Um ano após anúncio do tarifaço por Trump, governo Lula vê EUA ‘inflexíveis’ e apresentando questões ‘inegociáveis’

BATANEWS/G1


Especialistas avaliam que, assim como no tarifaço de 2025, existe espaço para o Brasil negociar nesta nova ameaça tarifária dos EUA — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução

Faz exatamente um ano, nesta quinta-feira (9), que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou uma carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na qual anunciou que o governo americano iria impor uma tarifa adicional aos produtos brasileiros vendidos no mercado do país.

Nesse período, os dois presidentes se reuniram algumas vezes, mas a relação, que em determinado momento se mostrou próxima, atualmente está distante, principalmente após o encontro entre Trump e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República.

A percepção da diplomacia brasileira é que, ao longo do último ano, foi possível obter avanços junto ao escritório do representante comercial americano (USTR, na sigla em inglês), em razão das negociações diretas e das conversas entre Lula e Trump — após a assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro do ano passado.

Entretanto, desde maio, segundo diplomatas a par das negociações, o USTR passou a se mostrar “inflexível' nas conversas, sem apresentar “argumentos técnicos consistentes' e tentando dar ao Brasil um tom de que os negociadores deveriam deixar o “orgulho' de lado — diplomatas atribuem a mudança à ida do Flávio Bolsonaro a Washington.

A todo momento, a orientação para a diplomacia foi esgotar os canais de negociação, não abandonar a mesa e não deixar a ideologia contaminar as conversas.

Mesmo assim, com todos os dados — sobre desmatamento e PIX, por exemplo —, o USTR não apresentou contrapropostas a serem debatidas, pedidos concretos ou eventuais caminhos para o entendimento.

O Brasil já apresentou uma proposta de encaminhamento, mas ainda sem decisão.

No MRE, o entendimento de momento é que a decisão já está tomada e, no fim, caberá a Trump — considerado imprevisível.

Além disso, o governo afirma que os representantes do governo americano apresentam questões “inegociáveis', como o PIX, e criam teses “absurdas', como as relacionadas ao entendimento do governo Trump de que o Brasil não atua para combater o desmatamento ilegal.

“Assim fica inviável. Nosso esforço é manter na mesa questões econômicas, comerciais, que podem ser objeto de discussão', afirmou um integrante do governo.

“Espero que tenhamos mais uma reunião, difícil conciliar as agendas, mas é prioridade. Não está adiantando', complementou.

Integrantes do Itamaraty e do Planalto acreditam que Trump quer que o Brasil tenha um presidente mais “amigável' à Casa Branca. Ou seja, que aceite — diferentemente do que Lula tem feito — negociar minerais críticos, etanol e PIX.