Guerras comerciais, sanções e conflitos colocam agronegócio brasileiro diante de nova ordem global

Especialistas alertam que fim da estabilidade geopolítica aumenta riscos para cadeias agrícolas, mas também amplia espaço do Brasil como fornecedor estratégico de alimentos e energia.

BATANEWS/OPR


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O agronegócio brasileiro entrou em uma nova fase de exposição às tensões globais. Após décadas de crescimento sustentado por abertura comercial, previsibilidade econômica e expansão da demanda internacional, o setor passou a operar em um ambiente marcado por conflitos geopolíticos, disputas comerciais, reorganização das cadeias globais e maior volatilidade estratégica. A avaliação é de especialistas que analisam os impactos da transição do mundo unipolar para um cenário multipolar sobre a produção agrícola, o comércio internacional e a competitividade brasileira.

De acordo com o professor da Fundação Getulio Vargas e pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace, Oliver Stuenkel, o avanço do agro brasileiro ocorreu em um contexto internacional muito específico, que hoje começa a se desfazer.

Entre 1990 e 2015, o mundo operou sob uma estrutura de relativa estabilidade geopolítica, marcada pela predominância dos Estados Unidos, pela ampliação do comércio global e pela previsibilidade nas relações internacionais. Foi nesse ambiente que o Brasil consolidou sua posição como potência agrícola.

A partir da última década, porém, a dinâmica mudou. O crescimento das disputas entre grandes potências, as guerras comerciais, os conflitos regionais e o aumento das sanções econômicas passaram a afetar diretamente cadeias globais de suprimento, logística, fertilizantes, energia e comércio de commodities agrícolas. “Conflitos são o novo normal em um mundo multipolar. É necessário ter monitoramento constante do cenário político para saber de que forma um futuro conflito pode impactar seu negócio. Ao invés de reagir, as empresas precisam se preparar, serem proativas”, afirmou Stuenkel.

Apesar do aumento da instabilidade global, especialistas avaliam que o novo cenário também cria oportunidades para o Brasil ampliar sua relevância internacional.

A condição de grande exportador de alimentos, proteína animal, biocombustíveis e commodities agrícolas coloca o país em posição estratégica diante da necessidade crescente de segurança alimentar e energética.

Segundo Stuenkel, o Brasil tende a ganhar espaço justamente por ser percebido como fornecedor confiável e relativamente distante dos principais focos de tensão geopolítica.

O movimento ganha força principalmente com o aumento da demanda asiática por alimentos, especialmente de China e Índia, além da expansão das agendas ligadas à transição energética e à descarbonização.

Nesse contexto, produtos ligados ao agronegócio brasileiro passam a ocupar papel ainda mais relevante no comércio internacional, tanto no abastecimento alimentar quanto na produção de energia renovável.

A reorganização global também amplia a importância da tecnologia agrícola e do acesso à inovação dentro da cadeia produtiva da soja. Dados apresentados pelo líder de negócios de soja da Bayer no Brasil, Fabiano Oliveira, mostram que a demanda global pela oleaginosa dobrou nas últimas duas décadas, sendo o Brasil responsável por cerca de 60% desse crescimento. “A biotecnologia se tornou um dos principais fatores de sustentação da competitividade brasileira no campo”, afirmou.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Semente de Soja (ABRASS), André Schwening, avalia que a semente passou a concentrar boa parte da evolução tecnológica da sojicultura nacional. “A semente é responsável pelo principal incremento de tecnologia para a sojicultura brasileira. O multiplicador não vende um insumo, vende anos de pesquisa e investimentos concentrados em um único grão”, enalteceu.

Segundo Schwening, o setor de sementes enfrenta hoje desafios adicionais relacionados à redução das margens, menor liquidez, insegurança jurídica e avanço da pirataria. “Nossa maior força está na união. No final do dia, o que sustenta qualquer setor não é a margem, são as relações construídas. Tudo começa na semente. É na semente que o futuro se constrói”, destacou.

O debate sobre os impactos da nova geopolítica global sobre o agronegócio brasileiro ocorreu durante a 4ª edição do Encontro Nacional dos Produtores de Sementes de Soja (ENSSOJA), realizado em Foz do Iguaçu (PR) pela ABRASS.