Maior surto de sarampo nas Américas em duas décadas avança e já faz vítimas no Brasil

Casos ocorrem em meio a ataques à vacinação semeados pelo governo dos Estados Unidos

BATANEWS/VEJA


ALTO RISCO - Crianças em perigo: além das lesões na pele, a doença pode causar sequelas neurológicas (Andriano cz/Getty Images)

A globalização tem várias facetas: a política, a econômica, a comportamental e também a biológica. Esta última, invisível até impor agravos, é muito bem representada pelos vírus. Se uma região do mundo é assolada por uma moléstia infecciosa, em tese nenhum lugar está imune ao problema. Que o diga o sarampo, um dos patógenos mais transmissíveis de que se tem notícia. Enquanto as pessoas estão protegidas com a vacina, ele pode ser devidamente controlado. Mas basta uma brecha nas barreiras médicas para o microrganismo se espalhar, ameaçando sobretudo crianças pequenas. E é essa doença, que parecia sumida em terras brasileiras, que voltou a ganhar escala recentemente, disseminada a partir da América do Norte, incluindo a nação que hoje lidera movimentos de boicote à imunização, os Estados Unidos.

O cenário é preocupante. Já vivemos um dos maiores surtos na região nas últimas duas décadas, com ao menos 24 casos registrados no Brasil — e dezenas de milhares em países acima da Linha do Equador. E tudo pode piorar: em um movimento que contraria a ciência, o presidente americano Donald Trump assinou uma ordem que prevê a redução dos imunizantes obrigatórios a crianças nos EUA e o desmembramento da vacina contra o sarampo para aplicação em doses separadas, o que pode afetar a adesão adequada às picadas. A infecção se alastrou nas Américas do Norte e Central e conquistou novos terrenos com o maior fluxo de viagens propulsionado pela Copa do Mundo, cujas sedes já registravam aumento nos casos. Até o momento, mais de 50 000 episódios foram contabilizados, mais que o triplo das notificações em 2025, sendo que 95% dos registros se concentram na Guatemala, no México, nos Estados Unidos e no Peru. Os primeiros tentáculos do surto não poupam o Brasil. “O sarampo é muito contagioso: entre não vacinados, um indivíduo pode passar o vírus para outros dezoito”, diz o pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente da Câmara Técnica de Eliminação do Sarampo do Ministério da Saúde.

Por aqui, com a identificação de pacientes infectados na Grande São Paulo, foi iniciada uma campanha para saturação do vírus, o que inclui a adoção da chamada “dose zero”, quando a vacina é aplicada em bebês com mais de 6 meses, um semestre antes da idade prevista para o início do esquema vacinal. A iniciativa prevê picadas para a população até 59 anos. O objetivo é evitar um surto, que poria em risco a vida de crianças e levaria à perda do certificado de nação livre da circulação endêmica do sarampo, recuperado pelo Brasil em 2024. “Em 2019, nós perdemos o certificado por causa de um surto que começou em São Paulo. Isso não teve ação firme e chegou a 20 000 infectados”, recordou, em pronunciamento, o ministro da Saúde Alexandre Padilha. “Em 2025, nós não deixamos que 38 casos importados se transformassem em surtos e, em 2026, vamos travar essa luta de novo.” Segundo o chefe da pasta, a cepa viral que circula no país veio justamente dos EUA e do Canadá.

De fato, as erupções de sarampo estão diretamente ligadas aos momentos de desmobilização da imunização. E os números do passado deixam essa associação clara: antes das campanhas de vacinação em massa, iniciadas na década de 1960, entre 2 e 3 milhões de pessoas morriam por ano em decorrência do vírus. Com a imunização, o índice caiu para 100 000. Diante da alta proteção do imunizante, que chega a 95% quando o esquema com duas doses está completo, o sarampo poderia ter sido erradicado. No entanto, a vacina tríplice viral (que combate sarampo, caxumba e rubéola) tem sido alvo de campanhas difamatórias desde que uma farsa foi arquitetada em 1998 para descredibilizar a fórmula, ligando-a ao autismo. Mesmo com a retratação, a onda de desinformação se manteve e ainda alimenta discursos dos movimentos antivacina.

O negacionismo esteve em alta na pandemia, teve um declínio, mas, na esteira das decisões de governos como o americano, ganha força novamente. No caso da tríplice viral, determinar a aplicação em doses independentes e após um consenso entre pais e médicos significa o rebaixamento de uma medida implementada para evitar que crianças morram ou tenham sequelas que vão acompanhá-­las ao longo da vida, como danos neurológicos, auditivos e visuais.

As duas doses protetoras são aplicadas aos 12 e aos 15 meses de vida para oferecer proteção precoce. “É justamente no período em que as famílias estão mais atentas e a criança ainda frequenta o pediatra”, explica o infectologista pediátrico Francisco Ivanildo de Oliveira Junior, do Sabará Hospital Infantil, em São Paulo. Nesse contexto, há uma batalha ferrenha das autoridades para aumentar a cobertura da segunda dose. O balanço atualizado do Ministério da Saúde mostra que, no ano passado, o índice nacional para a primeira dose da tríplice viral foi de 92,9%. Na segunda dose, o percentual caiu para 78,3%. “É a segunda dose que vai aumentar a probabilidade de que a proteção seja para a vida inteira”, diz Oliveira Junior.

O vírus está em circulação e a situação pode se agravar, especialmente com o grande deslocamento de pessoas por todas as partes do mundo. Para cortar a corrente, já temos uma arma à mão: as vacinas. Sim, patógenos e sandices ultrapassam fronteiras. Felizmente, o conhecimento também — e nunca é tarde para espalhá-lo.

Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009