Da briga de bar à guerra das facções: como mudou a violência letal em MS

Relatório do Instituto Sou da Paz aponta avanço da influência do crime organizado sobre homicídios

BATANEWS/CGNEWS


Adolescente morto em Caarapó; crime é ligado à disputa entre PCC e Comando Vermelho (Foto: Caarapó News)o de fundo a disputa entre PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho (Foto: Caarapó News)

A violência letal em Mato Grosso do Sul passou por transformação nos últimos anos. Especialistas apontam que uma parcela crescente dos homicídios está ligada à atuação de facções criminosas, impulsionada pela posição estratégica do Estado na fronteira com Paraguai e Bolívia, um dos principais corredores do tráfico internacional de drogas e armas. Apesar de manter índices de homicídios abaixo da média nacional, MS passou a conviver com uma dinâmica de violência cada vez mais influenciada pelo crime organizado.

Se antes a maioria dos assassinatos era motivada por conflitos interpessoais, como brigas de bar, desavenças familiares e crimes passionais, hoje essas mortes ocorrem, com frequência crescente, em um contexto marcado pela disputa por rotas do tráfico e pelo domínio de atividades ilícitas.

O diagnóstico consta no relatório 'Além da Guerra: Organizações Criminosas e a Dinâmica dos Homicídios no Brasil', divulgado nesta semana pelo Instituto Sou da Paz. O estudo analisou dados registrados entre 2018 e 2024 e concluiu que, em diferentes regiões do país, a violência letal passou a refletir a expansão e a reorganização das facções. Em Mato Grosso do Sul, a extensa faixa de fronteira é apontada como um dos principais fatores dessa mudança.

Segundo o levantamento, municípios como Ponta Porã, Coronel Sapucaia, Amambai e Mundo Novo estão entre as áreas mais sensíveis à atuação desses grupos. Nessas cidades, os conflitos nem sempre se traduzem em confrontos armados permanentes, mas envolvem o controle de rotas do tráfico, lavagem de dinheiro, recrutamento de integrantes e influência sobre mercados ilegais.

O relatório aponta que o PCC (Primeiro Comando da Capital) permanece como a principal organização criminosa em Mato Grosso do Sul, resultado de uma presença consolidada ao longo dos anos, especialmente nas cidades de fronteira e nos corredores utilizados pelo tráfico internacional. Ao mesmo tempo, o CV (Comando Vermelho) tem ampliado sua influência no Estado, intensificando a disputa por áreas estratégicas.

Para os pesquisadores, essa mudança altera também a motivação dos homicídios. Em muitos casos, as mortes estão relacionadas à manutenção do poder das facções, ao acerto de contas entre integrantes, à eliminação de rivais e à disputa por mercados ilegais.

Um dos exemplos apontados pelo estudo é Sonora, na região norte do Estado. Localizado próximo à divisa com Mato Grosso, o município registrou episódios de violência associados à disputa entre grupos rivais pelo controle de pontos de venda de drogas e de áreas estratégicas. Nesse contexto, parte dos assassinatos passou a refletir uma disputa mais ampla entre organizações criminosas, deixando de decorrer apenas de conflitos individuais.

No sul do Estado, em Caarapó, um adolescente de 14 anos foi executado a tiros no mês passado. O crime teve como pano de fundo a disputa entre PCC e Comando Vermelho. O jovem era suspeito de integrar o PCC, tinha familiares ligados à facção e já havia sido 'decretado' por integrantes do grupo rival.

Como resposta a esse cenário, o relatório recomenda fortalecer as ações de inteligência, ampliar a cooperação entre as forças de segurança e os países vizinhos e combater as estruturas financeiras e logísticas que sustentam essas organizações na região de fronteira.

Em Mato Grosso do Sul, esse movimento começou a ganhar reforço nesta semana. A Polícia Civil publicou portaria no DOE (Diário Oficial do Estado) criando uma atuação integrada entre os setores de inteligência, departamentos especializados e delegacias da Capital e do interior para intensificar o enfrentamento às facções que atuam no Estado.