Cotidiano
“Escrevo uma história de cura e reconstrução'
A atriz Evelin Camargo descobriu um câncer após colocar silicone nos seios — e isso mudou sua visão de mundo
BATANEWS/VEJA
Há seis meses, minha vida mudou. Seis meses desde que passei a olhar tudo de forma diferente. Seis meses desde que fiz a cirurgia para retirar um linfoma causado por uma prótese de silicone, um problema que eu nem imaginava que poderia surgir. Preciso voltar um pouco no tempo para me fazer entender. Desde jovem, sempre tive um volume muito grande de seios. Daqueles que pesam, causam dores nas costas e que te deixam constrangida dependendo da roupa, ainda mais na adolescência. A redução de mama sempre pareceu inevitável para mim, como foi para outras mulheres da minha família, incluindo a minha mãe.
Em 2019, aos 28 anos, chegou o momento. Eu me preparei para a cirurgia. Tinha certeza de que, finalmente, me livraria das dores e teria os meus tão sonhados seios menores, com o “plus” de uma prótese de silicone para deixá-los mais redondinhos e bonitos. Foram retirados 2 quilos de mama e colocadas próteses de 250 ml. A recuperação foi tranquila e o resultado exatamente como eu sonhei. Tudo perfeito.
Até não ser mais. Em dezembro de 2025, seis anos depois, acordei com o seio esquerdo muito maior que o direito. A primeira suspeita foi o rompimento da prótese. Mas uma ressonância magnética descartou essa possibilidade, trazendo outros eventuais diagnósticos. Meu cirurgião pediu uma punção do líquido para avaliar todas as possibilidades, inclusive a de um linfoma. Era 23 de dezembro. Por causa das festas de fim de ano, o resultado demorou semanas. Fiz uma viagem de férias, descansei, trabalhei e segui meu ciclo de congelamento de óvulos. A vida continuava enquanto, silenciosamente, uma resposta capaz de mudá-la estava sendo processada em algum laboratório.
Até que, numa sexta-feira de manhã, entrei no site para consultar os exames e o laudo estava lá: positivo para BIA-ALCL. Eu não conseguia respirar. As lágrimas simplesmente caíram. Corri para o Google e descobri o significado daquela sigla: linfoma anaplásico de grandes células associado ao implante mamário, um tumor raro relacionado à prótese no seio. Vieram outros médicos, fiz outros exames — tudo para descobrir até onde a doença tinha ido.
E, então, surgiu a notícia que, naquele momento, me pareceu um presente: o câncer estava restrito à região da prótese, sem sinais de disseminação. Nesse estágio, a retirada completa do implante e da cápsula ao redor dele poderia ser curativa. No dia 16 de fevereiro, passei por uma operação de cerca de sete horas. Retirei as próteses, parte do tecido em volta e reconstruímos o que restou da mama. Acordei com muitos pontos e um corpo que eu não reconhecia. Nunca tinha me visto com seios tão pequenos. Precisei entender que aquela mudança brutal na aparência também era a imagem de algo muito maior, já que eu estava viva.
Talvez essa tenha sido a primeira das muitas coisas que aprendi. Passei anos idealizando que meu corpo tivesse determinada aparência e, de repente, tudo o que eu queria era que ele estivesse saudável. Entendi que não controlamos nossas vidas tanto quanto imaginamos. Que planos podem mudar em uma sexta-feira de manhã.
Também aprendi a não procurar culpados. Nem em mim nem na menina de 28 anos que escolheu colocar silicone. Ela tomou a melhor decisão que podia com as informações que tinha. Desde 16 de fevereiro, eu reaprendo um pouco sobre mim, sobre meu corpo e sobre a oportunidade que é estar aqui, viva. E hoje as coisas parecem ter outro significado. Um pouco mais profundo e mais urgente, com mais atenção à minha saúde, física e mental. A mistura de tantos sentimentos me lembra, todos os dias, do privilégio que é poder continuar escrevendo a minha história. Minha história de cura e de reconstrução.
Evelin Camargo em depoimento a Diogo Sponchiato
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009





