Investigações contra autoridades e políticos colocam a PF no centro da disputa eleitoral

A própria instituição também se tornou alvo de suspeitas e acusações

BATANEWS/G1


TENSÃO - Sede da PF: inquéritos em curso têm potencial para influenciar o resultado do pleito presidencial (Montagem com fotos de Evaristo Sá/AFP; Maira Erlich/Bloomberg/Getty Images; Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Em abril do ano passado, o Progressistas e o União Brasil, dois dos principais partidos do Centrão, se uniram numa federação anunciada na época como a maior força política do Congresso, com 109 deputados e catorze senadores, e uma das mais poderosas redes eleitorais do país, composta por seis governadores, 1 350 prefeitos e mais de 12 000 vereadores. A parceria tinha dois objetivos. Um deles era dar as cartas nas votações na Câmara e no Senado, deixando reféns dos interesses do grupo tanto o governista PT quanto o oposicionista PL. O outro era fazer da nova agremiação a noiva mais cobiçada da corrida presidencial, em razão de seu fundo eleitoral bilionário e de seu precioso tempo na propaganda de TV. No roteiro inicial, a federação trabalharia, acima de tudo, para impulsionar o nome da direita que tentaria impedir a reeleição do presidente Lula. Não foi o que aconteceu.

Apesar de o senador Flávio Bolsonaro oferecer a vaga de vice em sua chapa à dupla formada por Progressistas e União Brasil, as duas legendas recusaram a oferta e preferiram a neutralidade na disputa nacional. Os caciques dessas siglas alegaram que a prioridade é eleger o maior número de congressistas, o que exigiria liberdade para se aliar nos estados a qualquer candidato, da direita à esquerda. É uma explicação, mas não a única. Cada vez mais presente na campanha de 2026, a sombra da PF também teve peso na decisão. Cotado até o início do ano para vice do Zero Um, o senador Ciro Nogueira (PI), comandante do Progressistas e artífice da federação, acabou descartado para a vaga após passar a ser investigado pela PF no escândalo do Banco Master. Em busca de ampliar sua aliança, Flávio Bolsonaro convidou para a função a senadora Tereza Cristina (PP), que, depois de relutar, aceitou a missão. A coligação, se formalizada, encerraria o isolamento do Zero Um. Faltava apenas negociá-la internamente.

Disciplinada, Tereza Cristina (MS) recebeu autorização de Ciro Nogueira para buscar apoio dos diretórios estaduais da federação à sua efetivação como vice. Enquanto ela ia à luta, representantes do governo federal fizeram chegar ao senador piauiense a promessa de que, se inviabilizasse a operação, ele poderia se livrar de constrangimentos por parte da PF até outubro, quando tentará a reeleição ao Senado. Caso contrário…

Blefe ou não, o recado rendeu frutos. Depois de uma série de telefonemas nervosos de Nogueira a correligionários, a federação recusou a coligação com Flávio Bolsonaro. A VEJA, um aliado do mandachuva do Progressistas disse que houve uma opção por uma saída que resultasse na “sobrevivência política” do parlamentar. Chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, Ciro Nogueira era um crítico ferrenho de Lula até que, pego na teia de Daniel Vorcaro (ele receberia mesadas para defender interesses do ex-­banqueiro no Congresso), se reuniu no início do ano com o presidente. Desde então, submergiu. Procurado por VEJA, ele não quis comentar o caso.

Vinculada ao Ministério da Justiça e chefiada por um nome indicado pelo presidente da República, a Polícia Federal, mesmo sem querer, já influenciou diferentes campanhas eleitorais no Brasil. Em 2002, a então governadora do Maranhão, Roseana Sarney, foi obrigada a deixar a corrida presidencial, quando despontava entre os favoritos, depois de uma batida da PF na sede da empresa de seu marido, na qual foi encontrado mais de 1 milhão de reais em espécie. A ação beneficiou o oposicionista Lula, que conquistaria seu primeiro mandato naquele ano, e o governista José Serra, cuja vaga no segundo turno estava ameaçada por Roseana Sarney. Em 2006, a polícia prendeu petistas que portavam 1,7 milhão de reais para comprar um dossiê fajuto contra os adversários. Numa tentativa de se dissociar da armação, Lula, que concorria à reeleição, chamou os colegas de aloprados. Os estragos provocados agora pelo trabalho da PF são enormes. Apurações em curso fizeram os ex-governadores Cláudio Castro (PL-­RJ) e Ibaneis Rocha (MDB-DF), enredados no escândalo do Master, desistirem de concorrer ao Senado.

A maior fraude bancária da história do país também desgastou a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, que pediu 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro para supostamente financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Na oposição, há o temor de que novos detalhes da relação entre o senador e o ex-banqueiro sejam revelados perto da eleição, o que poderia ser fatal. O medo dos bolsonaristas é de um vazamento seletivo por parte da PF, que estaria sujeita à batuta petista. O capitão, sua prole e sua soldadesca não confiam na integridade da corporação nem que ela atue simplesmente como um órgão de Estado. Numa disputa que promete ser tão acirrada quanto a de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro por menos de 2 pontos percentuais de diferença, um depoimento, uma delação ou uma prisão têm potencial para mudar o rumo da história. As pesquisas têm deixado isso claro quando acompanham o movimento pendular dos chamados eleitores independentes, que são considerados os fiéis da balança. Em abril, 33% desse grupo declarava apoio a Flávio e 26% a Lula. O oposicionista, portanto, estava em vantagem. Veio o desgaste do pedido de dinheiro para Vorcaro. O resultado apareceu em julho, quando 40% dos independentes afirmaram que votariam em Lula, enquanto apenas 27% manifestaram preferência por Flávio.

O presidente, que tinha uma desvantagem de 7 pontos em abril, abriu uma frente de 13 pontos. Uma virada e tanto, mas que também perdeu tração. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada no último dia 5, a preferência dos independentes por Lula caiu para 33%, ou 7 pontos a menos do que em julho. Já a opção por Flávio Bolsonaro subiu para 30%, 3 pontos a mais. Esse movimento coincide com um momento negativo para o petista no delicado terreno da corrupção, que é motor do antipetismo. Primeiro, a PF realizou uma operação específica contra o então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), suspeito de defender os interesses do Master no Congresso. Além de receber uma série de mimos, o senador pediu a um ex-executivo do banco que comprasse um apartamento avaliado em 2,4 milhões de reais para a filha dele, Wagner. A situação escalou em gravidade para Lula quando outro escândalo rumoroso, a roubalheira bilionária de aposentados do INSS, aproximou-se dele. A pedido da Polícia Federal, o Supremo abriu três inquéritos para apurar suposto tráfico de influência de Fábio Luís da Silva, filho mais velho do presidente, em órgãos do governo federal.

O notório Lulinha voltou ao centro do noticiário policial depois de uma testemunha dizer à CPI do INSS e à PF que ele receberia 25 milhões de reais para ajudar nos negócios de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS” e operador do crime cometido contra os beneficiários da Previdência. A relação entre os dois teria sido intermediada pela empresária e lobista Roberta Luchsinger. Conhecida pelos laços com o PT, ela é protagonista de outro motivo de desgaste para a campanha à reeleição de Lula, por ter pagado contas pessoais de Marco Aurélio Santana Ribeiro quando este era chefe de gabinete do presidente e, portanto, gozava de condição privilegiada para decidir quem tinha acesso ao mandatário. Marcola, como é conhecido, admitiu ter recebido a ajuda financeira da lobista, afirmou ter quitado a dívida de 249 000 reais e jurou que tudo não teria passado de um negócio privado.

Líder nas pesquisas, Lula teme que o avanço do caso complique a situação jurídica de seu filho mais velho e prejudique sua campanha. Vice-líder, Flávio Bolsonaro tem medo de que a apuração da maior fraude bancária do país traga novos detalhes de sua relação com Vorcaro. Os dois lados compartilham do pavor de que setores da Polícia Federal tentem interferir no processo eleitoral. A desconfiança de que isso já estaria acontecendo não se restringe aos candidatos. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, indicado para o cargo por Lula e com quem despacha diretamente, e o ministro do STF André Mendonça, relator dos casos do Master e do INSS e nomeado para a Corte por Jair Bolsonaro, estão em rota de colisão. Na oposição, há a suspeita de que Rodrigues estaria repassando ao presidente dados sigilosos de investigações. Já os governistas afirmam que agentes alinhados ao magistrado, que conta com um delegado da PF em seu gabinete, municiam adversários com informações. Alguns episódios têm alimentado essa encrenca. Exemplo: Jaques Wagner, sem maiores explicações, apareceu no gabinete de Mendonça uma semana antes de ser alvo da operação da PF.

Em um dos capítulos mais recentes da crise institucional, o ministro do STF, que vem trabalhando de forma cuidadosa na condução dos inquéritos mais bombásticos da República, surpreendeu-se com a troca de investigadores no curso das apurações envolvendo Lulinha. Mendonça reagiu determinando que a PF o informe sobre qualquer mudança que seja promovida nas equipes. Em nota divulgada no último dia 6, superintendentes da PF saíram em defesa de Rodrigues. No mesmo dia, Mendonça se reuniu com o ministro da Justiça, Wellington Silva, a quem a PF é subordinada, numa tentativa de apaziguamento dos ânimos. Não deu muito certo. Mendonça suspeita que o vazamento da audiência pode ter sido usado para dar brecha para o governo acusá-lo de politizar as investigações. Do lado governista do balcão, atribuir a Mendonça e a seus possíveis contatos na PF uma atuação político-eleitoral pode ser útil para permitir, no futuro, um pedido de nulidade processual. A desconfiança de atuação política da polícia também já incomodou outros ministros do Supremo. Alexandre de Moraes pediu investigações para tentar descobrir como foi tornado público um contrato de prestação de serviços no valor de 129 milhões de reais assinado entre o Master e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci.

As suspeitas de aparelhamento de investigações da Polícia Federal são antigas e recorrentes. Jurando inocência, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o ex-­presidente da Câmara Arthur Lira (PP-­AL) sempre alegaram que inquéritos sobre possíveis desvios de suas emendas só avançaram porque eles, em determinados momentos, contrariaram interesses do governo. A tese é conveniente politicamente, mas um tanto débil juridicamente, já que a PF só pode levar adiante operações de busca ou prisões preventivas contra políticos se houver ordem expressa da Justiça. São notórios os desvios de recursos do Orçamento, as traficâncias que depenaram as minguadas aposentadorias de idosos e a distribuição de favores milionários de Daniel Vorcaro.

Feita a ressalva de que a apurações têm razão de ser, vale reconhecer que um delegado da PF pode, a depender da conveniência, acelerar ou retardar um caso. Ou, ainda, preservar ou divulgar uma informação sigilosa. Nesse contexto, vazamentos, operações e outras ocorrências podem ter um efeito gigantesco na campanha. “Se a autoridade tiver um animus específico, pode se empenhar mais em uma apuração, buscar mais elementos, direcionar mais agentes”, diz um ministro do STF. Lula e Flávio Bolsonaro não estão preocupados à toa: a polícia, e não apenas a política, pode decidir o resultado da eleição.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008