Morte acende alerta sobre coleta de óvulos; entenda os riscos do procedimento

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A juíza Mariana Francisco Ferreira morreu na manhã da quarta-feira (6) após procedimento de coleta de óvulos - Juliano Verardi /Divulgação TJRS

A juíza Mariana Francisco Ferreira, 34, morreu na última quarta (6) em Mogi das Cruzes (SP) após complicações de uma coleta de óvulos para FIV (fertilização in vitro). Segundo o boletim de ocorrência registrado pela mãe, após o procedimento ela começou a sentir dor intensa, seguida de hemorragia vaginal. Foi internada em UTI, passou por cirurgia e horas depois teve duas paradas cardiorrespiratórias.

Não foi o primeiro caso neste ano em que um procedimento de reprodução assistida resultou em morte. Em fevereiro, a terapeuta Gabriela Martins Moura, 31, morreu em São Paulo após complicações. Ela ficou internada por oito dias no Hospital Sírio-Libanês, onde a morte encefálica foi confirmada.

A reportagem conversou com uma especialista para entender se as mulheres precisam se preocupar, quais os riscos do procedimento e como podem se prevenir.

'Casos isolados de óbito geram grande alarme, mas as mulheres devem ser informadas de que a medicina reprodutiva possui protocolos rigorosos de segurança', afirma Rivia Mara Lamaita, presidente da Comissão Nacional Especializada em Reprodução Assistida da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

'O risco zero não existe na medicina, mas a evolução das técnicas de ultrassom e dos protocolos de estimulação reduziu drasticamente as complicações graves', acrescenta a médica.

A coleta de óvulos é considerada um procedimento cirúrgico seguro. Dados de monitoramento internacional indicam uma taxa de complicações de cerca de 0,17%.

Mortes relacionadas a tratamentos de reprodução assistida são extremamente raras, diz Lamaita. Grandes pesquisas e levantamentos apontam que as causas geralmente não estão ligadas diretamente ao à punção dos óvulos, ela afirma.

A hemorragia identificada no caso de Mariana pode ocorrer pela punção da parede vaginal ou por lesões acidentais em vasos sanguíneos pélvicos na trajetória da agulha, explica a especialista. Entre as complicações possíveis estão sangramentos vaginais ou abdominais, infecções como abscessos pélvicos, lesões em órgãos como bexiga e intestino e complicações relacionadas à sedação.

Outros procedimentos da reprodução assistida também apresentam riscos, embora em escalas diferentes. 'A transferência de embriões é menos invasiva, mas a estimulação ovariana traz o risco da Síndrome de Hiperestimulação Ovariana', diz Lamaita.

Em casos graves, essa síndrome pode levar a desequilíbrios eletrolíticos, acúmulo de líquido no abdômen e eventos de trombose, segundo a médica.

Como forma de se resguardar, uma vez que existem riscos inerentes a qualquer intervenção invasiva, a paciente pode fornecer ao médico um histórico detalhado, incluindo cirurgias anteriores, distúrbios de coagulação e medicamentos em uso. 'Esses fatores influenciam diretamente os riscos individuais', diz Lamaita.

É importante também tirar todas as dúvidas que surgirem durante o processo e seguir rigorosamente as instruções de jejum e os horários das medicações.

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Verifique se os médicos têm título de especialista e experiência comprovada em reprodução assistida. A clínica deve ter equipamentos modernos, monitoramento anestésico adequado e protocolos claros para emergências, incluindo planos de transferência hospitalar, afirma a especialista.

Clínicas confiáveis discutem abertamente taxas de sucesso e de risco, ela diz. Também é possível consultar o histórico sanitário do estabelecimento nos portais estaduais da Vigilância Sanitária.

No dia seguinte à morte de Mariana, o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo fiscalizou a clínica Invitro Reprodução Assistida e encontrou irregularidades em lotes de agulhas de aspiração, como ausência de rastreabilidade e de registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Foi lavrado auto de infração e feita a interdição cautelar dos produtos. A unidade já havia sido autuada outras três vezes, duas em dezembro de 2024 e outra em dezembro de 2023.

A Folha tenta contato com a clínica desde quinta-feira (7). Nesta sexta (8), a reportagem recebeu a resposta de que os responsáveis não iriam se manifestar sobre a morte de Mariana. A Polícia Civil investiga o caso como morte suspeita.

Após a coleta de óvulos, alguns sintomas exigem atenção imediata: dor abdominal intensa que não melhora com analgésicos, aumento súbito do volume abdominal e sangramento vaginal excessivo.

Também são sinais de alerta tontura, desmaio, falta de ar, palpitações e alterações urinárias como dificuldade para urinar, dor ao urinar ou sangue na urina.

Diante de qualquer um desses sintomas, a orientação de Lamaita é buscar imediatamente um pronto-socorro ou hospital com estrutura para emergências.