Operação da PF contra Jaques Wagner cria embaraços ao PT na Bahia e já preocupa Lula

Presidente tenta impedir que o escândalo do Master afete votação no Nordeste

BATANEWS/VEJA


PRUDÊNCIA - Encontro em evento restrito: presidente foi ao estado, mas evitou aparecer nas ruas com seu aliado (@jaqueswagneroficial/Facebook)

O principal evento cívico da Bahia é o tradicional desfile de 2 de Julho, quando o estado reúne suas principais autoridades locais e algumas nacionais para celebrar nas ruas com milhares de cidadãos a “Independência da Bahia”, festa que relembra a luta para a expulsão das tropas portuguesas da então província em 1823. Em que pese o enorme potencial político de um evento como esse em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participou do ato na quinta-feira, apesar de ter ido à Bahia no dia anterior. Foi sua primeira ausência da festa em cinco anos, denotando uma posição de alerta no território baiano, importante reduto eleitoral do petismo transformado em campo minado pelos estilhaços do escândalo do Banco Master.

Lula claramente evitou aparecer para o grande público ao lado de gente enrolada com o caso. O principal incômodo tem nome e sobrenome: Jaques Wagner, seu ex-líder no Senado, cargo que foi obrigado a deixar após a Operação Compliance, da Polícia Federal, mostrar relação no mínimo imprópria do cacique baiano com o banqueiro Augusto Lima, sócio do Master. Um dia antes, Lula fez um gesto protocolar: em ambiente controlado, com plateia simpática, fez entregas de obras ao lado de seus aliados, entre eles Wagner e o governador Jerônimo Rodrigues (PT), que tem um secretário estadual, Eduardo Sodré (Meio Ambiente), enteado do senador, também implicado no escândalo. O presidente justificou que não poderia ir ao evento popular do dia seguinte porque precisava voar para o Rio Grande do Norte em seguida, já que corre contra o tempo para entregar obras sem ferir a legislação eleitoral (o prazo acaba em 4 de julho).

O temor de Lula não é gratuito. Pesquisa divulgada pela Atlas/Bloomberg na quinta-feira apontou que 74% dos brasileiros acreditam que Wagner recebeu vantagens indevidas do Master. Pior: para 35,6% dos entrevistados, o envolvimento do senador com o caso “afeta diretamente o presidente Lula” e 23,5% dizem que “afeta parte do governo Lula”. Para 39,6%, o episódio “piora muito a imagem do governo Lula”, enquanto outros 17,5% acham que “piora um pouco”. Para complicar, levantamento do Paraná Pesquisas divulgado no dia anterior mostra que os impactos já começam a ser sentidos na eleição estadual: Wagner perdeu 4 pontos na disputa para renovar seu mandato no Senado, enquanto Jerônimo Rodrigues, que tenta a reeleição, viu sua desvantagem crescer para o seu principal rival, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, do União Brasil (veja o quadro), e ainda foi vaiado pela população no desfile do 2 de Julho.

O episódio do Banco Master ainda deixa dúvidas sobre o quanto poderá afetar o projeto eleitoral de Wagner, Jerônimo e o ex-ministro e ex-governador Rui Costa (PT), que tenta se eleger senador, mas sofre também arranhão de imagem por suspeitas de favorecimento aos negócios do Master durante sua gestão. Até agora, a oposição tem ficado majoritariamente em silêncio, demonstrando que o assunto gera verdadeiro constrangimento entre os principais agentes políticos da eleição baiana.

O próprio ACM Neto tem se esquivado de comentar o escândalo e diz à imprensa que não cabe a ele falar sobre a questão. A cautela se dá diante do fato de que ele recebeu 3,6 milhões de reais do Banco Master e da gestora de recursos Reag (que se tornou alvo da PF por suspeita de lavagem de dinheiro), entre março de 2023 e maio de 2024, segundo apontou um relatório do Coaf. Neto afirma que o dinheiro é referente ao pagamento por serviços de consultoria. “O Master envolve políticos de todos os espectros ideológicos. Essa cautela é importante porque muita coisa ainda pode aparecer”, analisa a doutora em ciência política Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Um antigo aliado de Rui Costa ouvido por VEJA apostou que o movimento indica que o Banco Master vai acabar se tornando um “não assunto” na eleição da Bahia, principalmente nos debates.

A Bahia não é um reduto qualquer no xadrez de Lula para obter um histórico quarto mandato. Além de ser o maior colégio eleitoral do Nordeste e o quarto do país, com mais de 11 milhões de eleitores, foi o estado que deu a maior vantagem em votos ao petista em 2022: Lula saiu de lá no segundo turno com 3,7 milhões de votos a mais que Jair Bolsonaro, diferença fundamental para garantir a vitória nacional, obtida com uma vantagem de 1,8 milhão de votos sobre o rival. Além disso, a Bahia é a principal vitrine do petismo, que governa o estado há cinco mandatos, desde que Jaques Wagner derrotou o “carlismo”, em 2006. O senador não é um político qualquer: ele é amigo de longa data de Lula e o maior cacique político da mais longa hegemonia já construída pelo PT no país.

Resistente no início a entregar o cargo de líder do governo no Senado, apoiou-se em Lula o tempo todo e só saiu quando o presidente deixou claro, em conversa direta, que ele precisava se desvincular do governo. Mesmo assim, Wagner não dá sinais de que vai descolar sua imagem de Lula. “A gente tem muito orgulho de caminhar ao seu lado, presidente”, postou logo após participar da inauguração de um hospital em Alagoinhas com o presidente. “A Bahia segue a escola do presidente Lula. Foi com ele que todos nós aprendemos a governar bem e a cuidar das pessoas”, reforçou.

Herdeiros políticos de Wagner, tanto Jerônimo quanto Rui Costa tentam fingir normalidade em meio ao escândalo do Master. Jerônimo não se faz de rogado. Sempre que pode, tira foto com o padrinho e sai em defesa do senador em discursos. Em um deles, chegou a se emocionar e dizer, com a voz embargada, que confia nele e o ama. “Único erro de Jaques Wagner é cuidar de pobre”, disse em defesa do aliado, que é suspeito de ter ganho um apartamento avaliado em 2,45 milhões de reais do Master, além de benefícios pessoais, como o uso de aeronaves e ingressos para um show da cantora Taylor Swift nos EUA. Também pesa contra Wagner o fato de seu enteado ter recebido 3,5 milhões de reais do banco, supostamente de forma a ocultar pagamento indevido ao senador, além de a PF ter encontrado meio milhão de reais em dólares e euros em dinheiro vivo nas buscas.

Embora o episódio não tenha se tornado, ainda, um tema central na campanha baiana, o risco de ser atingido pelo escândalo do Master tem moldado as ações de Lula. Uma das preocupações agora é evitar que, pelo seu tamanho e importância política, a contaminação baiana atinja o Nordeste. Pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda-feira 29, mostrou queda de 4 pontos percentuais do petista entre o eleitorado nordestino, em comparação com a rodada feita antes da ação da PF contra Wagner. “Essa investigação contra o Wagner pegou muito mal, porque ele é ‘o bruxo’, o grande líder do PT na Bahia. Com certeza vai prejudicar muito ele, o Jerônimo, o Rui Costa, o Lula”, afirmou uma liderança da oposição. Para o cientista político Eduardo Grin, da FGV-SP, ainda não é possível dizer que haverá um real prejuízo eleitoral. “Lula perdeu votos no Nordeste todo, não apenas na Bahia. Não dá para fazer essa relação direta. Se há uma perda de votos na região, isso se deve a outros fatores, como o endividamento das famílias, a inflação de alimentos”, diz.

O cuidado do PT com seus preciosos votos no Nordeste ocorre também porque o partido e seus aliados enfrentam dificuldades nas disputas estaduais que não eram comuns em maratonas eleitorais recentes. Além da Bahia, há dificuldade para a tentativa de reeleição no Ceará (com Elmano de Freitas) e na manutenção do comando do estado no Rio Grande do Norte (com Cadu Xavier, aliado da governadora Fátima Bezerra, que não pode mais se reeleger). Somente no Piauí, com Rafael Fonteles, o PT tem, por ora, caminho tranquilo para vencer. Boa parte dessa dificuldade tem a ver com o longo domínio da esquerda na região, construído a partir da primeira vitória de Lula em 2002, e o natural desgaste junto ao eleitorado. “O Nordeste seguirá sendo lulista, mas, até pelo que a eleição municipal mostrou em 2024, que o bolsonarismo cresceu na região, Lula vai ter uma vantagem um pouco menor do que teve em 2022”, diz Grin, lembrando que, até por isso, o PT busca erguer palanques fortes no Sudeste, como em São Paulo (leia a reportagem na pág. 36).

Desta vez, ao que parece, o Nordeste dificilmente vai consagrar Lula nas urnas como no passado. Na Bahia, o petista teve mais de 70% dos votos em 90% dos municípios em 2022. Os problemas conhecidos de gestão — como o agravamento da violência, que encontra em estados como Bahia e Ceará algumas das taxas mais altas do país — e o desgaste pelos anos de hegemonia política já seriam suficientes para piorar a performance eleitoral. Mas ter de explicar como um grão-petista recebeu milhões de reais e um apartamento em área nobre de Salvador, além de outros mimos, de um banqueiro enrolado em escândalos certamente não ajuda. Lula sabe disso. O alerta já foi ligado.

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002