Novas pesquisas alertam: o estresse provoca mais danos ao organismo do que se imaginava

Guerras, turbulências econômicas, crises ambientais, polarização, violência, intoxicação digital e medo do desemprego. Estudos mostram o custo dessa carga

BATANEWS/VEJA


 (Erdem Cetinkaya/Getty Images)

Nada reflete tão bem o estado de espírito da espécie humana hoje. Se é entre telas que passamos cerca de um terço dos nossos dias, é nelas que procuramos as respostas para nossas angústias. E é por isso que quem pinta o retrato fiel e inquietante da nossa era só podia ser o Google, o maior sistema de buscas on-line. As pesquisas relacionadas ao tema “sentir-se estressado” atingiram, em 2026, o pico histórico de uma série acompanhada pela gigante da tecnologia desde 2004.

O boom de interesse é puxado pelos Estados Unidos, nação por trás de uma sequência de tensões globais, mas o Brasil alimenta a tendência. Por aqui, quatro em cada dez cidadãos relatam conviver com a ansiedade, uma das facetas mais visíveis e prejudiciais do estresse. Entre a conta a pagar e a meta a bater, entre as notícias de guerra lá fora e os crimes hediondos nas vizinhanças, entre a catástrofe climática e as eleições polarizadas, entre o drama pessoal e o coletivo, dentro e fora das telas somos bombardeados por situações que despertam uma das mais primitivas reações do organismo.

A exemplo de Atlas, o ser mitológico castigado com a incumbência de carregar a abóbada celeste nas costas, agora somos nós que sentimos o peso do mundo nos ombros. Mas não somos titãs. Somos de carne e osso, sobrecarregados mentalmente, e podemos ruir. E não é por menos que o estresse crônico, com sua lista de consequências nada triviais, tornou-se uma questão de saúde pública.

O brasileiro sabe bem do que estamos falando, ainda que nem sempre tenha consciência dos riscos associados à descarga dos hormônios do estresse. No novo estudo Mapa da Felicidade Real no Brasil, que ouviu 1 500 pessoas de todas as regiões e classes sociais do país, a pesquisadora Renata Rivetti descobriu que, embora a maior parte dos entrevistados se sinta feliz, ao redor de 30% lidam com o estresse e a ansiedade como os sentimentos mais frequentes na rotina.

Outro dado que chama a atenção é que a nova geração se vê muito menos satisfeita do que o público acima de 60 anos — dentro e fora do trabalho. “O jovem de hoje está bem mais preocupado, e um quinto dessa população diz que não tem com quem contar”, destaca Rivetti. Incerteza sobre o futuro, isolamento social… Uma receita para nervos à flor da pele. A despeito da faixa etária, os achados do levantamento mostram, segundo a pesquisadora, que é preciso relativizar a imagem de um país alegre: “Somos, na verdade, um país de resiliência ativa”.

Outro mapeamento corrobora o cenário estressante em que nos metemos. No estudo Tensões Culturais 2026, realizado pela consultoria Quiddity, novos fenômenos e expressões vieram à baila após 1 355 entrevistas com pessoas de 18 a 64 anos. Os brasileiros perseguem o otimismo como tática de sobrevivência, o que cobra um preço emocional — 43% afirmam sentir ansiedade no cotidiano —, e encaram o que os analistas chamam de “erosão silenciosa” — mesmo tocando a bola para a frente, um em cada três indivíduos não se vê motivado para as tarefas diárias.

Além disso, cada vez mais dependentes das telas, eles se sentem “infoxicados”, termo que resume a exposição sem filtros a conteúdos de todos os tipos. “Nossa pesquisa mostra que, por trás da resiliência, há um custo: a normalização do caos”, diz Rebeca Gharibian, diretora-geral da Quiddity. É assim que, longe da realização ou do alívio, os brasileiros vivem sob as sombras da tensão e do cansaço.

Mas ao menos é possível notar que há um movimento de despertar para esse diagnóstico. Dados colhidos pela Ipsos colocam o país entre os cinco mais estressados do globo — junto com os EUA — e apontam que um terço da nossa população considera o estresse um dos maiores problemas de saúde hoje.

A grande questão é: como chegamos a esse ponto? “O mundo mudou muito mais rápido do que nossa biologia conseguiu acompanhar”, afirma a médica Regina Chamon, pesquisadora e autora do livro Desestresse: Ciência e Prática para Uma Vida Mais Leve e Saudável (Editora Manole). “Agora, nossas principais ameaças não são físicas, mas mentais.” E aqui chegamos à definição de estresse: uma resposta fisiológica de luta ou fuga para vencer os obstáculos que enfrentávamos nas savanas milhares de anos atrás e agora dão as caras no trânsito infernal das grandes cidades. O cérebro emite um sinal de alerta, hormônios são liberados, e o corpo se prepara para a batalha.

Essa resposta biológica, cabe frisar, é bem-vinda para a sobrevivência. O problema é que ela se tornou crônica. “Temos um sistema nervoso desenhado para responder a ameaças agudas, mas hoje ele é exposto a estímulos constantes e difusos, do excesso de informação à ausência de pausas reais”, diz o médico Rafael Gratta, que tem mais de 4 milhões de seguidores nas redes sociais e acaba de lançar o livro Mais Foco, Menos Ansiedade (Intrínseca). Para ele, porém, o conflito armado na mente não se resume à biologia — é existencial. “O ser humano perdeu previsibilidade e pertencimento. O cérebro interpreta essa falta de controle como ameaça”, afirma.

As feras de hoje, metáforas dos animais predadores da pré-história, são a demanda por alta performance, o medo de perder o emprego para a IA, o deslocamento insano para o trabalho, a insegurança, a desigualdade e o feed interminável de notícias por vezes chocantes. Tentamos, enfim, ser um Atlas suportando o globo nas costas sem tirar os olhos do celular — e hoje sofremos de dependência digital a “ecoansiedade”, o temor pelo futuro de uma Terra já afetada pelas mudanças climáticas. Entre os monstros reais ou imaginários, o cérebro pode entrar em curto-circuito, com consequências de curto e longo prazo para outros cantos do organismo.

As pesquisas de laboratório focadas no estresse começaram oficialmente nos anos 1930, com os experimentos do endocrinologista de origem austro-húngara Hans Selye (1907-1982). Ele foi o primeiro médico a enxergar que o estado crônico de alerta abria as portas a uma série de doenças que apareciam sem motivo aparente. Desde então, o conhecimento sobre essa reação inata aos seres vivos se expandiu e vem mostrando que o estresse é um catalisador de enfermidades que podem atingir sistemas cruciais como o nervoso, o imunológico e o circulatório. “Essa reação crônica é uma bomba-relógio. Já foi associada a problemas gastrointestinais, doenças na pele e até ao Alzheimer”, diz o psicólogo Armando Ribeiro, especialista em gestão do estresse pela Universidade Harvard, nos EUA.

Há décadas se observa que o nervosismo, silencioso ou não, maltrata o coração. De fato, a relação é uma das mais estudadas na literatura médica. Mas uma revisão recente detalha como o estresse catapulta a inflamação, contribuindo para o entupimento das artérias e, consequentemente, infartos e AVCs. E a bomba não se resume a isso. Ele ainda promove pressão alta e arritmias cardíacas, em um combo nada auspicioso para o peito.

No cérebro em si, um dos campos efervescentes de pesquisa é o que busca esmiuçar o papel do estresse (e da inflamação) na eclosão do Alzheimer e outras demências. E um novo estudo reforça a hipótese de que a tensão desencadeia um desequilíbrio entre vias nervosas e imunológicas, criando um ambiente tóxico aos neurônios. Não é à toa que a saúde mental já configura um dos pilares inegociáveis para reduzir o risco de doenças neurodegenerativas. Muito além delas, a gestão do estresse é encorajada por especialistas como forma de mitigar os sintomas e as crises associadas a condições tão díspares como problemas autoimunes, dermatites e dores crônicas. E, embora ele não possa ser considerado uma causa direta do câncer, sabe-se que, na sua presença, as chances de recuperação são abaladas.

No fundo, não dá para culpar os nervos por todos os males do mundo, mas já existem provas suficientes de que, como tudo está conectado no organismo, eles influenciam o aparecimento ou a piora de uma gama de enfermidades. Nesse enredo, uma peça cada vez mais sob holofote é o cortisol, o chamado hormônio do estresse. Ele é produzido pelas adrenais, glândulas acima dos rins, em resposta ao comando cerebral. Há um pico natural de descarga pela manhã, para nos empurrar para a vida, com uma queda à medida que a noite chega, a fim de permitir o descanso.

O problema é que, sob altos níveis constantes, há um efeito dominó metabólico, com repercussões potencialmente graves. Para o fisiologista americano Shawn Talbott, autor do best-seller Nação Cortisol (Citadel Editora), esse hormônio ajuda a entender também por que tanta gente está engordando hoje. Ao desregular fluxos vitais, a substância alteraria o controle do apetite e favoreceria o acúmulo de gordura no corpo. Não é mera coincidência o termo ter decolado nas buscas do Google.

Diante de evidências tão desabonadoras, fica a questão: quando e como devemos domar o estresse? À primeira pergunta, a resposta é: desde o berço, ou melhor, desde a gestação. Estudo atrás de estudo mostra que mães sob situações estressoras tendem a gerar filhos com maior risco de comprometimentos à saúde. Na infância, por sua vez, adversidades na família ou na escola têm de ser rastreadas e peitadas. Crianças que vivem sob tensão, velada ou não, continuam apresentando inflamação sistêmica — fator de risco para diversas doenças — até 20 anos mais tarde, segundo um experimento que corrobora a necessidade de quebrar esse círculo vicioso desde cedo.

Não é preciso dosar seu cortisol no sangue para saber seu nível de estresse. Os sinais são bem mais visíveis: aparecem sob múltiplas formas, como palpitações no peito, lapsos de memória, indisposição, fadiga, isolamento, desavenças sociais… Como é impossível — nem seria desejável — viver sem estresse, o objetivo central proposto por experts de diversas linhas é aprender a geri-lo. “A base de tudo é um estilo de vida que deixa o organismo mais resiliente para os desafios cotidianos, com sono de qualidade, alimentação adequada e atividade física regular”, diz a pesquisadora Regina Chamon.

Algumas atitudes, em particular, parecem ser decisivas para carimbar o passaporte de saída da “nação cortisol”. No ambiente do trabalho, a psicóloga Aline Wolff, que acompanhou o Comitê Olímpico do Brasil e leva lições do mundo esportivo para o corporativo em Alta Performance Sustentável (Planeta), recomenda romper com a imagem de uma vida sobre uma gangorra que opõe o desempenho ao bem-­estar. “Isso cria ciclos em que a pessoa trabalha demais e adoece, depois se recupera e volta, mas em seguida se esgota de novo. É uma montanha-russa emocional e profissional”, compara.

Em um mundo rodeado de telas, impor limites ao turbilhão de impulsos gerados por plataformas como as redes sociais é outra estratégia indiscutível. E quem assina embaixo é ninguém menos que um criador de conteúdos com milhões de seguidores na internet. “O que busco é usar essa mesma estrutura como vetor de consciência. Em vez de mais estímulos, tento criar interrupções e momentos de reflexão”, relata o médico Rafael Gratta. “É quase como utilizar o sistema contra ele próprio.”

Já o cardiologista americano Eric Topol, um dos maiores nomes na pesquisa sobre envelhecimento da atualidade, defende que não se pode falar de longevidade abrindo mão da saúde mental. Em Super Agers (Editora Artmed), livro recém-lançado no país, ele prescreve uma rotina de sono, movimento físico e maior contato com a natureza — um desestressante fenomenal. Segundo o especialista, uma revisão de mais de 140 estudos associou a exposição a espaços verdes a menos doenças físicas e psíquicas e à redução da mortalidade por todas as causas. E se perguntarem ao filósofo sul-coreano radicado na Alemanha Byung-Chul Han, um dos mais eminentes pensadores contemporâneos, onde a humanidade está falhando, provavelmente ele vai citar a falta de atenção e contemplação ensejada por vidas tão aceleradas. Presos às telas, corremos o risco de perder a capacidade de encontrar algum tipo de transcendência — um remédio para os males da alma.

Ocorre que, se lançarmos a tarefa de aplacar o estresse apenas a quem vive sob o domínio dele, corremos o risco de reencenar o mito de Atlas — transferindo o peso do mundo às costas de um indivíduo. O tratamento da crise coletiva de saúde mental, portanto, demanda políticas públicas e uma reestruturação das dinâmicas de cuidado. A jornalista americana Rina Raphael empreendeu, em O Culto do Bem-Estar (Contexto), uma investigação sobre como a indústria do wellness capturou milhões de mulheres com promessas de terapias sem embasamento científico para curar a mente e o corpo.

O apelo dos charlatões, inclusive para subjugar o estresse, vem de algo que, por diversas razões, a medicina tradicional deixou de fornecer a contento. “Eles oferecem três palavras muito importantes para quem está sofrendo: ‘Eu te escuto’”, diz a autora. A mudança, quem sabe, pode começar por aí, com diálogo e acolhimento — e não apenas com pesquisas no Google.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994