Política
A multidão desiludida: decepção com a política cresce no país e será decisiva nas eleições
Sentimento ultrapassa a polarização e atinge quem não vota ou opta pelo “menos ruim'
BATANEWS/VEJA
Foi na esteira da vitória das forças aliadas sobre ditadores que avançavam sobre territórios na Europa e no Pacífico, ao fim da II Guerra, que a democracia liberal se consolidou na maior parte do Ocidente na segunda metade do século XX, estabelecendo, com falhas, é verdade, mas abrangência nunca vista — um sistema calcado em eleições livres, separação entre poderes, instituições independentes e liberdade de expressão. A nova ordem trouxe consigo um vento de esperança: votava-se acreditando que os eleitos trabalhariam por um mundo melhor. Passados oitenta anos do fim do conflito mais sangrento da história moderna, uma grande parcela da população cansou de esperar.
Insatisfeitos, sentindo-se à margem do progresso visível, eleitores do mundo todo puseram-se a pôr em xeque a política tradicional, incapaz de dar respostas rápidas para as mudanças na sociedade, um movimento iniciado no naco rico do globo que logo atravessou oceano e hemisfério rumo ao Sul. A reviravolta teve dois resultados, um bem evidente, outro mais sutil. De um lado, viabilizou a ascensão de figuras radicais que souberam canalizar a seu favor o descontentamento generalizado. De outro, abriu as comportas para uma sensação melancólica pela própria natureza — a desilusão com tudo isso o que está aí (veja o quadro abaixo).
No Brasil, a constatação se traduz em números em recente pesquisa conduzida pelo cientista político Jairo Pimentel, da Fundação Escola de Sociologia e Política (Fesp-SP): entre 1 500 entrevistados sobre o sentimento predominante na hora de votar, 41% cravaram “decepção”, 9 pontos a mais do que há vinte anos, quando o levantamento começou a ser feito. “A decepção está relacionada à incapacidade dos sucessivos governos de conseguir resolver problemas básicos da população, como saúde e educação”, observa Pimentel. Tal qual no samba de Paulinho da Viola, sobram desiludidos nessa dança que tem tudo para ditar o ritmo das eleições de outubro. Tomando-se por base a conhecida divisão das intenções de voto no país — um terço à direita, um terço à esquerda e um terço de independentes, nem lá nem cá —, observa-se que o desencanto, como era de se esperar, predomina na “turma do meio”, os moderados que não se alinham aos extremos do espectro político e que muitas vezes nem se dão ao trabalho de votar. Mas o desalento também está presente nas duas pontas opostas, encarnado naquele eleitor que deposita seu voto sem muita convicção, optando pelo “menos pior”.
Na estridente arena do debate político público, marcada pela polarização, a maioria já decidiu seu candidato, mesmo antes de as chapas estarem oficialmente formadas. Sendo assim, o alvo preferencial de todas as campanhas é justamente esses eleitores que não se veem representados pelas forças majoritárias rivais, estão cansados de bate-boca e muitas vezes preferem se abster. A decepção, no entanto, não se restringe a esse segmento — é bem mais ampla, acirrando ainda mais a briga pelo voto de cada um. “A falta de engajamento será decisiva, já que o grupo dos desiludidos é numericamente relevante para decidir a eleição”, explica Felipe Nunes, CEO da Quaest. Casada com um apoiador fiel do presidente Lula (PT), Juliana Martins, 41 anos, de São Paulo, está farta das acaloradas discussões que costumam contaminar os encontros familiares quando alguém manifesta apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). “Saio de perto, porque não quero dar meu voto para nenhum dos dois candidatos, que só atuam olhando para o próprio bolso, os próprios interesses”, desabafa.
A abstenção é o maior marcador da desilusão do brasileiro. A curva da ausência no dia da votação tem subido consistentemente desde 2006 — desde então, o índice saltou de 17% no primeiro turno para bater os 22% na última eleição presidencial. O aumento retira da apuração final quase 800 000 pessoas e assim tende a se manter, nas estimativas da Quaest. “Há uma parte pequena e mais sofisticada que é conceitualmente contra a obrigatoriedade do voto, mas a maioria age dessa forma por pura falta de interesse”, avalia Márcia Ribeiro Dias, professora da Unirio, que se dedica a estudar o tema.
Com os extremos solidamente amarrados em suas convicções, a conquista dos eleitores sem ânimo para depositar seu voto é o ponto crucial das campanhas deste ano. Lula, o candidato do PT, acossado por um índice de rejeição de 53%, registrou avanços nessa seara após o episódio do financiamento do filme Dark Horse envolvendo Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mas está longe de ter lugar seguro nas preferências. Pelo contrário: o perfil dos mais inclinados a se abster coincide com a parcela que costuma votar nos candidatos de esquerda. Em geral, é gente que tem mais de 60 anos, baixa escolaridade e renda de até dois salários mínimos. “As campanhas precisam mobilizar esses eleitores para tirá-los de casa”, diz Felipe Nunes. O quartel-general petista aposta em programas que possam ter impacto direto na vida da população, como o fim da escala 6×1 e a maior isenção do imposto de renda, ambos integrantes do pacote de bondades que será apresentado a partir de agosto, na tentativa de reverter o sentimento de decepção. “Defendemos reformas para ampliar a participação da população no processo decisório em todas as instâncias — municípios, estados e União”, diz Edinho Silva, presidente do PT e coordenador da pré-campanha.
Do lado oposto do ringue, Flávio Bolsonaro, também com elevada rejeição (56%), centra fogo no desejo de mudança para minar o adversário. Mensagens com foco na segurança pública e na economia, dois pontos avaliados como fraquezas do governo, deverão inundar os poderosos canais digitais da direita. Endividamento das famílias, inflação e perda de poder de compra também estão entre os alvos das peças publicitárias. Na avaliação interna, os programas de benefícios apresentados pelo governo nesta seara já teriam causado o efeito pretendido e até outubro seu impacto terá o prazo de validade vencido. “Mesmo sem convicção, o eleitor terá de fazer uma escolha e ela pode muito bem ser tirar o PT do jogo”, avalia um dos mandachuvas da campanha do PL.
Nenhum dos dois candidatos, no entanto, aparece perante esse eleitorado relutante como aquilo que os grupos focais e as pesquisas qualitativas apontam como sendo seu maior anseio: uma novidade. Lula evidentemente é o oposto do novo, concorrendo ao quarto mandato e, de uma forma ou de outra, participando das eleições presidenciais desde 1989. Flávio Bolsonaro está na primeira tentativa, mas é visto como continuação do pai, Jair, que já ocupou o Palácio do Planalto e não foi reeleito para o cargo. Um outsider com chances de competir teria maior poder de mobilização junto a esse público, e é nisso que apostam os demais pré-candidatos, mas até agora sua recepção tem sido menos do que morna. “Esse eleitor que busca o novo está conformado com a falta de alternativa fora da polarização e fica variando entre a abstenção ou voto nulo e a tomada de decisão por um dos lados, sem entusiasmo”, explica Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, que acompanha de perto o sobe e desce das preferências.
Outro sentimento mapeado como reflexo da falta de perspectiva é o cansaço com o bate-boca, às vezes em termos grosseiros, que não acaba nunca. É difícil encontrar alguém que nunca tenha ao menos assistido às acaloradas discussões em almoços de família e grupos de WhatsApp, o que intensifica a desagradável constatação de que a política invadiu esferas que deveriam pertencer à vida privada de cada um. A exposição frequente a esse tipo de estresse resultou no surgimento de uma nova categoria de esgotamento emocional: o burnout cívico. “É um mix de sensações que envolve saturação e medo de quebrar vínculos emocionais pela manifestação da opção política”, explica Lilian Sendretti, pesquisadora que cunhou o termo a partir de entrevistas com eleitores. O fenômeno está presente nas situações mais cotidianas. Motorista de aplicativo na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Gabriel Henrique Américo, 27 anos, deixou de discutir política com os passageiros, uma espécie de esporte nacional na sua profissão. “Não existe mais diálogo, ninguém escuta ninguém. Se discordo, corro o risco de ser denunciado e perder a licença”, diz.
Decepcionada, a população foge cada vez mais dos partidos e de outras organizações políticas que sustentam o sistema de representação democrática. Um painel do cenário eleitoral conduzido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) revela que 73% dos entrevistados não têm nenhuma simpatia pelas legendas que estão aí. “Houve uma mudança na forma de pensar a política”, alerta Renato Cervi, professor da UFPR. “A capacidade de vocalização dos extremos foi amplificada, o que nos dá a impressão equivocada de que são majoritários.” A nova dinâmica desfere um duro golpe na moderação, o famoso centro, característica da qual muitos eleitores desalentados dizem sentir falta. Adepto do que considera ser “a extrema exceção”, trocadilho com as radicalizações que usa para explicar sua pendência para a direita em certos aspectos e para a esquerda em outros, o empresário Gerson Mazer não pretende sair de casa no dia da votação se a briga no segundo turno corroborar as pesquisas e for decidida entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. “Sou progressista nos costumes e liberal na economia, mas os dois candidatos não passariam em um teste ideológico nem no próprio campo”, critica.
A pesquisa da Fesp sobre os sentimentos do eleitor na hora de votar — que não deve ser confundida com os levantamentos sobre intenção de voto — vai além da decepção ao retratar a crise de confiança atual. Na contagem geral, todos os pontos negativos subiram — além dos 41% no quesito “desilusão”, a “raiva” cresceu 12 pontos, para 28%, e o “medo”, 2 pontos, para 26%. Do outro lado da balança, as sensações positivas despencaram: 24 pontos a menos na “esperança”, 9 no “entusiasmo” e 7 no “orgulho”.
Em outros países assolados pelo flagelo da desilusão, a reação foi o surgimento de figuras antissistema e ultraliberais, a começar por Donald Trump, nos Estados Unidos, acompanhado por Javier Milei, presidente da Argentina, Abelardo de la Espriella, com grandes chances de se tornar o próximo mandatário da Colômbia, e Nigel Farage, no Reino Unido — uma figura tratada como piada até abraçar a causa do Brexit, ganhar popularidade e acumular cacife para trucidar conservadores e trabalhistas se as eleições fossem hoje. Na falta de salvadores da pátria, sobem às alturas os índices de abstenção nas nações onde o voto não é obrigatório. No Brasil, onde fenômeno semelhante começa a se repetir, só o debate político de alto nível e o surgimento de ideias inspiradoras têm o poder de reverter o quadro de cansaço e desilusão dos eleitores até as urnas, em outubro. Ainda há tempo.
Com reportagem de Paula Freitas e Rayssa Motta
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000





