Sementes certificadas ganham peso nas decisões para a safra de soja 2026/27

Com crédito mais restrito, margens pressionadas e risco climático associado ao El Niño, produtor antecipa compras e busca preservar o potencial produtivo desde a implantação da lavoura.Compartilhe: Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp Compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela) LinkedIn Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram

BATANEWS/OPR


Fotos: AMSSOJA BRASIL

A preparação para a safra de soja 2026/27 já movimenta o mercado de sementes, em um cenário no qual o produtor precisa equilibrar investimento, risco e potencial produtivo. Segundo a Associação dos Multiplicadores de Sementes de Soja do Brasil (AMSSOJA Brasil), cerca de 80% da demanda prevista para a próxima safra já foi comercializada.

O ritmo de comercialização ocorre apesar de um ambiente de maior pressão sobre a rentabilidade. O relatório Agro Conjuntura Céleres de julho de 2026 aponta uma recuperação moderada dos preços futuros da soja, mas mantém a atenção sobre os riscos para a próxima temporada. Entre eles está a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño, com potencial de ampliar as perdas de produtividade, principalmente no Matopiba. O acesso mais restrito ao crédito também aumenta a necessidade de planejamento na compra dos insumos.

Nesse contexto, a escolha da semente ganha relevância porque define, ainda antes do plantio, parte das características produtivas que estarão disponíveis para a lavoura explorar durante o ciclo.

Para o presidente da AMSSOJA Brasil, André Schwening, a semente concentra uma parcela importante do avanço tecnológico incorporado à soja brasileira. “Tudo começa na semente. Não há sojicultura sem semente de soja. É ela que impulsiona o crescimento da cultura por meio da genética, da biotecnologia e da inovação”, pontua.

O produto comercializado pelo multiplicador é resultado de uma cadeia que envolve pesquisa, desenvolvimento de cultivares, testes, validação, produção e controle de qualidade. Antes de chegar à propriedade, uma nova genética passa por diferentes etapas para que suas características sejam preservadas durante a multiplicação e estejam disponíveis ao produtor dentro dos padrões estabelecidos. “O produtor colhe os resultados de um trabalho que começa muitos anos antes da safra. O desenvolvimento de uma cultivar envolve pesquisa, validação, testes e um processo criterioso de multiplicação para que a tecnologia chegue ao campo com qualidade e segurança”, explica Schwening.

Essa cadeia ganha importância em um momento em que o produtor dispõe de menos espaço para absorver falhas de implantação. A combinação entre custos, crédito mais seletivo, preços das commodities e incertezas climáticas aumenta o peso das decisões tomadas antes da semeadura.

A escolha da cultivar, no entanto, é apenas uma parte da decisão. A qualidade fisiológica e sanitária da semente interfere diretamente na capacidade de estabelecimento da lavoura. “Uma boa genética, aliada à qualidade fisiológica da semente, está diretamente relacionada ao desempenho da lavoura e ao resultado final obtido pelo produtor”, reforça o presidente da AMSSOJA Brasil.

Na avaliação da associação, sementes certificadas oferecem ao produtor atributos como identidade genética, qualidade, sanidade e rastreabilidade. Esses fatores são particularmente relevantes quando as condições de produção aumentam o risco de redução do rendimento.

O movimento de comercialização observado neste ciclo também indica que a pressão sobre as margens não eliminou a demanda por sementes de maior qualidade. Com aproximadamente 80% da demanda estimada já comercializada, a cadeia sinaliza que o planejamento da próxima safra começou antes da definição de todas as condições de mercado para a soja.

Além da genética, outra tecnologia vem ampliando sua participação no mercado: o Tratamento Industrial de Sementes (TSI).

Dados da Céleres citados pela AMSSOJA Brasil apontam que o TSI já está presente em mais de 50% das sementes comercializadas no país. O processo permite que produtos destinados à proteção das sementes sejam aplicados de forma padronizada antes de elas chegarem à propriedade, contribuindo para a proteção nas primeiras fases de desenvolvimento da cultura.

O crescimento do tratamento industrial ocorre em paralelo à busca por maior eficiência na implantação das lavouras. Em condições de crédito mais restrito, a decisão sobre quais tecnologias incorporar precisa considerar não apenas o desembolso inicial, mas o impacto esperado sobre o estabelecimento e o desempenho da cultura.

A discussão sobre sementes certificadas envolve ainda questões regulatórias e de competitividade da cadeia. Entre os temas acompanhados pelo setor estão a modernização da legislação de proteção de cultivares, o combate à comercialização de sementes ilegais e a manutenção dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

Para a AMSSOJA Brasil, a proteção da propriedade intelectual é parte do sistema que permite remunerar o investimento realizado na criação de novas cultivares e tecnologias. Os multiplicadores, por sua vez, fazem a conexão entre as empresas responsáveis pelo desenvolvimento das variedades e o produtor que utilizará essa genética no campo.

Schwening considera que a capacidade de manter investimentos ao longo dessa cadeia será determinante para a evolução tecnológica da sojicultura. “Os desafios fazem parte da agricultura. O diferencial estará na capacidade do setor de continuar investindo em inovação, planejamento e profissionalização para entregar tecnologia ao produtor”, afirma.

A comercialização antecipada de sementes para 2026/27 ocorre, portanto, em um ambiente de maior cautela econômica, mas também de crescente incorporação de tecnologia ao primeiro insumo da lavoura. Com riscos climáticos, crédito mais seletivo e pressão sobre as margens, decisões tomadas antes da semeadura passam a ter impacto ainda maior sobre a capacidade de preservar o potencial produtivo da soja.