Policial
Família de Fabíola contesta falas da defesa após soltura de cardiologista acusado de feminicídio
Familiares da fisiterapeuta morta em maio deste ano vão contra falas que classificam o trabalho pericial como 'precário e até mesmo amador' em caso que têm delegada, perita e promotoras mulheres
BATANEWS/CORREIO DO ESTADO
Em pleno 'Agosto Lilás', campanha nacional essa que colore o mês em conscientização para prevenção e enfrentamento das formas de violência contra a mulher, familiares de Fabíola Marcotti contestam e lamentam com revolta falas públicas atribuídas à defesa de João Jazbik Neto, indivíduo esse acusado pelo feminicídio da fisioterapeuta em 18 de maio em Campo Grande.
Investigado pelo feminicídio da ex-exposa, as falas em questão teriam sido proferidas após o cardiologista que chegou a ficar conhecido como 'pai da cardiologia em MS' ser solto pela segunda vez. Conforme a família de Fabíola, no caso que conta com delegada, perita e promotoras mulheres, a defesa de João teria classificado o trabalho pericial como 'precário' e 'amador'.
Ao Correio do Estado, o irmão de Fabíola, José Flávio Marcotti, detalhou o quando é difícil para o núcleo familiar ver que o acusado pelo feminicídio da fisioterapeuta segue solto: 'mesmo com o laudo concluído como feminicídio brutal', cita ele.
No texto, que você confere na íntegra ao fim da matéria, os familiares destacam a extrema complexidade da investigação, lembrando que é direito da defesa questionar provas, mas que a desqualificação do trabalho técnico seria algo completamente diferente.
Tendo acumulado na carreira o cargo de presidente na Sociedade Brasileira de Cardiologia, Jazbik é reconhecido no ramo por compor, ao lado de Jorge e Fernanda Vasconcelos, a equipe responsável pela primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea, feita em 1980.
Um ano depois eles também seriam responsáveis pela primeira cirurgia de ponte de safena, segundo o banco de dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia Estadual Mato Grosso do Sul.
Solto novamente
Como bem acompanha o Correio do Estado, João Jazbik Neto, de 78 anos, deixou a prisão há cerca de 10 dias, em 20 de agosto, menos de uma semana após ter a preventiva decretada. Sua defesa sustenta a inocência do cardiologista e afirmou na ocasião que irão contestar as perícias.
Sua defesa é feita pelo advogado José Belga Trad, que alegou ter apresentado à Justiça um pedido reunindo diferentes argumentos que questionavam sua prisão preventiva, alegando que João seria inocente e não teria participado da morte da esposa.
A defesa alega que pretende contestar judicialmente os laudos produzidos durante a investigação. Eles argumentam ainda que o acusado do feminicídio de Fabíola Marcotti teria colaborado com as apurações e cumprido as medidas cautelares determinadas pela Justiça após obter liberdade no primeiro habeas corpus concedido no caso.
Entretanto, essa não é a primeira vez que João havia sido preso na investigação desse feminicídio, até conseguir deixar a prisão em 23 de maio, cinco dias após a morte da esposa.
A Justiça concedeu um habeas corpus apresentado pela defesa e permitiu que o cardiologista respondesse em liberdade, mediante cumprimento de medidas cautelares, entre elas o monitoramento por tornozeleira eletrônica.
Nos meses seguintes, a Deam prosseguiu com depoimentos, perícias e outras diligências destinadas a reconstruir o que ocorreu dentro da propriedade na noite em que Fabiola morreu.
Foi nesse período que a hipótese inicial de suicídio perdeu força para os investigadores. Com o avanço dos exames periciais e a análise dos demais elementos reunidos, a Polícia Civil passou a considerar que a fisioterapeuta teria sido vítima de feminicídio.
Em 14 de agosto, João voltou a ser preso, desta vez preventivamente e dentro da investigação sobre a morte da esposa. A medida durou seis dias.
Relembre
O caso investigado como o feminicídio de Fabíola Marcotti, na Chácara dos Poderes em Campo Grande, veio à tona após a informação inicial apontar que a fisioterapeuta havia sido encontrada morta pelo próprio marido, que inicialmente foi detido para esclarecimentos.
Já neste primeiro momento não foi descartada a possibilidade de um feminicídio, ao invés da linha de 'suicídio' que havia sido levantada pelo próprio João Jazbik. A delegada Analu Ferraz, da Deam, evitou dar declarações, afirmando que o caso ainda não estava fechado e que testemunhas seriam ouvidas.
Essa investigação da Deam passou a trabalhar com a hipótese de feminicídio após elementos reunidos durante a apuração colocarem em dúvida a versão inicial. A perícia teve peso na mudança da linha investigativa, mas as suspeitas começaram a ganhar força ainda nas primeiras horas após a morte.
No dia seguinte ao caso, a Deam informou ter encontrado divergências entre declarações prestadas pelo cardiologista, testemunhas e outras pessoas ouvidas na investigação. Conforme divulgado pela Polícia Civil, elementos técnicos analisados não seriam compatíveis com a hipótese de que Fabiola tenha provocado seu próprio disparo.
Durante os trabalhos realizados no imóvel, entretanto, policiais localizaram armas sem a documentação necessária. O cardiologista acabou preso em flagrante em razão do armamento encontrado na propriedade.
As investigações apontaram ainda que João teria orientado um caseiro e um ex-funcionário a remover um armário com armas e munições e levá-lo para outro imóvel da propriedade.
Para a Polícia Civil, a movimentação poderia configurar uma tentativa de alterar elementos relevantes para a investigação. João, o caseiro e o ex-funcionário acabaram presos em flagrante.
O caso segue sendo investigado.
Abaixo você confere na íntegra a nota da família de Fabíola:
Neste Agosto Lilás, a família de Fabíola gostaria de destacar a importância do trabalho das profissionais que atuaram na investigação de sua morte.
A defesa do réu João Jazbik Neto classificou o trabalho pericial como “precário e até mesmo amador” e falou em “interpretações e conclusões distorcidas e fantasiosas”.
Nós perguntamos: é assim que se trata o trabalho de mulheres que dedicaram conhecimento, técnica e responsabilidade à investigação da morte de outra mulher?
A delegada Analu Lacerda Ferraz, a perita Thayla Venancio, a médica do IMOL Priscilla Alexandrino e as promotoras Luciana do Amaral Rabelo e Daniele Borghetti Zampieri não são amadoras. São profissionais que cumpriram suas funções diante de uma investigação de extrema complexidade.
Questionar provas é direito da defesa. Desqualificar profissionais como “amadoras” e classificar seu trabalho técnico como “fantasioso” é outra coisa.
E isso ganha um significado ainda maior justamente no Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Porque a violência contra a mulher nem sempre é evidente. Muitas vezes, é sutil, silenciosa e precisa ser reconhecida a partir de sinais, evidências e circunstâncias que exigem conhecimento, técnica e responsabilidade.
Foi isso que essas profissionais fizeram: trabalharam para esclarecer a morte de Fabíola.
O Ministério Público ofereceu denúncia por feminicídio e o Poder Judiciário recebeu, permitindo que o processo siga seu curso. Não se trata de condenação antecipada, mas também não se trata de uma investigação que possa ser reduzida à“fantasia”.
A família confia na DEAM, na perícia, no IMOL, no Ministério Público e no Poder Judiciário. E continuará defendendo o respeito ao trabalho sério de todas as mulheres que participaram dessa investigação.
Por Fabíola. Pela verdade. Pela Justiça. Por todas as mulheres.






