Saúde
Quais procedimentos estéticos as grávidas podem fazer? Especialistas respondem
BATANEWS/FOLHA
A gravidez transforma o corpo feminino de maneira profunda. Em poucas semanas, hormônios, circulação sanguínea, metabolismo e pele passam por adaptações intensas para sustentar o desenvolvimento do bebê.
Essas alterações provocam mudanças na pele e no corpo e podem influenciar na decisão da mulher de fazer um procedimento estético. Mas é seguro?
Por razões éticas e de segurança, a maioria dos produtos e procedimentos não é testada em gestantes. Assim, a medicina trabalha com estudos observacionais, dados de farmacovigilância, relatos de casos e diretrizes de sociedades médicas.
'A obstetrícia trabalha com o princípio da precaução. A orientação deve ser individualizada considerando o tipo de procedimento, as substâncias utilizadas, as vias de administração e absorção, a fase da gravidez e o histórico da paciente', afirma a obstetra Isabel Botelho, do grupo Santa Joana.
Certas substâncias absorvidas pela pele podem alcançar a circulação sanguínea e atravessar a placenta. O primeiro trimestre de gestação exige cuidado redobrado.
'É quando ocorre a formação dos órgãos do embrião. É o período de maior vulnerabilidade fetal', diz a obstetra. 'Nos trimestres seguintes, a preocupação maior passa a ser toxicidade fetal, crescimento e efeitos inflamatórios no bebê.'
Durante a gestação, o aumento de hormônios como estrogênio e progesterona provoca maior vascularização da pele, retenção de líquidos e alterações na barreira cutânea. Isso ajuda a explicar o surgimento de melasma, manchas escuras que atingem grande parte das grávidas.
Segundo Flávia Ravelli, dermatologista associada à SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), estrias e acne também estão entre as principais queixas das gestantes. Após o parto e durante o período de amamentação, as reclamações incluem flacidez, gordura localizada, olheiras escuras e pele opaca.
Há ainda um componente emocional, sobretudo nos primeiros meses de gestação. 'Nesse momento inicial, [existe] a preocupação em não ganhar peso de forma excessiva, cuidar da pele para não desenvolver estrias e o medo de não conseguir voltar a ser como antes pela imposição estética desumana imposta pela sociedade', afirma.
Gestante por duas vezes, a médica veterinária Mariana Flocke, 39, conta que interrompeu a aplicação de toxina botulínica.
'As marcas de expressão estavam mais evidentes e me incomodavam, e o botox naquele momento ajudaria a atenuar', diz. 'Com os bebês já nascidos e quando era seguro, optei por voltar a fazer. Esteticamente me deixa feliz.'
O período de aleitamento também exige cautela, visto que a algumas substâncias podem ser excretadas no leite materno.
De acordo com a obstetra, o ideal é aguardar o término do puerpério imediato e a recuperação materna antes de retomar tratamentos estéticos.
'Os procedimentos mais simples podem ser considerados depois de seis semanas, enquanto os mais invasivos exigem um intervalo maior, principalmente pela cicatrização tecidual, estabilidade hormonal e amamentação em curso', diz Botelho. Além disso, após uma cesárea é importante respeitar o tempo de maturação da cicatriz antes de intervenções locais.
A drenagem linfática manual é permitida durante a gravidez. Ajuda a estimular o sistema linfático e aliviar o edema causado pelo aumento do volume sanguíneo e da compressão dos vasos pelo útero.
'A grávida deve ficar preferencialmente em decúbito lateral esquerdo ou sentada. Deve ser realizada de forma suave, sem pressão exagerada e sem manobras compressivas', recomenda Ravelli.
Limpeza de pele, hidratação facial e corporal e alguns ativos dermatológicos também são considerados seguros —vitamina C, niacinamida, ácido azelaico, ceramidas, pantenol e ácido glicólico podem ser usados em baixas concentrações.
Foram essas as alternativas encontradas por Flocke para manter uma rotina de skincare durante a gravidez. Além de inchaço corporal, ela se queixava de manchas e de um aumento da oleosidade no rosto e procurou um dermatologista. 'Fazia drenagem linfática, limpeza de pele e usava produtos específicos para gestantes.'
De acordo com a dermatologista, os retinois orais são proibidos durante a gestação, e os tópicos devem ser evitados. Prescritos para tratamentos antiacne e antienvelhecimento, podem interferir na diferenciação celular do embrião e causar malformações.
Indicada para tratar manchas, a hidroquinona possui elevada taxa de absorção cutânea e não deve ser usada. Também são proibidos peelings, máscaras e produtos de uso tópico que contenham altas concentrações de ácido salicílico, usado no tratamento de acne e oleosidade.
Focados na produção de colágeno e redução de rugas, procedimentos com energia térmica, como laser e ultrassom, também não devem ser feitos. 'A radiofrequência é contraindicada porque cria campos eletromagnéticos e calor profundo, o que teoricamente pode interferir na circulação fetal', afirma Ravelli.
Da mesma forma, tratamentos injetáveis não são recomendados. Embora a toxina botulínica tenha ação local, faltam estudos sobre segurança fetal, e o preenchimento com ácido hialurônico implica uso eventual de medicamentos incompatíveis com gestação e amamentação.





