Uma em cada quatro pessoas terá insuficiência cardíaca ao longo da vida

Mais de 55 milhões de pessoas convivem com a doença; sintomas são falta de ar, cansaço e inchaço

BATANEWS/VEJA / CAROLINA CASADEI DOS SANTOS*


Cuidado com a insuficiência cardíaca inclui aderir às medidas preventivas, a exemplo da vacinação (Sandro Araújo/Agência Saúde-DF//)

A insuficiência cardíaca avança silenciosamente como uma das maiores ameaças à saúde pública no mundo. Embora o nome possa sugerir que o coração “parou de funcionar”, trata-se, na verdade, de uma condição crônica e progressiva em que o órgão perde a capacidade de bombear sangue adequadamente para atender às necessidades do organismo. O resultado é um impacto profundo na qualidade de vida, com sintomas como falta de ar, cansaço, inchaço e limitações para atividades simples do cotidiano, além de elevadas taxas de hospitalização e mortalidade.

Os números globais impressionam. Mais de 55 milhões de pessoas convivem com insuficiência cardíaca no planeta, mais que o dobro do registrado em 1990. E as projeções indicam que esse cenário continuará se agravando nas próximas décadas, impulsionado pelo envelhecimento populacional, pelo aumento da obesidade, do diabetes e da hipertensão arterial. O risco de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo da vida já é estimado em aproximadamente 25%.

Apesar dos avanços terapêuticos observados nos últimos anos, ainda existem profundas desigualdades no enfrentamento da doença. O estudo internacional PURE, que avaliou mais de 172 mil participantes em 25 países, demonstrou diferenças alarmantes na mortalidade após episódios de insuficiência cardíaca.

Em países de baixa renda, a letalidade em 30 dias pode chegar a 59%, enquanto em países de alta renda fica em torno de 11%. Em cinco anos, a mortalidade alcança 77% nos países mais pobres, comparada a 28% nos países ricos. Esses dados evidenciam como acesso ao diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento contínuo fazem diferença na sobrevivência dos pacientes.

No Brasil, a insuficiência cardíaca apresenta desafios particulares. Além dos fatores clássicos de risco cardiovascular, como hipertensão arterial, diabetes, obesidade e colesterol elevado, ainda convivemos com doenças historicamente relevantes em nosso contexto epidemiológico, como a doença de Chagas e as doenças valvares reumáticas.

Dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa) reforçam a dimensão do problema entre os idosos brasileiros.

Entre pessoas com 60 anos ou mais, 44% estavam no chamado estágio A, ou seja, apresentavam fatores de risco importantes para desenvolver insuficiência cardíaca. Outros 24% já se encontravam no estágio B, considerado pré-insuficiência cardíaca, quando existem alterações estruturais cardíacas ainda sem sintomas aparentes. Já 11% apresentavam insuficiência cardíaca sintomática, com mortalidade de 27% em 12 anos de acompanhamento.

Esses números mostram que a doença não surge, na maioria das vezes, de forma repentina: ela se desenvolve ao longo do tempo, muitas vezes silenciosamente, oferecendo uma importante janela para prevenção e intervenção precoce.

Quando diagnosticada cedo e tratada de forma adequada, a insuficiência cardíaca pode ser controlada, permitindo boa qualidade de vida ao paciente. Infelizmente, o diagnóstico ainda costuma ser tardio em muitos casos, já que sintomas como falta de ar e cansaço podem ser inicialmente confundidos com doenças pulmonares, como pneumonia, retardando o início do tratamento correto.

Nesse contexto, um aspecto que merece atenção crescente é a relação entre infecções respiratórias e complicações cardiovasculares. A gripe, frequentemente subestimada, pode desencadear descompensações graves em pacientes com doenças cardíacas, especialmente idosos.

A infecção aumenta a inflamação sistêmica, eleva a demanda metabólica do organismo e pode precipitar internações por insuficiência cardíaca.

Um estudo apresentado como Tema Livre no Congresso Socesp 2026 evidenciou justamente essa associação. Os pesquisadores observaram que menores taxas de cobertura vacinal contra influenza estavam relacionadas a maiores índices de hospitalização por insuficiência cardíaca durante o inverno entre idosos.

O trabalho também demonstrou que desigualdades sociais influenciam diretamente esse cenário, reforçando a necessidade de ampliar o acesso à vacinação. Mais do que proteger contra a gripe, a vacina representa uma importante estratégia de prevenção cardiovascular.

A conscientização da população sobre insuficiência cardíaca é fundamental. Reconhecer sintomas precoces, controlar fatores de risco, manter acompanhamento médico regular e aderir às medidas preventivas, incluindo vacinação, são atitudes capazes de reduzir complicações, internações e mortes.

Um exemplo é o Projeto Insuficiência Cardíaca, uma iniciativa da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) voltada à capacitação de profissionais de saúde que atuam na rede pública estadual e municipal. O programa oferece cursos on-line para médicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais com o objetivo de qualificar o atendimento aos pacientes e contribuir para a redução da mortalidade hospitalar.

Diante do crescimento da insuficiência cardíaca, investir em prevenção, educação em saúde e capacitação profissional não é apenas desejável, mas é uma necessidade urgente para salvar vidas e reduzir o impacto dessa condição sobre pacientes, famílias e sistemas de saúde.

*Carolina Casadei dos Santos é coordenadora do Projeto Insuficiência Cardíaca da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp)