Estudo associa certos contraceptivos a maior risco de tumor cerebral; entenda a relação sem pânico

Nova pesquisa causou burburinho, mas precisa ser interpretada com a devida cautela

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Anticoncepcional com progesterona: objeto de análise de especialistas dinamarqueses (Thinkstock/VEJA/VEJA)

A Agência Dinamarquesa de Medicamentos, órgão do Ministério da Saúde do país europeu, vasculhou 25 anos de registros nacionais de saúde — de 2000 a 2024 — cobrindo cerca de 3 milhões de mulheres entre 15 e 59 anos. Como a Dinamarca tem um sistema de saúde público com número de identificação único para cada cidadão, os pesquisadores conseguiram cruzar, com uma precisão rara, quem usou qual tipo de anticoncepcional hormonal e quem desenvolveu meningioma — o tumor cerebral mais comum em adultos e, felizmente, benigno em cerca de 90% dos casos.

Ao todo, 1.473 mulheres com diagnóstico de meningioma foram comparadas a 14.717 mulheres sem o diagnóstico, pareadas por idade, local de nascimento e estado civil. E o que se descortinou foi uma associação entre o uso do hormônio progesterona e o maior risco de desenvolver a doença. O resultado acaba de ser publicado na revista médica JAMA Network Open.

A progesterona e suas variações aparecem em pílulas de forma isolada, em combinação com estrogênio, no DIU hormonal e em injeções trimestrais. E foram ligadas na análise dinamarquesa a uma maior propensão ao meningioma entre usuárias recentes (uso no último ano).

Em números, os especialistas viram o aumento de risco nas proporções abaixo, a depender do hormônio empregado:

• Desogestrel (como pílula combinada com estrogênio): risco cerca de 66% maior

• Desogestrel (só progesterona): cerca de 73% maior

• Ciproterona: cerca de 61% maior

• Drospirenona: cerca de 58% maior

• DIU hormonal de alta dose (levonorgestrel): cerca de 58% maior, e só depois de mais de 1 ano de uso

• Gestodeno: cerca de 44% maior

• Levonorgestrel (pílula combinada com estrogênio): cerca de 40% maior

• Injeção de medroxiprogesterona: essa foi a exceção “de peso” — risco cerca de 4,5 vezes maior, a mais alta do estudo

Vale notar: o DIU de baixa dose e alguns outros progestagênios não mostraram aumento de risco estatisticamente confiável.

Mas agora o pulo do gato: os cientistas viram um aumento relativo de risco. Não aumento absoluto. E isso importa muito.

Por dentro da estatística

Aqui está o ponto que costuma se perder no meio da notícia. Dizer que o risco é “66% maior” soa assustador, mas o meningioma é um tumor raro. Quando você aumenta um número pequeno em 66%, ele continua sendo um número pequeno.

Os próprios pesquisadores calcularam isso na prática, com uma métrica chamada “número necessário para causar dano” — em outras palavras, quantas mulheres, em média, precisariam usar aquele contraceptivo por um ano para que uma única delas viesse a desenvolver um meningioma a mais do que desenvolveria de qualquer forma. Para a maioria dos métodos analisados, esse número fica na casa das dezenas de milhares a milhões de mulheres-ano, especialmente entre as mais jovens. Mesmo para a injeção de medroxiprogesterona, que teve o maior risco relativo, o número necessário para gerar um caso extra ainda foi da ordem de milhares.

Outra informação esclarecedora: o excesso de risco praticamente desaparece cerca de cinco anos depois que a mulher para de usar o método (com a exceção do desogestrel em pílula combinada, que os autores dizem merecer mais estudos).

O que fazer com essa notícia?

Nada de jogar a cartela de pílulas fora hoje à noite. O recado dos próprios autores do estudo não é “parem de usar contraceptivos hormonais”, mas sim “essa é uma informação relevante para mulheres e médicos conversarem”.

Ou seja: leve o assunto para a próxima consulta com seu ginecologista, especialmente se você já usa esses métodos há muitos anos, se tem histórico familiar de meningioma, ou se simplesmente quer entender melhor as opções disponíveis para o seu caso.

A contracepção hormonal continua sendo, para a imensa maioria das mulheres, segura e eficaz. O que esse estudo dinamarquês traz de novo é apenas mais uma peça no quebra-cabeça — útil para decisões mais esclarecidas, mas não um motivo para pânico.