moraes nem sobre os diálogos que o deixaram em situação de extrema delicadeza.

Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011